Arquivo para Março, 2008

Próximas jornadas

Em Abril começaremos a centrar as nossas atenções nas plantas exóticas e invasoras, que são uma das principais ameaças aos ecossistemas nativos e respectiva diversidade. As espécies com características invasoras mais importantes do Cabeço Santo são as acácias (Acacia longifolia e Acacia dealbata). Depois do incêndio de 2005 também o eucalipto se revelou, em muitas áreas, como espécie invasora (com uma multiplicação seminal massiva), ocorrendo ainda, como espécie invasora de importância secundária, a Hackea sericea (háquea-picante).

As jornadas de trabalho voluntário ocupar-se-ão sobretudo de Acacia longifolia e eucalipto. As mimosas, que ocorrem sobretudo nos vales, onde os fenómenos de invasão são assustadores, ficarão sobretudo a cargo de mão-de-obra remunerada, que começará a actuar em Maio a tempo inteiro ou quase inteiro.

As plantas de Acacia longifolia serão cortadas com tesouras de poda de cabos compridos. As que ainda se podem arrancar serão arrancadas mas essas são já a minoria. Em manchas monoespecíficas de plantas até um metro de altura pode-se usar herbicida, mas nesta espécie vamos evitar utilizá-lo. Já no caso dos eucaliptos, também serão cortados numa primeira fase, mas após a rebentação teremos mesmo de usar herbicida, excepto em locais onde este corra o risco de atingir plantas nativas mais importantes, onde optaremos pelo corte repetido.

Este trabalho não é muito difícil de realizar, embora seja bastante repetitivo, o que poderemos moderar mudando de local de vez em quando e… tirando uns períodos para observar flores ou outras coisas interessantes.

Suficientemente “atractivo” para a comunidade voluntária?!

Paulo Domingues

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4ª jornada de trabalho voluntário

Pela quarta vez este ano um grupo de voluntários reuniu-se para subir até ao Cabeço Santo e realizar uma jornada de trabalho. Desta vez, previa-se concluir os trabalhos de sementeira e plantação. Na “bagagem”, encontravam-se já os últimos medronheiros disponíveis, cerca de 130, uns trinta carvalhos envasados ainda da época de 2006/7, vinte carvalhos e castanheiros já desta última época em tabuleiro de alvéolos, bolotas de carvalho e castanhas pré-germinadas também do último Outono, e ainda uma dúzia de bolotas de sobreiro que haviam restado dos trabalhos de há duas semanas. A Esteva não tinha podido vir e o Raul vinha mais tarde pelo que três voluntários e um não voluntário subiram ao Cabeço pouco depois das 9:30h. As previsões meteorológicas não eram as mais favoráveis mas o céu apresentava-se com boas abertas a ocidente e alguns voluntários foram prevenidos com impermeáveis. No Cabeço, contudo, o panorama era diferente: nuvens negras e vento, muito vento frio de noroeste. E, quase ainda não tinhamos “aquecido ” as ferramentas, quando um aguaceiro se abateu sobre a equipa. Alguns refugiaram-se dentro de portas, mas um voluntário mais corajoso não se rendeu. E o aguaceiro, “vendo” que não levava a melhor, lá se afastou para outras paragens passados uns 15 minutos. Foi então que o trabalho começou a sério: o nosso não voluntário abriu buracos e os outros plantaram medronheiros.

A área de trabalhos era aquele espaço de reconversão de eucaliptal da propriedade da Silvicaima, na qual já tinhamos plantado medronheiros e semeado sobreiros. O solo, difícil, delgado, e com muitas pedras, requeria uma busca cuidada dos locais mais apropriados. Além disso, esta era a parte mais invadida com Acacia longifolia, ainda com muitas plantas pequenas e fáceis de arrancar. Dois voluntários tiveram até a feliz ideia de arrancar acácias em torno dos medronheiros plantados e com elas fazer um “mulching” junto aos pés destes. É o que se chama transformar um “mal” num “bem”.

Entretanto, o Raul chegou, e fez-se uma pausa para as tangerinas, e… para a observação de flores.

