Arquivo para Junho, 2008

Jornada de 28 de Junho

A última jornada de trabalho contou com a disponibilidade de três jovens voluntárias, que, alheias às expectativas de muito calor que se previa para este dia, ousaram vir. Claro que trabalho voluntário não é algo que, mesmo vagamente, deva fazer lembrar trabalhos forçados, e portanto foi programada uma jornada compatível com as características das voluntárias e as previsões atmosféricas.

A viagem para o Cabeço Santo fez-se pelo Feridouro, a fim de dar uma olhadela ao resultado do trabalho que equipas contratadas têm realizado nas últimas semanas. Mal tínhamos chegado ao caminho da cota 360 metros, uma boa surpresa nos esperava: o magnifico voo de uma ave de rapina, que por ali testemunhava os trabalhos em curso (ou apenas procurava uma presa), e, sentindo a nossa chegada, levantou voo para depois se afastar para longe. Mas o que teve de mais emocionante é que, quase seguramente, não se tratava da relativamente comum águia-de-asa-redonda, o que se podia verificar pelo desenho singular de um padrão branco no dorso e penas superiores das asas. Que espécie seria então? Sem um conhecedor por perto, não foi possível descobrir, tal como também não o foi após uma consulta, mais tarde, de um guia de aves.

Fomos até à extremidade nordeste do terreno da Quercus e depois descemos a pé, de ferramentas em mão. Os machados serviram para cortar os rebentos de eucalipto que ainda insistiam em permanecer, apesar de todas as tentativas passadas para os fazer desistir. O tesourão serviu para fazer o mesmo em relação às acácias. Ainda havia bastantes de ambos, mais do que esperávamos. Entretanto, houve tempo para apreciar algumas plantas: o hipericão, o tomilho, as urzes, entre as quais chamava atenção a Erica cinerea, e claro, a murta, a belíssima murta agora com as suas apelativas flores e o seu odor intenso.Murta em flor

O trabalho foi progredindo ao longo da encosta norte do terreno da Quercus em direcção ao vale. Verificámos que os sobreiros plantados no ano passado estavam com muito bom aspecto, tal como os medronheiros plantados já este ano. Quanto à sementeira, que aqui teve pouca expressão, terá tido a mesma sorte que noutros locais: javalis!

E já o sol ia bem alto no horizonte quando a equipa chegou ao vale. Tempo para um merecido descanso, à sombra de uns eucaliptos, contemplando a bela e diversa paisagem a nascente. Mas em breve era necessário subir a encosta para o almoço, o que se fez em duas etapas, pois o calor já apertava e a subida era íngreme (constou-se que foi uma das partes mais difíceis do dia…).

Seguiu-se uma deslocação até à Casa de Santa Margarida (uma antiga casa de trabalhadores da mata, agora parcialmente em ruínas), mas pelo caminho ainda tivemos outra agradável aparição: uma rapina, agora certamente uma águia-de-asa-redonda, sobrevoou a carrinha e foi pousar umas dezenas de metros à nossa frente num ramo seco de um medronheiro. E assim se estabeleceu uma comunicação sem palavras: ela observava-nos e nós observávamo-la.

Animados, chegámos à casa, e fizeram-se umas limpezas na cozinha para criar condições. Verificámos que não tínhamos sido os primeiros a chegar: aproveitando o facto de os vidros estarem partidos, um casal de andorinhas fazia ninho no tecto da cozinha. A obra ainda ia a meio e foi interessante observar a técnica construtiva. O almoço fez-se à mesa, na sombra e frescura do interior da casa. Inicialmente, as andorinhas recearam-nos, mas depois devem ter percebido que éramos bons amigos e começaram a fazer voos fugazes pelo interior da cozinha cada vez com mais frequência. Ou seria para nos pedir para sair, porque queriam continuar a trabalhar com privacidade?! Só que, após o almoço, o tempo convidava a uma sesta, ou pelo menos um relaxamento, nem que fosse no soalho duro da cozinha. Com o relaxamento, outros sons chamaram a nossa atenção, e verificámos que outra ave fazia ninho num espaço bem escolhido à saída da casa. Sem dúvida, esta não se podia considerar, por agora, abandonada.

