Arquivo para Maio, 2008

Próximas jornadas

Esta semana realizou-se ao Cabeço Santo uma visita do responsável máximo da Silvicaima pela propriedade, com o objectivo de definir no terreno os limites das áreas de intervenção para recuperação da flora nativa, a levar a cabo pela Quercus. Esse trabalho será realizado sobretudo por uma ou mais equipas de pessoal contratado, e para o qual a própria Silvicaima (e a também a Câmara Municipal de Águeda) contribui financeiramente. Uma vez definidas as áreas de intervenção, os trabalhos irão começar muito em breve. Numa primeira fase a vegetação exótica e invasora será cortada, quer por meios manuais, quer mecânicos. Numa segunda fase, que é muito importante que se realize apenas no Verão e, no máximo, no princípio do Outono, haverá aplicação de herbicida sobre as rebentações desta vegetação. Por isso é tão importante que a primeira fase comece logo que possível.

Neste contexto, há um trabalho muito importante que uma equipa de voluntários poderá realizar: percorrer as zonas de intervenção, procurar entre os eucaliptos e as acácias os arbustos nativos ou outras plantas que mereçam particular atenção e assinalá-las por meio de uma faixa bem visível, eventualmente fazer alguma limpeza no seu entorno, de modo a que as equipas contratadas não as cortem inadvertidamente. Não é que essas plantas não recuperassem de novo, mas, uma vez cortadas, ficam também muito mais vulneráveis à aplicação de herbicida. Vamos pois tentar que o trabalho que se vai seguir seja o menos comprometedor possível para os valores que afinal é seu objectivo conservar e proteger. As áreas de intervenção são, não apenas áreas de encosta, mas também áreas ribeirinhas, junto ao Ribeiro de Belazaima. São muitos hectares muito mal tratados nos quais irá este ano ser aplicado um esforço decisivo de recuperação.

Claro que não será um trabalho fácil porque muitas das áreas de intervenção são extremamente declivosas e frequentemente rochosas. Mas faremos o que for possível sem correr riscos desnecessários. Haverá voluntários para um empreendimento assumidamente exigente, embora de grande relevância para o sucesso da intervenção? O desafio está lançado. Visitem a página “Disponibilidade, inscrições”.

Ribeiro de Belazaima, última oportunidade

Paulo Domingues

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Jornada de 17 de Maio

No passado Sábado, embora sem voluntários, foram realizados alguns dos trabalhos previstos. De manhã foram semeadas as bolotas de sobreiro, cerca de 460, com o objectivo de obter plantas para as plantações no próximo ano, e, muito em particular, plantar a área de sementeira destruída pelos javalis (1). As que tinham já sido plantadas em tabuleiros por altura da sementeira de campo encontram-se agora já com um palmo de altura, mercê das condições de estufa (2). Também os carvalhos crescem a bom ritmo (3).

(1) bolotas de sobreiro hoje semeadas (tabuleiro de 40 plantas) (2) Sementeira recente em tabuleiro de 20 plantas e plantas mais antigas (3) Carvalho roble em tabuleiros de alvéolos

À tarde foi tempo de ir até ao Cabeço Santo. Estava previsto o trabalho de recolha dos tubos já sem uso, mas, havia tanto para ver,… e fotografar! Aproveito para partilhar com os visitantes deste blogue algumas dessas observações, embora nunca seja excessivo acentuar que no pequeno ecrã não se reproduzem as texturas, os cheiros, os movimentos, os sons,… e tudo o resto que nem pode ser descrito porque só pode ser sentido!

O amarelo dos tojos da espécie Genista triacanthos domina ainda as zonas onde o matagal é predominante, dando à paisagem uma tonalidade amarela, visível mesmo da povoação (4). Nos locais onde o medronhal é mais vigoroso, como na propriedade da Quercus, os medronheiros atingem já mais de 2 metros de altura, mas ainda não escondem os ramos queimados em 2005 (5). É interessante ver a extrema da propriedade da Quercus e de como a paisagem de cada um dos lados causa uma impressão diferente (6).

