Arquivo para Abril, 2008

Êxtase da Primavera

No dia 26 de Abril, o sanganho-mouro (Cistus salvifolius) encontra-se talvez próximo do seu pico de floração, no Cabeço Santo. Nos locais onde é mais abundante, reveste um solo paupérrimo de um manto de salpicos brancos. Ainda que a foto seja apenas uma pálida  representação da coisa viva, aqui fica uma imagem desse panorama. Mas, um momento,… há aqui também alguns elementos estranhos, não há? Com efeito, há duas espécies de plantas invasoras nesta imagem, embora uma seja relativamente difícil de encontrar: Acacia longifolia e Hackea sericea.

sanganho-mouro em flor

Paulo Domingues

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Visita de estudo no Dia da Terra

No dia 22 de Abril, Dia da Terra, realizou-se uma visita de estudo ao Cabeço Santo, desta vez de quatro turmas de alunos da Escola Secundária Adolfo Portela, de Águeda. Duas turmas vieram de manhã e duas à tarde.

O percurso proposto foi um percurso quase circular, com início junto aos portões da Silvicaima, fazendo o antigo caminho florestal em Direcção a Belazaima-a-Velha e depois subindo até à cota dos 400 metros em direcção ao terreno da Quercus.

Nas diversas paragens foram abordados diferentes tópicos, ilustrados pelo panorama que se podia observar no terreno. Aqui ficam eles, com referência aos números da carta que serviu de base ao percurso:

1: A erosão da biodiversidade e suas causas à escala global e local: perda de habitat (localmente devido à ocupação do espaço para o cultivo de árvores em regime extensivo/intensivo) e expansão de espécies invasoras (localmente Acacia dealbata, Acacia longifolia e, em menor extensão, Hackea sericia). As primeiras duas destas espécies puderam ser observadas aqui. Fez-se notar a falta de cuidado que houve na primeira “vaga” de exploração do solo de montanha para os cultivos florestais, pela ocupação de linhas de água principais e secundárias, zonas muito declivosas e de muito difícil acesso.

2: Nesta primeira área de conservação na propriedade da Silvicaima foi referido o cuidado tido pela empresa ao reservar áreas para efeitos de conservação no seu actual plano de replantação, ainda que só isso não permita atingir esse objectivo: é necessário muito trabalho de recuperação, sobretudo de eliminação da flora exótica e invasora (objectivo do projecto). Atenção para a importância de recuperar os “corredores ecológicos” que constituem as linhas de água secundárias a fim de minorar o efeito de fragmentação dos diferentes habitats. Um corte no terreno provocado pelo alargamento do caminho permitiu observar os diferentes horizontes de um solo bem estruturado e da sua importância para a ocorrência de um conjunto diversificado de plantas, bem como para a limitação dos fenómenos erosivos. Foi referido o facto de as plantas que germinaram após o fogo (incluindo os indesejáveis eucaliptos) o terem de feito de forma muito mais intensa nas zonas de solo não mobilizado. Chamou-se a atenção, em contrapartida, para a profunda alteração da estrutura de solo que resulta das operações de mobilização para plantações novas, em particular quando essas operações se traduzem na formação de socalcos.

3: Um carvalho em muito mau estado foi o pretexto para se falar da importância das Quercineas na flora nativa local, do seu valor ecológico, e da sua relevância na limitação da progressão dos incêndios, embora a espécie mais importante localmente (o carvalho roble) seja actualmente quase pontual. Os vales em recuperação com condições para tal serão plantados com esta espécie. Do outro lado do caminho foi observada uma primeira mancha densa de Acacia longifolia, sendo também o pretexto para falar das leguminosas nativas (tojos, carqueja, giesta) e da sua importância para a recuperação dos solos degradados, devido à fixação do azoto e outros nutrientes minerais disponíveis em formas pouco acessíveis no solo, e à sua contribuição com matéria orgânica para o mesmo. O vale encontrado a seguir é um dos que se encontra em pior estado, com uma grande densidade de mimosas, observado-se ainda as queimadas em pé.

