Visita de estudo no Dia da Terra

No dia 22 de Abril, Dia da Terra, realizou-se uma visita de estudo ao Cabeço Santo, desta vez de quatro turmas de alunos da Escola Secundária Adolfo Portela, de Águeda. Duas turmas vieram de manhã e duas à tarde.

O percurso proposto foi um percurso quase circular, com início junto aos portões da Silvicaima, fazendo o antigo caminho florestal em Direcção a Belazaima-a-Velha e depois subindo até à cota dos 400 metros em direcção ao terreno da Quercus.

Nas diversas paragens foram abordados diferentes tópicos, ilustrados pelo panorama que se podia observar no terreno. Aqui ficam eles, com referência aos números da carta que serviu de base ao percurso:

1: A erosão da biodiversidade e suas causas à escala global e local: perda de habitat (localmente devido à ocupação do espaço para o cultivo de árvores em regime extensivo/intensivo) e expansão de espécies invasoras (localmente Acacia dealbata, Acacia longifolia e, em menor extensão, Hackea sericia). As primeiras duas destas espécies puderam ser observadas aqui. Fez-se notar a falta de cuidado que houve na primeira “vaga” de exploração do solo de montanha para os cultivos florestais, pela ocupação de linhas de água principais e secundárias, zonas muito declivosas e de muito difícil acesso.

2: Nesta primeira área de conservação na propriedade da Silvicaima foi referido o cuidado tido pela empresa ao reservar áreas para efeitos de conservação no seu actual plano de replantação, ainda que só isso não permita atingir esse objectivo: é necessário muito trabalho de recuperação, sobretudo de eliminação da flora exótica e invasora (objectivo do projecto). Atenção para a importância de recuperar os “corredores ecológicos” que constituem as linhas de água secundárias a fim de minorar o efeito de fragmentação dos diferentes habitats. Um corte no terreno provocado pelo alargamento do caminho permitiu observar os diferentes horizontes de um solo bem estruturado e da sua importância para a ocorrência de um conjunto diversificado de plantas, bem como para a limitação dos fenómenos erosivos. Foi referido o facto de as plantas que germinaram após o fogo (incluindo os indesejáveis eucaliptos) o terem de feito de forma muito mais intensa nas zonas de solo não mobilizado. Chamou-se a atenção, em contrapartida, para a profunda alteração da estrutura de solo que resulta das operações de mobilização para plantações novas, em particular quando essas operações se traduzem na formação de socalcos.

3: Um carvalho em muito mau estado foi o pretexto para se falar da importância das Quercineas na flora nativa local, do seu valor ecológico, e da sua relevância na limitação da progressão dos incêndios, embora a espécie mais importante localmente (o carvalho roble) seja actualmente quase pontual. Os vales em recuperação com condições para tal serão plantados com esta espécie. Do outro lado do caminho foi observada uma primeira mancha densa de Acacia longifolia, sendo também o pretexto para falar das leguminosas nativas (tojos, carqueja, giesta) e da sua importância para a recuperação dos solos degradados, devido à fixação do azoto e outros nutrientes minerais disponíveis em formas pouco acessíveis no solo, e à sua contribuição com matéria orgânica para o mesmo. O vale encontrado a seguir é um dos que se encontra em pior estado, com uma grande densidade de mimosas, observado-se ainda as queimadas em pé.

4: Bonita queda de água, embora temporária. A área que se encontra a seguir tinha pinhal, mas devido aos sucessivos incêndios que a atingiram, o pinhal deixou de se regenerar espontâneamente e cessou o interesse em continuar com ele. A área contém agora matagal. Embora também vulnerável ao fogo e frequentemente “amaldiçoado”, o matagal tem grande importância ecológica, pelo que, de um ponto de vista da conservação, é uma comunidade de plantas valiosa. O matagal, tal como as comunidades de plantas nativas em geral, têm uma grande capacidade de regeneração após o fogo, desafiando a ideia de que o fogo “é o maior inimigo da floresta”. Pode sê-lo das plantações de árvores, indevidamente apelidadas de “florestas”, mas não de formações nativas bem estabelecidas. Destas, a maior ameaça é certamente a acção do homem.