(4) Paisagem marcada por Genista triacanthos (5) Medronhal na propriedade da Quercus (6) Extrema da propriedade da Quercus

A flora rupícola, onde são predominantes as plantas de Sedum album (arroz-dos-telhados), atinge agora a sua máxima expressão, revestindo as rochas de um tapete de flores brancas (7). Mas claro, não é uma “monocultura” de arroz. Chama particular atenção na perspectiva anterior outra flor branca: é Orithogalum concinnum, uma planta já apresentada num post anterior. Mas vale ainda a pena olhar mais de perto as pequenas e delicadas flores de Sedum album (8), ou a forma como se distribuem pelas rochas, aproveitando pequenas depressões, às vezes minúsculas depressões (9).

(7) Vegetação rup�cola com predominância de arroz-dos-telhados (8) Detalhe de Sedum album (9) Pequen�ssimo canteiro natural de arroz-dos-telhados

Uma planta que vale sempre a pena repetir é o rosmaninho (Lavandula stoechas) (10), não concordam? Oh! Logo ali está um canteiro de plantas já conhecidas (batón-azul) mas numa flor está uma borboleta, e parece estar a gostar! (11-12) É uma Melitaea athalia, ou… será uma Melitaea deione? Há algum especialista que se pronuncie?

(10) Rosmaninho em flor (11) Melitaea em batón-azul (12) Melitaea em batón-azul

Agora chego ao terreno de sementeira das bolotas de sobreiro. Os tubos aí estão, para serem recolhidos, mas já lá vamos. Aqui uma planta que já não via há anos no Cabeço Santo: o hipericão (Hypericum perforatum) (13), planta de aplicações medicinais, que aqui deve ter aparecido para ajudar a curar esta área que já foi eucaliptal. Mas é interessante ver como apenas um ano depois da remoção dos eucaliptos a diversidade de plantas já é maior. Logo ao lado, uma planta que é nesta zona muito abundante e que não consigo identificar (falta de um botânico voluntário!) (14). Muitas vezes misturada com ela aparece Anarrhinum bellidifolium, também uma bela planta que é “mel” para as abelhas (15)! Logo ali, uma cistacea de floração relativamente efémera, e que só aparece com abundância em certos locais: Halimium ocymoides (16). Ainda na mesma zona, uma outra planta de flor amarela, que num olhar rápido se confunde com a anterior, mas que de facto não lhe deve ser aparentada (17). Incluo também uma foto das folhas (18). Pode ser que algum leitor a possa identificar!

(13) Hipericão (14) Planta não identificada (14) Anarrhinum bellidifolium mais a anterior

(16) Halimium ocymoides (17) Flor não identificada (18) Folhas da flor não identificada

Ainda mais duas plantas a merecerem destaque por estas paragens: Lotus corniculatus (19) e cuscuta, uma planta parasitária que não lança raízes no solo mas apenas sobrevive sobre as restantes (20).

(19) Lotus corniculatus (20) Cuscuta, uma planta parasitária

E agora finalmente ao trabalho! O ingrato trabalho de recolher tubos de protecção que deviam estar a proteger bolotas semeadas! Um balanço global aproximado é o seguinte: de uns 300 tubos colocados, foram encontradas uma dúzia de plantas sem tubo e sem bolota, e também uma dezena de tubos não deslocados, alguns deles já com plantas emergentes. Os tubos poderiam ter sido deixados no terreno para a plantação, mas como o plástico se degrada com a radiação solar, ficam melhor guardados.

Claro que, com as observações, já não foi possível ir recolher os tubos dos carvalhos. Terão de ficar para outra jornada. Também porque no caminho de regresso a Belazaima ainda havia umas observações a fazer. Só há um mês de Maio por ano!

Já com as cores “quentes” de um sol poente, ali, numa das que já foi uma das áreas mais afectadas pela Acacia longifolia, encontrei uma bonita planta de gladíolo-silvestre (21), mas havia muitas mais. E, duas centenas de metros à frente um canteiro de singulares dedaleiras (22). Para terminar, uma planta que não costumava encontrar no Cabeço Santo, mas mais nas proximidades dos carvalhais: a belissima Linaria triornithophora (23), conhecida pelo nome comum de esporas-bravas.

(21) Glad�olo silvestre (22) Dedaleira (23) Esporas bravas

E assim, concluída mais uma jornada de trabalho e de observação, desta vez tendo apenas por companhia as plantas, os insectos, as aves e o vento, regressei à “civilização”.