Em construção

Após um merecido descanso foi tempo finalmente de regressar ao trabalho: recolher os tubos daquela sementeira de saborosas bolotas de carvalho roble que, tal como as outras, de sobreiro, tiveram como destino final o estômago dos javalis. E depois do lanche ainda se regressou à área de reconversão de eucaliptal onde se plantaram bastantes medronheiros este ano, para ver o seu estado, cuidá-los se necessário, e arrancar algumas acácias. Concluímos que os que sobreviveram ao choque da plantação estavam bem bonitos, mesmo aqueles em solo mais problemático. Numa avaliação não muito rigorosa, uns 70% terão sobrevivido, o que, nestas condições, não é mau. As acácias da espécie Acacia longifolia é que parecem surgir como cogumelos neste local onde já foram tão combatidas no ano passado. Será uma “luta” inglória? Faltar-nos-á a persistência, ou a paciência? O futuro o dirá. Terminámos o dia com umas fotos das participantes. Até breve.

 Ainda muito trabalho para realizar Voluntárias para a foto final

Paulo Domingues

P.S. O humilde Ribeiro de Belazaima fez-nos porta-vozes de uma mensagem de apoio e solidariedade a todos aqueles que por estes dias procuram evitar um duro golpe num seu semelhante, embora maior, mais conhecido e certamente mais valioso: o Rio Sabor. É que o Ribeiro de Belazaima “sabe” que é muito mais difícil reparar estragos do que evitar que eles aconteçam. Quanto trabalho para as gerações futuras!

Comentários (2) »

Jornada de 21 de Junho

No dia 21 de Junho, primeiro dia do Verão, realizou-se a jornada de trabalho prevista, que tinha como objectivo realizar algum trabalho de remoção de vegetação exótica e invasora de uma área ribeirinha do Ribeiro de Belazaima, para onde confluem os vales 3, 4 e 5 (ver carta na página “O Cabeço Santo”). Não participaram outros voluntários, e com efeito, o atractivo que uma área no estado em que esta se encontra representa é realmente muito pequeno. Neste local os eucaliptos de origem seminal e as mimosas deram origem, após o fogo, a uma massa vegetal de uma densidade maior do que noutros locais mais secos e porventura de solo mais pobre. Uma densidade tão elevada (muitas dezenas de plantas por metro quadrado) que agora, que estas plantas têm frequentemente mais de dois, às vezes três, quatro ou mesmo cinco metros de altura, se constituem estas formações como barreiras frequentemente impenetráveis para um ser humano, e mesmo para um animal com o porte de uma raposa. Para dificultar as coisas, o terreno é rochoso, o declive é por vezes elevado, e se só isto não bastasse, um emaranhado de ramos queimados de acácia e frequentemente também de eucalipto, ficou no solo, misturando-se com as plantas verdes. Que melhor exemplo do estado de degradação em que a intervenção humana deixou esta paisagem? A sensação é realmente de uma devastação impressionante, e contudo, mesmo aqui encontramos motivos de contentamento e de esperança. Para começar aqui o solo nunca chegou a ser mobilizado e mostra-se bem estruturado (por isso a germinação de sementes ocorreu em tão elevada proporção). Como antes do fogo a densidade de eucaliptos não era especialmente elevada, havia arbustos nativos, que rebentaram após o fogo. Agora, lutam desesperadamente por espaço e por luz, mas ainda estão lá, e, em geral, a tempo de serem salvos. Na pequena área que pôde ser trabalhada neste dia por dois homens (um não voluntário) encontrou-se murta, lentisco, aderno, medronheiro, salgueiro, e mesmo carvalho!

Vale 4 pouco antes de chegar ao Ribeiro de Belazaima Vegetação exótica e invasora

Um salgueiro agora mais desafogado madeira queimada espalhada pelo chão Pequeno carvalho roble

A água, que ainda corria abundante nesta zona inferior do vale 4, onde andámos todo o dia, era praticamente o único som que escutávamos com constância, pois poucas aves se atrevem a voar até aqui. Foi um trabalho de paciência, arrancando os eucaliptos que ainda se podiam arrancar, e cortando com tesourões de poda os restantes e as acácias. Uma dificuldade inesperada foi arranjar local para pôr as plantas cortadas. Acabaram por ficar a obstruir um bocado o vale, um inconveniente que se espera temporário. No final do dia, tinha-se aberto uma clareira no coração do vale de seguramente não mais de duas ou três centenas de metros quadrados, quase atingindo a foz no Ribeiro de Belazaima, onde praticamente não se conseguia chegar, devido ao estado caótico em que se encontram as margens. O grosso do trabalho deverá agora ser feito pelo pessoal contratado, esperemos que com os devidos cuidados.