5: Observação da giesta, agora em flor, e das violetas. Esta é uma das duas zonas de toda a área de conservação em que a giesta ocorre com abundância, não se sabendo se por ter sido plantada ou se por aqui encontrar condições particularmente favoráveis. Início da subida.

6: Do lado esquerdo do caminho encontram-se alguns interessantes exemplos de comunidades de plantas do matagal lenhoso.

7: Observação da cabeceira do vale e do seu estado de invasão com mimosas e eucaliptos. Apresentação de outras plantas do matagal lenhoso com grande expressão no monte: As urzes, tendo sido observadas a Erica umbellata (queiroga) e a Erica scoparia (urze-das-vassouras), e o Cistus salvifolius (sanganho-mouro), agora em abundante floração.

8: Observação de um medronheiro com fruto. O medronheiro é uma espécie arbustiva dominante no Cabeço Santo e tem grande importância ecológica. Floresce no final do Outono e frutifica um ano depois. Por isso, a maior parte dos medronheiros queimados em 2005 ainda não frutificou nem talvez o faça este ano. Outras espécies arbustivas nativas com expressão no monte são a murta e o lentisco, tendo, pelo menos da segunda, sido observado um exemplar.

9: Observação de elementos de natureza geológica.

10: Observação, à esquerda, da zona mais invadida com Acacia longifolia e do trabalho que aí já foi realizado em 2007: corte das plantas de acácia à volta dos arbustos nativos e abrindo “avenidas” de passagem pela mancha de acácias, aqui frequentemente já com 1.5 a 2 metros de altura. À direita encontra-se uma área onde foi colocada uma prioridade de intervenção em 2007, tendo-se realizado arranque, corte e pulverização com herbicida nas manchas de plantas pequenas. No entanto, embora o “grosso” do trabalho tenha sido realizado, ainda é necessário aí voltar para elimainar acácias remanescentes. Foi observada uma mancha pulverizada onde ainda sobrevivem bastantes plantas. Uma planta de acácia já com uma abundância de vagens em formação, permitiu falar da ausência de predadores naturais das espécies de plantas invasoras, o que contribui para o seu indesejável sucesso.

11: Foi observada uma área de reconversão de eucaliptal onde foram removidos os eucaliptos por aplicação de herbicida, e onde foram semeados sobreiros e plantados medronheiros. Um sobreiro de uns 5 metros de altura, única árvore cuja parte aérea resistiu ao fogo nesta zona, testemunhava a capacidade da espécie para recuperar a partir dessa mesma parte aérea e não apenas da subterrânea, como o faz a quase totalidade das plantas. A jusante, observou-se ao longe o terreno adquirido pela Quercus, e aproveitou-se para falar sobre as micro-reservas e o trabalho voluntário. Já de regresso a casa, uma surpresa: várias flores de campainhas amarelas numa área insuspeitada. (Só o grupo da manhã fez este percurso porque à tarde choveu, havia menos tempo disponível, e o grupo apressou-se a voltar ao autocarro).

12: Descida para o autocarro, por um caminho íngreme, e fim da visita.

Esperamos que tenham aproveitado,… e que voltem! Uma palavra de apreço às professoras pelo interesse demonstrado.

Aprendendo com as coisas menos belas

Paulo Domingues

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1 Response so far »

  1. 1

    mónica oliveira said,

    olá.. vim aqui deixar um comentério porque gostei muito de passar o dia da Terra com voces….foram sempre muito atensiosos e esclarecedores e simpáticos… acho que deveriamos voltar outra vez mas desta vez para passar a acção, isto é, plantar árvores ou arrancar não interessa…. o que é mais importante é poder ajudar de qualquer forma para tornar este sitio mais bonito do que ele é……

    despeço-me de voces, mas com vontade de voltar um dia, se possivel o mais rápido que poder….
    Adeus


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