4: Bonita queda de água, embora temporária. A área que se encontra a seguir tinha pinhal, mas devido aos sucessivos incêndios que a atingiram, o pinhal deixou de se regenerar espontâneamente e cessou o interesse em continuar com ele. A área contém agora matagal. Embora também vulnerável ao fogo e frequentemente “amaldiçoado”, o matagal tem grande importância ecológica, pelo que, de um ponto de vista da conservação, é uma comunidade de plantas valiosa. O matagal, tal como as comunidades de plantas nativas em geral, têm uma grande capacidade de regeneração após o fogo, desafiando a ideia de que o fogo “é o maior inimigo da floresta”. Pode sê-lo das plantações de árvores, indevidamente apelidadas de “florestas”, mas não de formações nativas bem estabelecidas. Destas, a maior ameaça é certamente a acção do homem.

5: Observação da giesta, agora em flor, e das violetas. Esta é uma das duas zonas de toda a área de conservação em que a giesta ocorre com abundância, não se sabendo se por ter sido plantada ou se por aqui encontrar condições particularmente favoráveis. Início da subida.

6: Do lado esquerdo do caminho encontram-se alguns interessantes exemplos de comunidades de plantas do matagal lenhoso.

7: Observação da cabeceira do vale e do seu estado de invasão com mimosas e eucaliptos. Apresentação de outras plantas do matagal lenhoso com grande expressão no monte: As urzes, tendo sido observadas a Erica umbellata (queiroga) e a Erica scoparia (urze-das-vassouras), e o Cistus salvifolius (sanganho-mouro), agora em abundante floração.

8: Observação de um medronheiro com fruto. O medronheiro é uma espécie arbustiva dominante no Cabeço Santo e tem grande importância ecológica. Floresce no final do Outono e frutifica um ano depois. Por isso, a maior parte dos medronheiros queimados em 2005 ainda não frutificou nem talvez o faça este ano. Outras espécies arbustivas nativas com expressão no monte são a murta e o lentisco, tendo, pelo menos da segunda, sido observado um exemplar.

9: Observação de elementos de natureza geológica.

10: Observação, à esquerda, da zona mais invadida com Acacia longifolia e do trabalho que aí já foi realizado em 2007: corte das plantas de acácia à volta dos arbustos nativos e abrindo “avenidas” de passagem pela mancha de acácias, aqui frequentemente já com 1.5 a 2 metros de altura. À direita encontra-se uma área onde foi colocada uma prioridade de intervenção em 2007, tendo-se realizado arranque, corte e pulverização com herbicida nas manchas de plantas pequenas. No entanto, embora o “grosso” do trabalho tenha sido realizado, ainda é necessário aí voltar para elimainar acácias remanescentes. Foi observada uma mancha pulverizada onde ainda sobrevivem bastantes plantas. Uma planta de acácia já com uma abundância de vagens em formação, permitiu falar da ausência de predadores naturais das espécies de plantas invasoras, o que contribui para o seu indesejável sucesso.

11: Foi observada uma área de reconversão de eucaliptal onde foram removidos os eucaliptos por aplicação de herbicida, e onde foram semeados sobreiros e plantados medronheiros. Um sobreiro de uns 5 metros de altura, única árvore cuja parte aérea resistiu ao fogo nesta zona, testemunhava a capacidade da espécie para recuperar a partir dessa mesma parte aérea e não apenas da subterrânea, como o faz a quase totalidade das plantas. A jusante, observou-se ao longe o terreno adquirido pela Quercus, e aproveitou-se para falar sobre as micro-reservas e o trabalho voluntário. Já de regresso a casa, uma surpresa: várias flores de campainhas amarelas numa área insuspeitada. (Só o grupo da manhã fez este percurso porque à tarde choveu, havia menos tempo disponível, e o grupo apressou-se a voltar ao autocarro).

12: Descida para o autocarro, por um caminho íngreme, e fim da visita.

Esperamos que tenham aproveitado,… e que voltem! Uma palavra de apreço às professoras pelo interesse demonstrado.