Obstáculo intransponvel Trabalho realizado

Entretanto houve oportunidade para dar uma olhadela às áreas já trabalhadas pelas equipas quase a tempo inteiro no terreno. Aqui ficam algumas imagens.

primeira fase do trabalho realizada trabalho iniciado

Paulo Domingues

Deixe um comentário »

Próxima jornada

No próximo Sábado iremos prioritariamente trabalhar junto ao Ribeiro de Belazaima, arrancando os eucaliptos de origem seminal que se encontram em situação mais delicada (áreas muito declivosas, proximidade de arbustos nativos,…) e facilitando o trabalho das equipas profissionais que aí intervirão posteriormente.

Com as chuvas que caíram esta semana, tudo está vibrante e intenso: os cheiros, os sons,… Boa maneira para nos despedirmos da Primavera e darmos as boas vindas ao Verão.

Há aí alguém pronto para o desafio?!

Paulo Domingues

Deixe um comentário »

A comunicação da Quercus

Eis a comunicação da Quercus na cerimónia de assinatura do protocolo com a Silvicaima e a Câmara Municipal de Águeda:

O Projecto Cabeço Santo teve início, pode-se dizê-lo, no dia seguinte ao grande incêndio que atingiu a região no dia 18 de Setembro de 2005. E teve início nesse momento cinzento, porque as condições que o tornaram justificado e necessário tinham já sido criadas muito antes: a ausência de ordenamento na actividade de cultivo de espécies florestais, a ausência de medidas de protecção dos valores não passíveis de apropriação e gestão privada, a falta de cuidado e de controlo na difusão de espécies com características invasoras. Mesmo que o mínimo indispensável tivesse sido feito, as consequências sobre a paisagem e a biodiversidade teriam já sido grandes, sem esse mínimo, as consequências foram devastadoras. Parece uma palavra forte, mas só assim se pode definir um contexto de eliminação de espécies e habitats de tão grande alcance como o que aqui aconteceu.

A história é, como se sabe, já antiga, e, tal como naquela outra história da rã que é cozida devagarinho, não dá por nada, e portanto se vai deixando estar até que é tarde de mais, também o processo de degradação e alteração da nossa paisagem é antigo, cada fase ocorreu gradualmente e teve as suas justificações, pelo que as consciências humanas se foram a ele acomodando. Primeiro a eliminação dos antigos bosques, que deverá ter ocorrido ao longo de séculos, depois o estabelecimento de um coberto vegetal adaptado à pastorícia, e por ela mantido, que nos legou os matagais extensivos, formação semi-natural de forte carácter antrópico. Com o eclipsar das culturas rurais de subsistência e a emergência de novas necessidades, pareceu natural que, no contexto de uma nova cultura emergente, essas agora inúteis formações fossem transformadas para o fim que agora conhecemos: o cultivo de espéces arbóreas.

Mas, uma percepção sensível e sábia do que estava para vir poderia ter evitado males maiores: a potencial utilização de maquinaria pesada aconselharia a ponderação dos solos admissíveis, a utilização de um regime monocultural (e portanto com exclusão de outras espécies) aconselharia a reserva de espaço para os ecossistemas nativos, sobretudo nos habitats mais sensíveis, e o recurso a espécies exóticas aconselharia um cuidado muito maior com as espécies a utilizar e onde seriam utilizadas. Em geral, o desenvolvimento de actividades incapazes de sustentar os bens comuns (como a paisagem e a biodiversidade) deveriam, no mínimo, merecer um esforço de regulação, por parte de quem tem a missão de o fazer, no sentido de preservar esses bens comuns da apropriação privada. Não porque o privado seja essencialmente mau e o público bom, mas porque não é sua missão e responsabilidade fazê-lo, sobretudo num contexto como aquele em que hoje vivemos.