As flores que nesta altura mais se destacam na paisagem são as de carqueja e as de tojo, duas plantas do matagal lenhoso. Ambas pintam a paisagem de um amarelo vivo, que atrai o olhar, mesmo ao longe. No local onde andávamos, não havia muito tojo mas sim alguma carqueja, essa planta “humilde” e frugal, tão desprezada, mas tão cheia de virtudes e de usos úteis ao homem. Entre as herbáceas, havia contudo agora uma flor que ocorria com abundância naquele local: trata-se da cila-de-uma-folha (Scilla monophyllos), pequena planta bolbosa com uma flor de cor azul, também conhecida por cebola-albarrã (“Planta bolbosa rica em substâncias activas e mesmo tóxicas. É diurética e expecturante. Externamente usam-se as escamas do bolbo (em verde) pisadas e formando cataplasma, aplicadas três ou quatro vezes ao dia cura os joelhos de àgua.” Com um obrigado à Rosa [http://cheirar.blogspot.com]). Outra planta que chamava a atenção pelas suas flores intensamente azuis era a Lithodora prostata (erva-das-sete-sangrias). Também o lentisco se encontrava em flor, mas este já na sua fase final de floração.

Observadas as flores, voltou-se ao trabalho, mas a manhã ainda não haveria de acabar sem que um aguaceiro não muito forte, mas empurrado pelo vento que o acompanhava, se tivesse abatido de novo sobre os participantes.

Ao terminar a manhã, praticamente todo o espaço disponível naquela área estava ocupado, embora ainda tivessem sobrado uns 40 medronheiros. O merecido almoço foi fruído usando a carrinha como corta-vento, pois este teimava em não enfraquecer.

À tarde, o grupo deslocou-se até uma parcela junto à antiga casa de trabalhadores da Silvicaima, para plantar e semear carvalhos. Já aqui tinhamos iniciado a sementeira 3 semanas antes e agora tratava-se de concluir o trabalho. Primeiro foram plantadas as árvores envasadas. Os medronheiros que tinham restado foram também plantados. Finalmente, foram semeadas as bolotas. Depois do lanche, o grupo deslocou-se até à casa da Silvicaima e, como já fora feito outras vezes, sonhou com a possibilidade de aquela que já foi uma bonita casa de trabalho ser um dia recuperada e usada por grupos de jovens de todas as idades dedicados a esta tarefa gigantesca de recuperar uma natureza tão degradada. A “semente” já foi em tempos lançada ao “solo”, mas não se conhece o seu grau de letargia, não se sabe quanto tempo demorará a “germinar”. O que julgamos saber é que a Vida anseia por essa eclosão.

Depois desta visita já não havia muito tempo disponível, mas o espaço para plantação também já se encontrava praticamente completo. Assim se concluiu a época de plantação e sementeira, com perto de 1000 árvores e arbustos nativos plantados ou semeados. Ainda necessitarão de alguns cuidados e acompanhamento, mas por agora a missão está cumprida. Um obrigado a todos os voluntários que para ela contribuiram e particularmente aos que neste dia tão entusiasticamente participaram.

Carga de material, incluindo comida Um voluntário não se deixou intimidar pela chuva e pelo vento

cila-de-uma-folha Voluntários conferenciando sobre as muitas virtudes da carqueja

Carqueja erva-das-sete-sangrias

Foto de fam�lia de quase todos os voluntários participantes Descontracção final

Paulo Domingues

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Próxima jornada

Na próxima jornada, dia 15 de Março, iremos concluir os trabalhos de plantação e sementeira de árvores. Ainda restam pouco mais de 100 medronheiros, que serão plantados na parcela de reconversão de eucaliptal da propriedade da Silvicaima, e as bolotas de carvalho (e ainda alguns carvalhos envasados), que serão semeadas/plantados numa parcela onde foram já realizados trabalhos de sementeira numa jornada anterior.

O ano, claro, segue anormalmente seco, o que pode comprometer o sucesso destes trabalhos. Mas, a nossa missão é fazer o que está ao nosso alcance… e esperar que melhores dias venham. (E, mesmo que não venham, não perder o ânimo). Entretanto, a Primavera anuncia-se já, e com antecipação em relação a anos “normais”. Que flores podemos observar em cada momento do ano é um interessante exercício de observação e contemplação. Que flores podemos observar no Cabeço Santo ainda antes de terminar o Inverno? Esperamos ter tempo para descobrir algumas no dia 15 de Março.

