Jornada de 28 de Junho

A última jornada de trabalho contou com a disponibilidade de três jovens voluntárias, que, alheias às expectativas de muito calor que se previa para este dia, ousaram vir. Claro que trabalho voluntário não é algo que, mesmo vagamente, deva fazer lembrar trabalhos forçados, e portanto foi programada uma jornada compatível com as características das voluntárias e as previsões atmosféricas.

A viagem para o Cabeço Santo fez-se pelo Feridouro, a fim de dar uma olhadela ao resultado do trabalho que equipas contratadas têm realizado nas últimas semanas. Mal tínhamos chegado ao caminho da cota 360 metros, uma boa surpresa nos esperava: o magnifico voo de uma ave de rapina, que por ali testemunhava os trabalhos em curso (ou apenas procurava uma presa), e, sentindo a nossa chegada, levantou voo para depois se afastar para longe. Mas o que teve de mais emocionante é que, quase seguramente, não se tratava da relativamente comum águia-de-asa-redonda, o que se podia verificar pelo desenho singular de um padrão branco no dorso e penas superiores das asas. Que espécie seria então? Sem um conhecedor por perto, não foi possível descobrir, tal como também não o foi após uma consulta, mais tarde, de um guia de aves.

Fomos até à extremidade nordeste do terreno da Quercus e depois descemos a pé, de ferramentas em mão. Os machados serviram para cortar os rebentos de eucalipto que ainda insistiam em permanecer, apesar de todas as tentativas passadas para os fazer desistir. O tesourão serviu para fazer o mesmo em relação às acácias. Ainda havia bastantes de ambos, mais do que esperávamos. Entretanto, houve tempo para apreciar algumas plantas: o hipericão, o tomilho, as urzes, entre as quais chamava atenção a Erica cinerea, e claro, a murta, a belíssima murta agora com as suas apelativas flores e o seu odor intenso.Murta em flor

O trabalho foi progredindo ao longo da encosta norte do terreno da Quercus em direcção ao vale. Verificámos que os sobreiros plantados no ano passado estavam com muito bom aspecto, tal como os medronheiros plantados já este ano. Quanto à sementeira, que aqui teve pouca expressão, terá tido a mesma sorte que noutros locais: javalis!

E já o sol ia bem alto no horizonte quando a equipa chegou ao vale. Tempo para um merecido descanso, à sombra de uns eucaliptos, contemplando a bela e diversa paisagem a nascente. Mas em breve era necessário subir a encosta para o almoço, o que se fez em duas etapas, pois o calor já apertava e a subida era íngreme (constou-se que foi uma das partes mais difíceis do dia…).

Seguiu-se uma deslocação até à Casa de Santa Margarida (uma antiga casa de trabalhadores da mata, agora parcialmente em ruínas), mas pelo caminho ainda tivemos outra agradável aparição: uma rapina, agora certamente uma águia-de-asa-redonda, sobrevoou a carrinha e foi pousar umas dezenas de metros à nossa frente num ramo seco de um medronheiro. E assim se estabeleceu uma comunicação sem palavras: ela observava-nos e nós observávamo-la.

Animados, chegámos à casa, e fizeram-se umas limpezas na cozinha para criar condições. Verificámos que não tínhamos sido os primeiros a chegar: aproveitando o facto de os vidros estarem partidos, um casal de andorinhas fazia ninho no tecto da cozinha. A obra ainda ia a meio e foi interessante observar a técnica construtiva. O almoço fez-se à mesa, na sombra e frescura do interior da casa. Inicialmente, as andorinhas recearam-nos, mas depois devem ter percebido que éramos bons amigos e começaram a fazer voos fugazes pelo interior da cozinha cada vez com mais frequência. Ou seria para nos pedir para sair, porque queriam continuar a trabalhar com privacidade?! Só que, após o almoço, o tempo convidava a uma sesta, ou pelo menos um relaxamento, nem que fosse no soalho duro da cozinha. Com o relaxamento, outros sons chamaram a nossa atenção, e verificámos que outra ave fazia ninho num espaço bem escolhido à saída da casa. Sem dúvida, esta não se podia considerar, por agora, abandonada.

Em construção

Após um merecido descanso foi tempo finalmente de regressar ao trabalho: recolher os tubos daquela sementeira de saborosas bolotas de carvalho roble que, tal como as outras, de sobreiro, tiveram como destino final o estômago dos javalis. E depois do lanche ainda se regressou à área de reconversão de eucaliptal onde se plantaram bastantes medronheiros este ano, para ver o seu estado, cuidá-los se necessário, e arrancar algumas acácias. Concluímos que os que sobreviveram ao choque da plantação estavam bem bonitos, mesmo aqueles em solo mais problemático. Numa avaliação não muito rigorosa, uns 70% terão sobrevivido, o que, nestas condições, não é mau. As acácias da espécie Acacia longifolia é que parecem surgir como cogumelos neste local onde já foram tão combatidas no ano passado. Será uma “luta” inglória? Faltar-nos-á a persistência, ou a paciência? O futuro o dirá. Terminámos o dia com umas fotos das participantes. Até breve.

 Ainda muito trabalho para realizar Voluntárias para a foto final

Paulo Domingues

P.S. O humilde Ribeiro de Belazaima fez-nos porta-vozes de uma mensagem de apoio e solidariedade a todos aqueles que por estes dias procuram evitar um duro golpe num seu semelhante, embora maior, mais conhecido e certamente mais valioso: o Rio Sabor. É que o Ribeiro de Belazaima “sabe” que é muito mais difícil reparar estragos do que evitar que eles aconteçam. Quanto trabalho para as gerações futuras!

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2 Respostas so far »

  1. 1

    Esteva said,

    Umas vezes por umas razões, outras por outras, não tenho podido estar no Cabeço nessa luta com muita glória pela reconversão do mesmo. Voltarei logo que possa.

    Mas fico feliz por ver que a guerra continua e que algumas batalhas têm sido ganhas. É pena que os javalis tenham comido a maioria das bolotas, mas que isso não te desanime, Paulo. O trabalho que realizas e para o qual vais arregimentando voluntários é um exemplo de persistência a seguir por todos. 70% de sucesso é uma excelente percentagem! Nunca pensei que fosse tão elevada a taxa de sobrevîvência dos medronheiros. Também eles são lutadores e persistentes 🙂

    Até breve!

  2. 2

    Caríssima Esteva,

    Obrigado pelas tuas palavras que sempre são fonte de ânimo. A tua “garra” e entusaismo estão presentes, mesmo quando tu não o estás, fisicamente. Volta sempre (quando puderes)!


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