O momento em que se procedeu à privatização dos espaços comuns, na primeira metade do sec. XX, foi um daqueles em que essa visão não esteve presente, tal como não esteve presente quando se iniciou um processo generalizado de ocupação do espaço de montanha com plantações de árvores. Quando, tardiamente, o Estado reconheceu a necessidade de colocar alguma ordem no contexto, já era, para uma região como a nossa, tarde demais: todo o espaço era já explorado, não sendo muitas vezes viável qualquer outro tipo de usufruto privado mais compatível com a preservação dos bens comuns, a disseminação da propriedade inviabilizava a aplicação efectiva das medidas preconizadas e já haviam sido causados danos a esses mesmos bens comuns que só um investimento não produtivo poderia, em parte, recuperar. Por isso, desde a criação da Reserva Ecológica Nacional, de legislação restritiva quanto ao cultivo de espécies de crescimento rápido e de toda uma série de medidas com objectivos reguladores, a situação da nossa paisagem e dos nossos valores naturais não cessou de se agravar e a generalidade das medidas legislativas tomadas não teve quase nenhum impacto.

Hoje quase todos reconhecem que se foi longe demais. Mesmo aqueles que têm nos cultivos florestais o seu modo de vida e a sua sobrevivência. Basta olhar com os olhos do coração (mas os da inteligência servem igualmente bem) para um espaço como a pequena bacia do Ribeiro de Belazaima para o constatar.

E, se hoje assinamos com a Silvicaima este protocolo, isso também é uma consequência desse reconhecimento. O dos seus responsáveis como seres humanos, que reconhecem não ter o homem o direito de tomar toda a Terra para seu proveito exclusivo, e o dos seus responsáveis como produtores, que provavelmente reconhecerão que uma pequena perda em termos de produção é largamente compensada pelos benefícios em termos de imagem que um maior cuidado com os bens comuns acarretam. Isto para além de qualquer obrigação determinada pelas leis e pelos sistemas de certificação.

Entendemos que as práticas correntes de produção intensiva de espécies florestais exóticas de ciclo de exploração curto não são, em si, compatíveis com propósitos de conservação da natureza e de preservação dos bens comuns. Por isso, a única solução é uma de compromisso: a de reservar áreas exclusivamente com objectivos de conservação. Não será consensual qual a fracção da área total de uma região a reservar com esse propósito, mas haverá algum consenso quanto ao tipo de áreas a incluir: as áreas marginais para o cultivo, as áreas ribeirinhas e outras áreas de particular expressão da biodiversidade. Não quer também dizer que o ser humano seja proscrito das áreas de conservação. Mas o benefício que ele pode daí retirar é, mais uma vez, indirecto, e não compatível com o actual regime de propriedade. Pensamos nos aspectos paisagísticos, na apicultura, no turismo de natureza, e noutros serviços que as formações naturais prestam melhor que quaisquer outras, como a regulação do ciclo da água e a conservação de organismos úteis ao homem.

Para criar áreas de conservação numa região como a nossa, já não basta legislar e condicionar. É necessário agir activamente no terreno. Por um lado, porque as formações nativas já foram destruídas ou fortemente danificadas e têm de ser recuperadas. Por outro lado porque não se pode esperar que sejam os proprietários privados a fazê-lo. A propriedade da Silvicaima é, neste contexto, um caso algo especial, porque se trata de uma grande propriedade onde é e foi possível pôr em prática um plano de ordenamento onde as áreas prioritárias para conservação puderam ser libertadas da actividade de cultivo. Mas, fora dela, a inclusão de uma pequena faixa ribeirinha num projecto de conservação pode significar a absorção de parcelas inteiras de pequenos proprietários. Claro que não é legítimo pedir a esses proprietários que cedam as suas parcelas, ou mesmo parte delas, gratuitamente, mesmo que seja para o bem comum. A única forma é indemenizar esses proprietários pelo justo valor que, em termos produtivos, essas terras representam. Sabemos bem que os legisladores criaram uma figura de organização que facilitaria essa tarefa: as zonas de intervenção florestal, ZIF’s, que permitem gerir uma área extensa de forma ordenada e com consideração por critérios de preservação de bens comuns sem prejudicar os proprietários das parecelas a isso devotadas. Mas a adesão a tal figura de organização implica uma visão comum e o abandono de um individualismo que se encontra arreigado nas nossas populações, de tal maneira que aqui dificilmente seria implementado.