Paulo Domingues

Salgueiro em flor, com abelhão

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3ª Jornada de Trabalho Voluntário

Esta foi uma jornada quase inteiramente dedicada ao sobreiro. Não são conhecidas, nesta região, manchas florestais onde o sobreiro seja dominante. Ele ocorre sobretudo com árvores isoladas, ou em consociação com outras espécies nas pequenas manchas semi-espontâneas que chegaram até nós, mas manchas estas que se encontram sobretudo perto de zonas ribeirinhas, onde o carvalho-roble se encontra mais adaptado. É mesmo um sobreiro a árvore mais “monumental” de Belazaima, encontrando-se esta dentro do núcleo urbano e estando classificada como tal. Quando, por meados do sec. XX, a cultura rural tradicional se começou a eclipsar, processo que aqui foi muito rápido, devido à proximidade do litoral e à rápida absorção de novos modos de vida, havia notícia de várias árvores monumentais isoladas, quer sobreiros, quer carvalhos. No entanto, quer por descortiçamento indevido, quer por corte, quase todas elas foram destruídas.

No Cabeço Santo em particular, havia no passado poucas árvores porque a área era utilizada como pastagem extensiva e os rebanhos, como em todo o lado, eram um eficaz obstáculo à reconstituição de massas boscosas significativas. Mas, consociado com o mais abundante medronheiro, o sobreiro encontra-se também, disperso, numa distribuição talvez mais limitada pelas características do solo onde se conservaram os medronhais do que por motivos mais abrangentes de inadequação.

Os trabalhos de sementeira desta 3ª jornada ocorreram numa área de reconversão de eucaliptal para conservação da propriedade da Silvicaima. Trata-se de uma área onde o solo não é tão marginal como nas zonas de carácter mais rupícola, com exposição para oeste e relativamente seco, por se encontrar quase no alto da encosta. O solo já tinha sido mobilizado para a plantação de eucaliptos, o que, se por um lado o deixou largamente livre de vegetação espontânea, e portanto mais acessível, também o deixou muito misturado com pedras soltas, e portanto difícil de trabalhar. Mas isso já sabiamos porque tinham decorrido aí trabalhos de plantação de medronheiros. A visão que temos para esta área de uns dois hectares é portanto a de um bosque de características mediterrânicas no qual a vegetação arbórea dominante é constituída por sobreiros e medronheiros. Bosques espontâneos deste tipo, embora não se encontrem nesta região, podem ainda serem encontrados mais a sul.

Pelo facto de se tratar de um solo difícil, optou-se por fazer uma sementeira de bolotas de sobreiro em vez de uma plantação. A sementeira permite um estabelecimento mais vigoroso do sistema radical da planta do que a plantação, permitindo-lhe superar mais facilmente condições difíceis. Ao fazer-se a sementeira no final do Inverno, a bolota inicia rapidamente o seu desenvolvimento, ficando menos vulnerável a perdas. Por outro lado, a disponibilidade de bolotas nesta altura em fase inicial de germinação só é possível por conservação, o que, no caso do sobreiro, é particularmente difícil. Daí termos utilizado nesta sementeira bolotas fornecidas pela empresa “Semente do Sucesso, Lda”, tendo o seu responsável, Dr. H. Merouani, orientado e participado nos trabalhos de sementeira. Ainda assim, é essencial proteger as bolotas com tubos de protecção pois de contrário seriam rapidamente predadas, sobretudo por pequenos roedores (ratos).

bolota de sobreiro em germinação.jpg bolota já colocada no solo.jpg

Preparação final Sementeira conclu�da

O grupo de trabalho tinha 9 elementos, um dos quais não voluntário, a fim de operar uma máquina de abrir buracos. Rapidamente se estabeleceu uma divisão de tarefas no terreno, e os trabalhos progrediram a bom ritmo durante a manhã. Alguns voluntários puderam mesmo dedicar-se a outras tarefas como arrancar acácias ou cortar rebentos de eucalipto que tinham resistido à operação de eliminação por aplicação de herbicida.

Depois de um almoço em forma de piquenique, os trabalhos evoluiram com dinâmica encosta acima, até que os tubos de protecção se esgotaram, pelo que foi necessário ir buscar mais alguns para se poderem concluir os trabalhos, ocupando-se quase toda a área disponível nesta zona. E ainda houve tempo, no final do dia, para plantar uma dúzia de medronheiros no aterro de um novo caminho aberto pela Silvicaima. Balanço final: cerca de 250 sobreiros semeados e ainda os medronheiros.

Perspectiva do trabalho realizado Grupo de trabalho quase completo

E foi perante um pôr-de-sol radioso que o grupo se reuniu para uma foto final. Um agradecimento a todos os voluntários que participaram nesta jornada.

Paulo Domingues

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