Aprendendo com as coisas menos belas

Paulo Domingues

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Visita de estudo

No dia 15 de Abril realizou-se uma visita de estudo ao Cabeço Santo por parte de duas turmas de alunos da Escola Secundária de São Pedro do Sul. À sua espera estava um excelente dia de Primavera, luminoso mas com temperaturas amenas.

O autocarro deixou os alunos nos portões da Silvicaima, e o primeiro desafio foi subir a montanha a pé. A paisagem não ajudava, isso já se sabia… mas todos chegaram ao objectivo. Feita uma apresentação inicial, o grupo passou à acção fazendo um pouco de trabalho: arrancar e cortar plantas de Acacia longifolia. A paisagem era agora mais apelativa, chamando particularmente a atenção as flores de Cistus salvifolius.

Depois desta pequena experiência do trabalho que é necessário fazer para recuperar o monte, fez-se um curto percurso a pé para observar outros elementos da flora local, mas em breve era necessário regressar ao autocarro: o almoço iria realizar-se já fora do monte, num carvalhal perto de Belazaima. Dado que se trata de um carvalhal com parcelas em diferentes fases de recuperação, os alunos tiveram oportunidade de verificar como essas diferentes fases se caracterizam por diferentes comunidades florísticas: primeiro, enquanto as árvores são pequenas, há uma abundância de plantas do matagal lenhoso, depois, estas são substituídas pelo coberto arbóreo, contribuindo com a sua massa vegetal para o enriquecimento do solo.

Junto ao ribeiro, os alunos puderam observar a parcela mais antiga de carvalhal, onde abundam também arbustos como o amieiro-negro, o sabugueiro e o loureiro, e árvores da vegetação ribeirinha como o salgueiro.

Depois desta curta visita, nova deslocação até um terreno, queimado em 2005, onde se realiza trabalho de recuperação da flora nativa. Aqui, num vale afluente do Ribeiro de Belazaima, os alunos tiveram oportunidade de plantar árvores: tratou-se de carvalhos em tabuleiros de alvéolos, germinados no último Outono/Inverno, e que agora apresentam já um torrão bem consolidado, permitindo a sua plantação nesta altura do ano. Depois de plantados, os carvalhos foram protegidos por meio de tubos, pois os coelhos andavam já à espreita para se deliciarem com tenros rebentos de carvalho jovem. Mas paciência, terão que procurar outra coisa, já que estes carvalhos foram destinados a sobreviver a muitas gerações para além da que os plantou.

Oxalá assim seja: que, muitos anos mais tarde, os jovens que agora plantaram estas árvores aqui possam  voltar e abraçá-las de novo. E depois os seus filhos, mais tarde os seus netos, e por aí adiante até que a memória se desvaneça. Mas, o mais importante é que estes jovens tenham levado daqui uma pitada de ânimo, que os anime a contribuir, ao longo das suas vidas, para este enorme desafio que é o de recuperar a biodiversidade com a qual a nossa terra foi pela natureza tão generosamente agraciada.

Subida ao Cabeço Santo

Cortando acácias

Visitando um carvalhal

Plantando árvores

Um obrigado às professoras pelas fotos!

Paulo Domingues

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Próxima jornada e algo mais

No dia 19 de Abril continuaremos a “tratar” da vegetação exótica e invasora. Será também tempo de visitar as áreas recentemente plantadas e verificar se as plantas precisam de atenção. Com tanto vento, os medronheiros são quase deitados, dada a sua ainda débil ligação à terra. Mas a chuva que tem caído é uma bênção, claro, num ano que decorria tão seco.

Ainda não chegámos ao pico de floração da Primavera, e cada semana traz por vezes novas surpresas. Estaremos atentos a elas.

Entretanto, foram acrescentados alguns ficheiros novos às páginas “O Cabeço Santo” e “Trabalhos em 2006 e 2007″.

Paulo Domingues

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5ª Jornada de trabalho voluntário

Para a última jornada de trabalho voluntário, realizada no dia 5 de Abril, inscreveram-se apenas dois voluntários, devendo-se contudo esclarecer que o número de voluntários no campo é sempre mais um que o número de inscritos. Mas realizou-se na mesma, aliás um dos inscritos já tinha dado o mote: “poucos, mas bons” (desculpem os leitores a falta de modéstia).