Deste modo, o Projecto Cabeço Santo, depois de um período inicial de maturação durante o qual teve como objectivo apenas a recuperação das áreas do Cabeço Santo que já não eram significativamente cultivadas antes de 2005, mas que se encontravam ameaçadas pela vegetação invasora, cresceu em âmbito e horizontes para ter também como objectivo a recuperação para efeitos de conservação de áreas ribeirinhas do Ribeiro de Belazaima. Embalada pelo facto de a margem direita ser, com duas excepções, propriedade da Silvicaima e de esta ter aceite a inclusão de áreas ribeirinhas de extensão significativa neste projecto, a Quercus tentará junto dos proprietários da margem esquerda, por meio de compras ou outras formas de cedência onerosa (ou gratuita, se for essa a vontade de algum deles!), obter o direito de intervir também nessa margem esquerda. Também o facto de terem sido criados corredores ecológicos ao longo dos vales principais na propriedade da Silvicaima permitirá criar uma área contínua de conservação, que abrange as zonas ribeirinhas e as relativamente extensas áreas de carácter rupícola já antes incluídas.

Não pretendemos dar a este projecto um alcance e uma relevância para além daqueles que ele tem por direito: ser um exemplo do mínimo que é exigível fazer numa região com as características da nossa, e dar um contributo, por modesto que seja, para contrariar a perda de biodiversidade, um problema de alcance planetário, e que, pelo menos na Europa, merece uma atenção de objectivos definidos: parar a perda de biodiversidade até 2010. Por isso, também é importante ter a Câmara Municipal neste protocolo. Não em primeiro lugar pela sua contribuição financeira para este esforço (embora todas sejam importantes), não porque seja uma forma de pedir responsabilidades aos poderes públicos por aquilo que não fizeram pela preservação dos bens comuns (embora, no contexto que nos ocupa, tenham de facto falhado nisso), mas como forma de os sensibilizar e de os comprometer (e neste caso à Câmara Municipal em particular) com uma acção que julgamos positiva, e com necessidade de uma expressão territorial muito mais larga do que aquela que é objectivo deste projecto. Oxalá daqui por 2, 5, 10 anos, todos nós possamos olhar para os resultados deste projecto e ter o sentimento de que valeu a pena, e de que o resultado nos inspira a fazer algo da mesma natureza noutros locais com problemas similares.

Outro dos objectivos importantes deste projecto é conseguir demonstrar às pessoas, sobretudo ao nível local, a relevância dos seus propósitos. Não pretendemos iludir o facto de ele não ter, até ao momento, suscitado o entusiasmo colectivo. Também não suscitou hostilidade, mas a atenção que recebeu da parte dos cidadãos, das empresas e da comunicação social local, são uma demonstração da escassa sensibilidade que ainda vigora para os problemas a que se procura dar resposta. Longe de emitir mensagens de censura e de queixume, entendemos essa realidade como um desafio, nem que seja de longo prazo, à nossa capacidade para demonstrar a validade dos nossos pressupostos e objectivos. Se, dentro dos mesmos 2, 5, 10 anos, o projecto não tiver dado uma contribuição decisiva para a alteração de percepção que cidadãos e organizações têm desta problemática, então também aí terá falhado. Para atingir esse objectivo, continuaremos a convidar ao envolvimento de escolas, escuteiros, empresas, associações e cidadãos. Como já tem vindo a acontecer, o trabalho voluntário será uma das componentes principais desse envolvimento. Será dada particular atenção à comunidade de Belazaima do Chão, pois ela será a principal beneficiária do trabalho desenvolvido, e será também a principal depositária, com o que isso tem de benefício e de responsabilidade. É importante que esta comunidade não olhe para as áreas onde se desenvolve o projecto como sendo propriedade da Quercus, da Silvicaima ou de outras entidades, mas que olhe para elas como suas, tanto em termos dos benefícios indirectos que daí pode recolher, como da responsabilidade que lhe cabe na sua preservação.

Por agora a Quercus e quem a constitui, com o apoio de entidades como as que assinam este protocolo, assegurará esta responsabilidade. Mas as pessoas e as organizações nem sempre duram, enquanto que os resultados deste projecto têm horizonte temporal indefinido. Acresce que não sabemos até que ponto é possível, e se o for, o tempo que é necessário, para que as formações nativas que pretendemos recriar atinjam uma fase mais ou menos climácea, e se perpetuem, ou evoluam como resposta às condições físicas sem a necessidade de intervenção humana. Na realidade, formações nativas puramente espontâneas já não existem entre nós há muitos séculos, e talvez nem seja possível recriar senão formações semi-naturais dependentes de uma intervenção humana auxiliadora.