Paulo Domingues

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Próxima jornada

No dia 17 de Maio iremos recolher os tubos já sem utilidade e fazer uma avaliação mais precisa dos estragos causados pelos javalis nas sementeiras de sobreiro e carvalho, ou, dito de outra forma, fazer uma avaliação do sucesso das sementeiras. Ainda até ao próximo fim de semana serão semeadas em tabuleiros de alvéolos algumas centenas de bolotas de sobreiro. As plantas permanecerão em viveiro durante o Verão e parte do Outono e serão plantadas no próximo Outono/Inverno. Quanto aos carvalhos, há também algumas centenas em tabuleiros já desde o último Inverno, que serão também plantados no próximo Outono/Inverno, começando pela área de sementeira destruída.

No tempo que restar, faremos trabalhos de corte/arranque de plantas de espécies invasoras.

Carvalhos em tabuleiros de alvéolos

Paulo Domingues

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Visita de trabalho e observação

No dia 3 de Maio foi realizada uma jornada de preparação dos próximos trabalhos a realizar no Cabeço Santo por pessoal contratado, aqui ficando o relato possível dessa jornada, com ilustrações e mapa (1.4MB-pdf)  de seguimento! Ela iniciou-se na passagem do vale antes das antigas casas do guarda florestal da propriedade, agora em ruinas. O vale (1) encontra-se em muito mau estado mas não foi mobilizado para a nova plantação: uma esperança. Um pouco mais à frente, junto às casas, tem-se uma perspectiva da zona de conservação que fica em frente (2). Subindo a corta-mato nessa zona de conservação, que abrange dois vales, tem-se uma perspectiva da paisagem envolvente (3), observando-se zonas recentemente mobilizadas para novas plantações, zonas de ocupação antiga onde o eucaliptal será mantido, zonas de conservação ainda muito ocupadas por eucaliptos e outras exóticas e, finalmente, zonas rochosas que já tinham pouco ou nenhum eucaliptal. Algumas destas zonas tinham pinhal que não se regenerou naturalmente após o fogo. Enfim, uma paisagem retalhada, sem raridades nem monumentos, que aparentemente apresenta poucos argumentos para que alguém a queira cuidar e recuperar. Excepto um: gostar dela, amá-la…

(1) (2) (3)

Mais acima, uma zona onde a mobilização para plantação não chegou onde estava previsto (4), mas possivelmente porque as condições do terreno não o justificavam. Ainda esperamos que possa ser incluída na zona de conservação. Logo acima, já no caminho recém aberto, perspectiva do vale (5), densamente (assustadoramente) invadido por Acacia longifolia e eucaliptos. Já na zona de conservação, perspectiva do matagal, com a mancha de antigo eucaliptal a manter, em fundo (5a).

 (4) (5) (5a)

Depois de uma excursão pelo cume do monte sem memória fotográfica de valia, regresso ao antigo caminho florestal para uma visita às zonas já trabalhadas. Aqui os motivos de interesse aumentam! Logo ali, constatava-se que o rosmaninho já estava em flor, atraindo o seu cortejo de insectos e admiradores (6). As abelhas eram em grande número, mas quem chamou mais a atenção foi uma borboleta (Iphiclides feisthamelii) [7-8] que rodopiava em torno de uma flor de rosmaninho. Estava tão absorvida pela flor que se deixou fotografar à vontade! Um pouco mais à frente, uma planta de urze-das-vassouras em flor (9). O que é espantoso nesta planta é a sua densidade de flores, tão minusculas que vistas ao longe não se distinguem umas das outras, parecendo que a planta ficou pintada de uma tonalidade avermelhada. Poucos passos depois um pequeno jardim num banco rochoso (10). Nenhum jardineiro ousaria criar um jardim com estas mesmas espécies em tão pouco solo e sem rega. E no entanto, elas estão aí a testemunhar a insondável sabedoria da natureza!

