1ª Jornada de Primavera

A 1ª Jornada Voluntária de Primavera realizou-se finalmente e foi uma jornada absorvente e multifacetada, já com a paisagem revivificada pelas chuvas das últimas semanas. Ainda pouco passava das 9 horas quando um pequeno mas decidido grupo, animado por um radioso sol e uma temperatura, agora sim, verdadeiramente primaveril, subia já ao Cabeço Santo. Primeira paragem: estradão florestal, não longe do marco geodésico “Santo”. Aqui se começou por erguer uma barreira, mais simbólica do que real, para tentar desincentivar ciclistas e motoqueiros de fazer atravessamentos a corta-mato desta área. Tais atravessamentos, com abertura de trilhos não autorizados, são realmente um abuso, tão característico dos tempos em que vivemos. Mas veremos se ainda há alguma réstea de respeito e consideração voluntárias pelo trabalho realizado e sobretudo pelos valores em presença. Por isso se pediu “p.f.”!

A quem não consegue ver de outra maneira…

Foram três as barreiras erguidas mas ainda houve tempo para fazer algum trabalho de corte de acácia de espigas e observar com cuidado os sinais da Primavera por estas paragens. De particular atractivo nesta altura são as urzes da espécie Erica umbelata, com as suas flores de viva côr avermelhada.

Erica umbelata em flor

Aqui destacam-se as flores de Cistus salvifolius

Céu “rivaliza” com paisagem

A mancha de carvalhos junto ao marco geodésico “Santo”

Já com a manhã a encaminhar-se para o fim, fez-se uma avaliação da acção de sementeira de bolotas no vale nº 5. Os resultados, como já se esperava, não foram brilhantes: num local onde foram semeadas muitas dezenas, talvez 100 a 200 bolotas, apenas foram encontradas 4 plantas. Resta saber se a principal causa foi a predação ou a seca. Talvez as duas… Não será de excluir completamente este tipo de acção no futuro, embora seja evidente que não poderá substituir a plantação. Já a acabar, ao mover uma pedra, descobriu-se o “bicharoco” abaixo mostrado. Se alguém souber o que é, tenha a gentileza de nos esclarecer.

Voluntário procura carvalhos

Por aqui os insectos abundam, em particular as joaninhas

Um dos poucos carvalhos de origem seminal encontrados

Ao mover uma pedra, um curioso animal com 20 pares de patas

Não deixa contudo de saltar à vista neste local a grande diversidade de plantas, sobretudo herbáceas, que aqui se encontra, mostrando, mais uma vez, como bastou remover a densa mancha de mimosas e eucaliptos que aqui existia, para a natureza se ocupar da fase seguinte.

Ao contrário do que possa parecer, aqui já praticamente não existe flora invasora

E foi já ao princípio da tarde que a equipa desceu até ao Ribeiro, para realizar trabalhos de acompanhamento das árvores plantadas e de controlo das mimosas. Logo à chegada uma surpresa desagradável: alguém tinha depositado lixo junto a um carvalho (recorde-se, estamos a vários km da povoação mais próxima). Como tal acto nem merece que mais tempo lhe seja dedicado, passemos à frente.

Alguém andou vários km para aqui depositar lixo

Foi interessante verificar como junto ao ribeiro os carvalhos estão muito mais atrasados na sua rebentação do que no alto do monte, e até mesmo umas dezenas de metros acima na encosta. A vegetação concorrente, sobretudo o silvado, foi removida com uma motoroçadora. Quanto às mimosas, foi ensaiada, numa escala ainda não aplicada no Cabeço Santo, a técnica do descasque do tronco. A ferramenta usada foi a navalha, que funcionou bastante bem, embora também tenha trazido alguns dissabores. No entanto também se usaram outras técnicas, consoante as características de cada formação: em manchas densas (já poucas, felizmente) cortou-se com motosserra para posterior pulverização da rebentação com herbicida; em plantas isoladas não muito grossas, aplicou-se herbicida na superfície de corte; em áreas planas, nas quais é necessário limpar com frequência com a motoroçadora, simplesmente cortou-se (a rebentação é depois apanhada com frequência pela motoroçadora) e finalmente nas áreas mais sensíveis (margens do ribeiro e zonas de difícil acesso) usou-se a técnica do descasque do tronco.

Descasque do tronco das mimosas junto a um carvalho

Descasque do tronco, em mimosas junto ao ribeiro

Voluntário em busca de mimosas entre a rebentação seca do que já foi uma formação muito densa

O Ribeiro começa a ter mais salgueiros do que mimosas nas suas margens

Verificou-se que a plantação de estacas de salgueiro nas margens do ribeiro, realizada em Janeiro último, se mostrava para já bem sucedida, pois que praticamente todas as estacas apresentavam rebentação.