Talvez no futuro as comunidades adquiram verdadeira consciência do grau em que a nossa civilização ameaçou a Vida na Terra, e cuidem dos pequenos fragmentos que restaram, como estes que agora procuramos salvaguardar, como preciosidades dignas da mais cuidada e apaixonada salvaguarda. E oxalá que assim seja porque significa que essa civilização ultrapassou o seu momento de crise, evoluindo, e não sucumbiu, levando consigo uma longa história de desenvolvimento e de vibrante expressão da Vida na Terra.

Obrigado a todos pela atenção.

Deixe um comentário »

Assinatura de protocolo

Na Sexta-feira, dia 13 de Junho, pelas 10:30h será assinado na Câmara Municipal de Águeda, em sessão pública, um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Águeda, a Silvicaima e a Quercus. Este protocolo, em primeiro lugar, formaliza uma colaboração que já desde 2006 se materializa no terreno, entre a Quercus e a Silvicaima, em segundo, estabelece uma contribuição financeira das três entidades para este ano, tendo como propósito a realização de trabalhos no terreno por equipas profissionais, no sentido de dar este ano uma contribuição decisiva para a recuperação das áreas alvo, prioritariamente na propriedade da Silvicaima, e depois em áreas de outros proprietários, com os quais se procurarão estabelecer acordos de usufruto ou outras formas de cedência do direito de intervenção.

O objectivo de curto/médio prazo é a recuperação das áreas de conservação da propriedade da Silvicaima e de um corredor ribeirinho no Ribeiro de Belazaima, de cerca de 2 km, entre o Feridouro e Belazaima-a-Velha.

Convidam-se desde já os visitantes desta página da zona de Águeda a estarem presentes nesta cerimónia de assinatura, e também dessa forma darem um apoio simbólico ao projecto.

Paulo Domingues

Deixe um comentário »

Jornada de 7 de Junho

No dia 7 de Junho, embora ainda sem outros voluntários, foi realizada mais uma jornada de trabalho no Cabeço Santo com dois objectivos principais: concluir o corredor de delimitação da área de intervenção no vale 4b e fazer um ensaio do trabalho a realizar na área ribeirinha de confluência dos vales 3, 4 e 5 (ver “Carta da área de intervenção” na página “O Cabeço Santo”).

Dado que a área que faltava delimitar era na parte mais elevada do vale, o acesso fez-se pelo antigo caminho florestal da propriedade, à cota 360 metros. O que mais chamava a atenção em vários pontos da paisagem, por vezes relativamente extensos, era a intensa floração de Halimium ocymoides, uma cistácea sem nome comum conhecido, ou pelo menos não referida na obra “Portugal Botânico de A a Z”. O que é estranho, dado tratar-se, pelo menos aqui no Cabeço Santo, de uma planta relativamente abundante, impossível de passar despercebida.

Halimium ocymoides no pico de floração Halimium ocymoides entre eucaliptos

Mas havia que ir ao trabalho porque a zona mais elevada do vale estava densamente invadida com eucaliptos de origem seminal, que aproveitaram a relativa frescura do local e o solo profundo e pouco perturbado. Mas os eucaliptos alvo eram ainda fáceis de cortar a tesourão e o trabalho decorreu a bom ritmo. E ainda houve tempo para realizar algum trabalho de “desafogamento” de arbustos nativos (sobretudo murtas e medronheiros).

Já pelo meio da tarde foi tempo de fazer um ensaio do trabalho na área ribeirinha. Aqui há imensos eucaliptos de origem seminal e a constatação mais importante é a de que muitos deles ainda se arrancam com certa facilidade, o que, a poder fazer-se, evitará uma dispersão de herbicida tão elevada, ao não ser necessário eliminar uma cobertura quase contínua de rebentos de eucalipto. A juntar a isso, encontram-se entre os eucaliptos, pelo menos nos locais mais próximos dos vales, muitas plantas espontâneas, sobretudo de murta e medronheiro, que é necessário preservar. Finalmente essas zonas são estremamente declivosos, o que também dificulta qualquer trabalho de pulverização. Por tudo isto, será muito importante começar por fazer um trabalho de arranque e desafogamento de plantas nativas antes do trabalho mais extensivo de corte dos rebentos de eucalipto. Dado que este é um trabalho muito mão-de-obra intensivo, e requer um cuidado que o pessoal contratado nem sempre tem, se houver um conjunto de voluntários disponíveis para o dia 21 de Junho, será esse o trabalho que iremos realizar.

