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Esta semana (em que se lembrou a importância da biodiversidade) foi muito importante para o Projecto Cabeço Santo. Os trabalhos de corte da vegetação exótica e invasora, iniciados já no dia 13 de Maio por uma equipa da Associação Florestal do Baixo Vouga, atingiram as margens do Ribeiro de Belazaima num terreno a adquirir pela Quercus (portanto já fora da propriedade administrada pela Silvicaima) [1]. Um pouco a jusante da confluência do vale 6 com o ribeiro, pela primeira vez se realizaram trabalhos na margem esquerda do ribeiro [2], também numa parcela a adquirir, permitindo, ainda pela primeira vez, a realização de trabalho em ambas as margens do ribeiro ao longo de uns 150 metros do seu percurso.

Esta é uma zona muito afectada pela presença da mimosa (Acacia dealbata), que depois do fogo se difundiu, atingindo densidades tais de implantação, que por vezes é completamente impossível atravessar as manchas. O trabalho de corte foi dificultado, em alguns locais, pelo carácter do terreno, declivoso e pedregoso [3, 12]. Era tão densa a formação de mimosas junto ao ribeiro que, após o corte, este ficou completamente ocultado por um manto de vegetação [3,14]. Depois de realizado este trabalho o aspecto da paisagem é, de certo modo, desolador, e seguramente que ainda o será mais quando for necessário pulverizar com herbicida os rebentos de eucaliptos e acácias que daqui por algumas semanas surgirão, mas estes são passos necessários para a recuperação deste precioso habitat, pelo que há que ter paciência e continuar.

Para moderar um pouco este panorama, esta área tem já uma presença abundante de carvalhos, árvores que já existiam no meio dos eucaliptos antes do fogo de 2005, e que agora surgem sob a forma de rebentos [5]. Na margem direita, as duas parcelas onde se iniciaram os trabalhos já tinham sido, pelo menos em parte, terras cultivadas, pelos habitantes da vizinha povoação de Belazaima-a-Velha, agora em ruinas. Ainda há pouco mais de 30 anos aqui se cultivava milho e batatas, e outras culturas para a subsistência deste povoado. Existiam aqui leiras minúsculas – algumas com apenas algumas dezenas de metros quadrados – mas bem cuidadas, como lembrou um antigo morador. Depois da revolução de 1974 ainda chegou a ser instalada até Belazaima-a-Velha (e aos Cepos, 1 km mais a montante) uma linha de média-tensão, e os pequenos povoados chegaram a ver as luzes da eléctrica modernidade. Mas foi sol de pouca dura. Poucos anos bastaram para os dois povoados serem definitivamente abandonados.

Na margem esquerda do Ribeiro a parcela intervencionada estende-se até ao antigo caminho de ligação entre as duas Belazaimas, caminho – de terra batida, claro – ainda há 35 anos quotidianamente percorrido  – a pé, claro – pelas crianças dos dois lugares para se deslocarem à escola a Belazaima do Chão. “Apenas” 6 km para cada lado, 12 km diários, com chuva ou com sol. Hoje, os próprios filhos dessas então crianças julgariam isso impensável. Mas as ruinas do povoado, o caminho, e as antigas leiras de cultivo lá estão, a testemunharem a realidade desse passado, que parece mais distante do que realmente é. A acentuar essa impressão a rápida degradação desta paisagem depois do abandono, a eucaliptação das antigas terras de cultivo e a incrível invasão com mimosas de todo o vale. Situação fortemente agravada depois do incêndio de 2005. 30 anos depois do abandono os vestígios de ocupação humana mais parecem restos da pré-história. Mas lá se encontram, escondidos entre as mimosas, os moinhos de água, as levadas de rega, os muros de contenção levantados ao longo dos séculos, e as leiras de cultivo. Na povoação, as casas ainda têm muitos muros de pedra em pé, mas afundam-se rapidamente no silvado e outra vegetação [7-8].

Mas voltemos ao objectivo do projecto Cabeço Santo: recuperar as áreas alvo para a vegetação espontânea própria dos respectivos habitats. Em torno do ribeiro e dos seus principais vales, desde que houvesse solo, sem dúvida que, aparte a vegetação de carácter ripícola, o carvalhal caducifólio seria a formação dominante. Por isso, como já foi referido, se encontre alguma regeneração natural de carvalho-roble, não obstante a forte concorrência das mimosas e dos eucaliptos. É provável que essa regeneração natural tenha sido propiciada pela existência de apenas dois carvalhos de maior porte na zona. Um, existente numa pequena faixa ribeirinha propriedade da Junta de Freguesia, superou bem o incêndio de 2005 [9]. O outro, um pouco mais a jusante, também sobreviveu ao fogo mas quase ia sucumbindo à falta de cuidado dos humanos, que lhe deixaram cair para cima vários eucaliptos, deixando-o em muito mau estado. Ainda lá está, mas agora precisará de alguns anos para recuperar a sua antiga beleza. Neste troço do Ribeiro praticamente nenhum outro carvalho sobreviveu da terra para cima, encontrando-se agora apenas rebentos. Na área agora trabalhada também se podem ver alguns salgueiros constituindo a galeria ripícola, mas são uma ocorrência verdadeiramente pontual em vários kilómetros do percurso do ribeiro [14, em segundo plano]. De resto dominam as mimosas, em formação muito densa, às vezes misturadas com eucaliptos, e, nas antigas leiras, com o silvado. De um modo geral, o estado das margens do ribeiro é de uma deprimente degradação [10-11]. No fundo, não é de supreender que um projecto que “abrace” esta desditosa situação tenha dificuldade em atrair voluntários, e mesmo visitantes. No futuro, se o projecto for bem sucedido nos seus propósitos, talvez os atraia, e muitos deles terão dificuldade em acreditar que o estado do ribeiro já foi este.

Para terminar ainda duas perspectivas: uma da zona entre os vales 4a e 4b, pintada de um amarelo que agora domina muitas áreas de matagal: o amarelo do tojo Genista triacanthos [15]. Depois, o contraste com uma área em reconversão, o antigo eucaliptal e o eucaliptal de plantação recente [16]. Finalmente uma flor invulgar de dedaleira, mas, ao contrário da generalidade das dedaleiras, de côr branca [17]! Foi encontrada no vale 4.

A visita prevista para hoje, 23 de Maio, não se realizou devido às previsões de más condições atmosféricas. Ficou adiada para 6 de Junho. Por isso quem quiser vir ainda se pode inscrever.

Paulo Domingues

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