Estaca de salgueiro plantada em Janeiro a rebentar

E o intenso dia, marcado por uma brisa fresca e até por alguns aguaceiros fracos que não foram suficientes para desmobilizar nem por um minuto, chegava ao fim, com uma “foto de família” junto a uma formação de salgueiros.

A equipa do dia, tendo alguns salgueiros como “cenário”

Ainda havia frascos de mel para os voluntários e ainda sobraram alguns (poucos!) para a próxima jornada. Quem quer “ganhar” o último frasco da temporada?

Em http://www.flickr.com//photos/cabeco_santo/sets/72157629587211636/show/ estas e outras fotos desta jornada podem ser observadas em ecrã completo. Seleccionar “Mostrar informações” para ler descrições.

Até breve.

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5 Respostas so far »

  1. 1

    Gabriel said,

    Fantástico, Paulo! Gostei muito da imensa informação que aqui deixaste. Deu para acompanhar o trabalho no Cabeço Santo, mesmo à distância. E que fotos bonitas. Tocou-me especialmente a dos salgueiros e o ribeiro, por alguma razão que desconheço. Acho que foi por imaginar a paisagem de novo “original” com as árvores a debruçarem-se sobre o ribeiro, o que é idílico para a minha mente. E realmente muito curioso o bicho que estava debaixo da pedra! Nunca tinha visto nada assim. À primeira, pareceu-me alienígena.
    Deixo uma sugestão para o futuro no que toca aos letreiros para os ciclistas e motoqueiros: incluir uma explicação sobre o PORQUÊ de não passarem ali. Como ciclista e ex-motoqueiro, sei que uma explicação faz toda a diferença para mim.
    Até Domingo!

  2. 2

    Caro amigo e voluntário Gabriel,
    Obrigado pelas palavras de apreciação. Quanto à informação adicional, ela já estava prevista e de facto até já existe um projecto para uma placa, só faltando imprimir num suporte adequado. Contudo, e independentemente das razões a explicar e a fazer compreender, devia ser perfeitamente evidente que não é próprio entrar em propriedade privada, abrir trilhos e deixar marcas e plásticos, sem qualquer consulta a quem está confiada essa propriedade (isto para evitar um termo como “quem é dono dessa propriedade”, já que quando se trata de terra, a figura do “guardião” é mais apropriada do que a do “dono”). Por isso quem o faz, ou tem muita dificuldade em ver para além do próprio nariz ou o faz com intenção, com dolo. Mas em vez de tentar descobrir, apostemos na evolução das consciências, por isso, as placas serão lá colocadas.
    Até breve, no Cabeço Santo

  3. 3

    José Pedro Andrade said,

    Boa tarde,
    Sou seguidor do projecto de recuperação ecológica do Cabeço Santo desde que visitei a área no âmbito da realização da minha tese de mestrado, integrada no projecto NaturSAPO, em propriedades da Altri Florestal. Aproveito a oportunidade para felicitar a iniciativa, e louvar o esforço hercúleo que tem sido desenvolvido no sentido da recuperação da flora local. Como pude verificar, é imensa a degradação provocada pela invasão das acácias, mas o potencial desta área é tremendo e o sucesso será atingido, contando sempre com a persistência e determinação de quem acredita no projecto.
    Como solicitaram no post, o bicho que encontraram debaixo de uma pedra pertende à espécie Scolopendra cingulata, são as maiores centopeias que podem ser encontradas por cá e são predadores vorazes de qualquer animal que não seja maior que elas. Tal como os demais quilópodes, têm um número ímpar de pares de patas, esta aqui tem 21. Recomenda-se cuidado ao interagir com elas, a picada pode ser dolorosa! 🙂
    Espero ter a oportunidade de poder dar o meu contributo como voluntário no futuro, já sinto saudades do Cabeço Santo, da Ribeira de Belazaima, Ribeiro de Paredes… É de facto uma zona extraordinária. E para além disso adoro mel! 🙂

    Um abraço,
    José Pedro

    • 4

      Caro José Pedro,
      Muito obrigado pelas palavras de apoio e incentivo! E pela identificação do espécime! E pela correcção do número de pares de patas! (não tinha contado bem porque não tinha considerado as últimas como patas, mas agora já sei que, sendo uma centopeia, tem de ser sempre ímpar!).
      Até um dia destes, no Cabeço Santo! Quanto ao saboroso mel com o mesmo nome, as últimas reservas de 2011 serão por certo “absorvidas” já na próxima jornada pelo que só a partir de finais de Julho voltará a haver mel, colheita de 2012!
      Uma saudação

  4. 5

    Cláudia Ferraz said,

    Força a todo o projecto!!!
    Foi com grande alegria que li e vi as fotos deste último post! 🙂

    Cláudia Ferraz


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