Panorama da zona ribeirinha, desesperadamente à espera de aux�lio

Entretanto, há já duas equipas profissionais no terreno, mas estas iniciaram o trabalho mais a montante, acima do caminho florestal principal da propriedade. Um primeiro resultado desse trabalho pode ser apreciado pelas duas fotos seguintes.

O vale 4b em 31 de Maio Evolução dos trabalhos no vale 4b, em 7 de Junho

Até à próxima jornada de trabalho!

Paulo Domingues

Deixe um comentário »

Jornada de 31 de Maio

No dia 31 de Maio, último do mês por excelência da Primavera, realizou-se mais uma jornada de trabalho no Cabeço Santo. O objectivo era iniciar um trabalho de sinalização de plantas nativas que se encontram misturadas com as exóticas e invasoras, a fim de facilitar o trabalho de corte destas últimas que equipas contratadas irão iniciar em breve. Uma das equipas vai iniciar o trabalho já amanhã, 3 de Junho, e vai iniciá-lo no vale 4b (para facilitar as referências topográficas, os vales principais onde se desenrolam os trabalhos do projecto foram numerados e podem ser identificados na carta; num documento a acrescentar em breve à página “O Cabeço Santo” estes vales serão caracterizados com mais detalhe, bem como serão explicados outros elementos adicionados à carta 1:25000).

Ora este vale constitui o limite de uma das áreas de conservação na propriedade da Silvicaima, sendo que a área adjacente é uma mancha de eucaliptal que a empresa decidiu manter (ou seja, não foi uma área mobilizada para nova plantação, mas manteve-se a rebentação da plantação antiga). Faço aqui um parêntesis para acrescentar que no contacto inicial com a Celbi foi proposta a descontinuação desta mancha, já que logo a seguir se encontra outra área de conservação, e a reconversão desta mancha daria maior dimensão e unidade à área de conservação. Não foi possível, pode ser que ainda o venha a ser dentro de 10 ou 15 anos, quando os eucaliptos dessa mancha forem cortados.

O vale 4b visto do caminho à cota 290 metros O vale 4b, visto do caminho, à cota 290 m Arbustos nativos, entre eucaliptos de rebentação e de origem seminal

Deste modo, era também necessário assinalar no terreno o limite da área de intervenção de recuperação do vale, para que a equipa contratada saiba exactamente até onde pode ir. Isso significava estabelecer uma linha visível no terreno, aproximadamente paralela ao vale, entre o caminho da cota 240 m e o caminho da cota 360 m, numa extensão de cerca de 290 metros. Trabalho facilitado pelo facto de existir aí um antigo caminho florestal que serpenteia pela encosta acima,… mas dificultado pelo elevado declive do terreno e pela densidade da vegetação invasora aí existente. De facto, este foi o principal obstáculo à realização do primeiro objectivo para este dia: assinalar as plantas arbustivas da flora nativa. E no entanto fiquei surpreendido pela sua abundância: realmente, nesta zona encontra-se uma densidade de murta como não acontece em qualquer outro local de intervenção do projecto. Também medronheiro, claro, mas decididamente a murta é dominante nesta zona. Só que, para chegar às plantas nativas é necessário romper através de uma tal densidade de plantas invasoras (mimosas, acácias-de-folhas-longas, eucaliptos), que isso só seria possível abrindo corredores, o que tornaria o trabalho demorado.