(6) (8) (7)

(9) (10)

Chegamos agora a uma zona já intensamente trabalhada no ano passado, colhendo uma perspectiva (11). Destacam-se as acácias queimadas ainda em pé, mas aqui o trabalho de remoção das plantas emergentes já foi largamente realizado. Ainda há sanganho-mouro em flor (12) mas o pico de floração já foi claramente ultrapassado. No intervalo de apenas uma semana! Vejam bem: uma ausência de apenas duas semanas teria sido o suficiente para se perder esse maravilhoso panorama das manchas de sanganho-mouro em flor! A paisagem no seu todo ganha agora uma tonalidade amarela, mas por uma razão diferente da de há umas semanas: na altura era devido à floração da carqueja e de tojos do género Ulex; agora é devido à floração de tojos do género Genista (13), que aqui são abundantes. Logo ali, um bonito canteiro silvestre, cheio de flores de batón-azul (Jasione montana) (14).

(11) (12)

(13) (14)

Mas ainda estava para surgir um panorama de sabor amargo, agora sem responsabilidade humana (e contudo?!…): a sementeira de bolotas de sobreiro que tinhamos realizado em Fevereiro e que contou com uma generosa contribuição voluntária tinha sido destruída. Simplesmente assim: totalmente destruída. Logo foi empreendida a busca dos culpados, pela análise dos vestígios: tubos espalhados pelo terreno, não muito longe dos sítios de sementeira; perfurações do solo em muitos sítios de sementeira; cascas de bolota em alguns; meia dúzia de plantas de sobreiro saindo do solo… sem bolota (15-17). Os “culpados” não foram difíceis de identificar: javalis. Javalis esfomeados e “espertos”, que logo que aprenderam que dentro dum tubo se encontrava uma bolota, mesmo enterrada, não descansaram enquanto não arrancaram todos os tubos e remexeram à procura do precioso e raro alimento. Não são, com efeito, raras por estas paragens as notícias de estragos feitos pelos javalis na agricultura, e nas poucas áreas de soutos e carvalhais existentes eles remexem o terreno à procura de castanhas e bolotas. Não vamos aqui aproveitar para edemoninhar os javalis: eles são uma vítima da perda, fragmentação e empobrecimento dos habitats, “respondendo” de forma nem sempre equilibrada. De qualquer forma a lição a tirar é a de que não é viável semear, mesmo com tubos de protecção. A plantação será a solução. Ainda bem que ainda estamos a tempo de semear bolotas de sobreiro em tabuleiros de alvéolos para plantação no próximo Outono/Inverno. Depois de muito procurar, foi possível encontrar um tubo no lugar, com uma planta em emergência (18), a excepção que confirma a regra! Felizmente ali perto estava uma planta de Ornithogalum concinum (19) (espero não estar errado, botânicos, ajudem!), planta com estatuto de protecção, que ajudou a amenizar a momentânea depressão.

(15) (16) (17)

(18) (19)

Mas, investigação realizada, o melhor era voltar rapidamente ao percurso. Logo ali estava a vegetação rupícola a preparar a floração (20). Ah! Falta referir que os medronheiros estavam, em geral, no seu lugar. Alguns secaram, mas estimo que 70% deles pegaram e encontram-se de saúde (21). Por falar em medronheiros, já é possível verificar que alguns deles (mas os dos rebentos, após o fogo) vão frutificar este ano, mas a maioria ainda não o fará (22). No limite norte da caminhada uma perspectiva da paisagem, com o terreno da Quercus à esquerda e o espaço semeado e des-semeado à direita (23).

(20) (21)

(22) (23)

Já no caminho de regresso, novo motivo de preocupação: muitas plantas de acácia-de-folhas-longas apresentam já abundantes vagens, o que significa que vai recomeçar em força a produção de sementes (24).

(24)

Ainda um salto ao local onde foram semeados os carvalhos para constatar o inevitável: sementeira igualmente destruída, os mesmos indícios. Esperemos que isto não deixe os voluntários ainda mais desanimados. Foi a primeira vez que se utilizou aqui a técnica dos tubos em sementeira (noutros locais, onde não aparecem javalis, é viável), e com as falhas, o que temos de fazer é aprender com elas e continuar em frente: ânimo voluntários!

Para terminar uma passagem por aquela cascata (25) onde sempre vale a pena parar uns minutos… para constatar que se encontra quase escondida pelos eucaliptos e mimosas que aí crescem! Por pouco tempo, esperemos: será uma área prioritária de intervenção.

(25)

Paulo Domingues

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