A equipa, ainda reduzida a dois elementos, subiu ao Cabeço Santo pouco depois das 9:30h. O objectivo era prioritariamente realizar uma intervenção sobre o que ainda restava da mancha de eucaliptos do terreno da Quercus, na encosta voltada a noroeste. Nestes eucaliptos tinha-se evitado até agora usar herbicida, devido à densidade e proximidade de vegetação nativa. Por isso, os rebentos das primitivas árvores tinham sido já cortados duas vezes, uma no final de 2006 e outra no final de 2007, e na “pior” altura para a sobrevivência dos eucaliptos, que é o final do Outono. Mesmo assim ainda se verificava a presença de muitos rebentos e também ainda de bastantes plantas de origem seminal, embora já tivessem também sido arrancadas duas vezes.

Desta vez optou-se por usar herbicida, pelo menos na mancha de eucaliptos mais densa, acessível e menos misturada com vegetação nativa. Essa opção deveu-se também ao facto de o tempo estar óptimo para o efeito, e de os rebentos de eucalipto terem também agora uma dimensão apropriada (nem muito grandes nem muito pequenos).

Na maior parte da área de intervenção o trabalho foi manual, arrancando os eucaliptos de origem seminal, cortando com machadas os rebentos e cortando as acácias-de-folhas-longas com tesourões de cabos compridos.

Quando o terceiro voluntário chegou, uma faixa de antigo eucaliptal havia já sido trabalhada deparando-nos agora com uma área com um número significativo de plantas de acácia-de-folhas-longas. Aqui o problema é que estas estavam muito misturadas com o matagal nativo e particularmente com tojos da espécie Genista triacanthos. Para quem ainda não teve a oportunidade de contactar com estes tojos esclarece-se que arranham muito, pois que embora não tenham espinhos tão possantes como os do gérnero Ulex, são muito abundantes e as plantas da espécie formam matagais muito impenetráveis. Resultado: braços muito arranhados, coisa que os voluntários toleraram estoicamente. Nesta zona havia também muitas flores, sobretudo de sanganho-mouro, e outras cuja floração já se adivinhava, o que contribuiu para atenuar as dores. Aliás toda esta área na zona sul do terreno da Quercus foi muito pouco pressionada desde o fim do modo de vida tradicional, o que lhe permitiu ser livremente ocupada por uma vegetação nativa diversa e de grande beleza.

Entretanto era hora do almoço e a equipa procurou uma sombra para o efeito. À tarde uma nova voluntária juntou-se ao grupo: a Urze, e já eramos quatro! Os trabalhos continuaram na encosta do lado sul do terreno da Quercus, mas agora em direcção ao vale: mais eucaliptos e depois, já perto do vale, mais acácias. O trabalho não foi muito diverso, mas as flores, a passagem ocasional de uma rapina, as paragens para umas deliciosas tangerinas, a camaradagem, e o sentimento de contribuir para uma causa nobre decerto que muito ajudaram a moderar os efeitos do esforço requerido.

Já pelo final da tarde, no vale, uma preciosa recompensa: duas delicadas flores de campainhas-amarelas: dois dos voluntários não as puderam apreciar porque se encontravam afastados pelo que, para eles em primeiro lugar, aqui ficam algumas fotos delas.

A tarde aproximava-se do fim e um vento fresco de oeste, bem diferente do que havia soprado nos dias anteriores, alimentava a vontade de continuar, tanto mais que ainda ficou aqui trabalho para fazer. Mas não podia ser: até mesmo as coisas boas devem terminar para que outras coisas boas possam surgir. Então o grupo desceu a montanha e, já cá em baixo, desfez-se com abraços… até uma próxima jornada.

 Eucaliptos pulverizados Paisagem florida com predominância de sanganho-mouro Genista triacanthos, tojo-molar

 Flores de sanganho-mouro campainhas-amarelas campainhas-amarelas

Nesta imagem há dois voluntários em acção; procure-os! Frutos de salsaparrilha-bastarda e flores de urze-branca Três dos quatro voluntários participantes neste dia

Paulo Domingues

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