Panorama caótico de vegetação invasora misturada com espécies nativas Murta, uma planta abundante por estas paragens Área limpa da vegetação invasora

Na prática, acabei por ocupar a maior parte do tempo abrindo o corredor de delimitação da zona de intervenção, começando a meio da encosta, já que a partir de baixo era impossível avançar. Constatei que muitos eucaliptos de origem seminal ainda se arrancavam com facilidade, mesmo aqueles com 1 ou 1.5 metros de altura. A progressão para baixo ia-se tornando cada vez mais difícil, pois não só a vegetação se tornava mais densa como aumentava também a densidade das mimosas queimadas tombadas. Dado que a vegetação que cresceu após o fogo o fez através dos ramos secos destas árvores, o conjunto fica particularmente intrincado e impenetrável. Pela hora do almoço já tinha aberto um corredor de uns 80 metros encosta abaixo, mas depois decidi fazer um ensaio do trabalho que a equipa contratada irá realizar, a fim de melhor a poder orientar. Assim, limpei uma área junto ao caminho de subida da encosta, fazendo uso da motosserra, do tesourão, e… das mãos. O declive do terreno e a necessidade de arrumar o material queimado e as plantas verdes cortadas de modo a estorvar o menos possível a continuação dos trabalhos e sem estragar os arbustos nativos são os principais desafios. Mas faz-se… Para além de murtas e medronheiros, encontrava-se no meio dessa enorme confusão vegetal um pequeno carvalho-roble! Depois de terminar de limpar esta área, em escassas duas horas, imaginei brevemente o que poderia fazer aqui uma equipa de 20 voluntários motivados…!

Pequeno carvalho finalmente com espaço Vegetação nativa depois de removidas as invasoras mais próximas Corredor de passagem e delimitação da área de intervenção

Pelo meio da tarde decidi abrir o corredor encosta acima. Nesta direcção já havia muito menos acácias e as plantas invasoras eram sobretudo os eucaliptos, mas aqui já não era possível, na sua maioria, arrancá-los. Mas com o diâmetro que ainda têm, o tesourão de poda funciona muito bem. Nesta parte mais elevada da encosta, este seria um daqueles trabalhos que uma equipa de voluntários faria com alguma facilidade, tendo ainda o atractivo de haver muitas plantas de murta para desafogar. Murta, essa planta consagrada à deusa Vénus (esta, quando nasceu, ao ver-se desnuda, escondeu-se atrás de uma murta), e portanto associada ao amor, fonte de essência perfumada de angélica inspiração (Eau-d’Anges), e com propriedades medicinais generosas. Poético o suficiente para motivar potenciais voluntários? Mais um argumento: Pode não ser tão apelativo, mas é mais fácil e consequente dar nova vida a plantas nativas já implantadas, pela remoção da vegetação exótica circundante, do que plantar novas. Não há dúvida que, se este trabalho não fosse empreendido, todas estas plantas em breve secariam, devido ao ensombramente e à concorrência das infestantes.

Depois de ter aberto um corredor de outros 80 metros encosta acima, voltei ao anterior, para ver se conseguia romper até ao caminho da cota 290m. Inicialmente parecia impossível avançar mais, mas depois, um pequeno afastamento do vale permitiu-me entrar numa zona de antigo pinhal onde, de repente, acácias e eucaliptos desaparecem para dar lugar a uma área de fetos. O pinhal que aqui existia desapareceu completamente com o fogo. Para além de alguns pinheiros ainda caídos no solo, a única memória dessa formação são as fundas covas que ficaram no terreno, nos sítios onde estavam as árvores e que, devido à elevada combustibilidade da sua madeira, foram consumidas até bem ao interior da terra. Não é difícil, num local como este, cair num buraco perfeitamente circular com 70 ou 80 cm de profundidade. As únicas árvores verdes com mais de 5 metros de altura que aqui é possível encontrar são os sobreiros, árvores de pequeno porte, porque se encontravam no seio de um pinhal mais ou menos denso, mas que, mercê da sua notável capacidade para recuperar do fogo, aí estão, agora sós, a reclamar um espaço onde num passado muito antigo deviam ser muito mais abundantes, constituintes talvez dominantes de uma paisagem cujos contornos hoje apenas escassamente se conseguem imaginar.

Para terminar este já longo dia, duas ou três fotos ao vale 4a, curiosamente de características bastante diferentes do 4b. Invadido sobretudo com Acacia longifolia e eucaliptos, mas com poucas mimosas.

A mancha de invasoras é abruptamente interrompida para dar lugar a fetos e alguns sobreiros Vale 4a, visto do caminho à cota 290 metros

No próximo Sábado os trabalhos voluntários continuam. Inscrevam-se antes que esgote!

Paulo Domingues

Comentário (1) »