Abertura do PR8, o Trilho da Serra

Eis uma espécie de “reportagem” comentada da inauguração do percurso pedestre PR8, Trilho da Serra, realizada no dia 15 de Setembro. Algumas fotos são incluídas, mas nem todas tiradas nesse dia, pois que o ritmo de caminhada foi elevado. De facto, demasiado elevado para uma observação atenta e reflexiva da paisagem que se ia observando, pois que ela, a paisagem, é um dos mais paradigmáticos testemunhos e um dos mais claros espelhos da relação entre o homem contemporâneo e o planeta que o suporta.

Presidentes na abertura oficial

Presidentes na abertura oficial

Depois das palavras de apresentação e boas-vindas dos presidentes (Câmara de Águeda, Juntas de Freguesia de Belazaima e Castanheira, doravante, União de freguesias!) no parque de merendas e praia fluvial da Redonda, atravessou-se o rio Águeda e logo ali aparece uma pomposa placa anunciando a presença de mais de uma centena de árvores plantadas por considerada organização. No entanto, a plantação alinhada, o carácter exótico da maioria das árvores, algumas manifestamente mal adaptadas, e uma margem do rio pouco cuidada e invadida de mimosas, não fazem deste um local belo. É manifestamente necessário algo mais do que plantar algumas árvores…

Rio Águeda; margem direita, bem conservada, e esquerda, mal, num terreno plantado com folhosas ornamentais

Rio Águeda; margem direita, bem conservada, e esquerda, mal, num terreno plantado com folhosas ornamentais

Logo a seguir inicia-se a subida da encosta, aparecendo o ribeiro de Belazaima logo ali à direita. No entanto o estado de conservação das suas margens é aqui tão mau, que talvez os olhares se desviem involuntariamente… De facto, todo este troço do ribeiro, entre a ponte de Alvarim e a sua foz no rio Águeda, se encontra em estado lastimoso, por via de agressivas mobilizações de solo das encostas adjacentes e a presença opressiva das mimosas. Logo ali à frente, já na descida para a ponte de Alvarim, se constata um impressionante exemplo recente deste tipo de intervenção: um pedaço de encosta muito declivosa armada em terraços à custa de impactantes movimentos de terras, a vegetação ribeirinha, se alguma ainda estivesse lá, engolida por pedras, solo e lenha, o ribeiro transformado numa vala para escoamento de água e por fim, os eucaliptos, justificação última de toda esta desastrosa intervenção. Apenas uma pequena área, apenas umas dezenas de metros de extensão do ribeiro, mas é assim que, a pouco e pouco, como a rã na panela de água ao lume, a nossa paisagem vai sucumbindo lentamente à determinação do interesse particular e à ausência do Estado, que, duma forma ou de outra, vai lavando as mãos da sua responsabilidade em proteger os bens comuns.

Mobilização de solo muito agressiva: é assim que queremos a nossa paisagem?

Mobilização de solo muito agressiva: é assim que queremos a nossa paisagem?

Margem espoliada: é assim que queremos a nossa paisagem?

Margem espoliada: é assim que queremos a nossa paisagem?

Não sei se os numerosos participantes nesta inauguração tiveram tempo de perceber bem o drama desta paisagem, mas face a exemplos como este, ouso perguntar-lhes e a todos os nossos concidadãos: é isto que queremos para o futuro da nossa paisagem? É este o legado que queremos deixar aos nossos filhos?  Se sim, então, como comunidade, não precisamos de fazer nada, basta deixar agir a mão invisível do universo de interesses privados e ir observando o resultado. Faço questão de acrescentar que isto não é um libélulo acusatório contra os interesses privados, que têm legitimidade dentro dum quadro de respeito pelo interesse comum, a Terra e as gerações futuras, mas é uma crítica contundente à sociedade e a quem a representa (o Estado), por se mostrar incapaz de defender pouco mais do que precisamente os interesses privados.

Mas avancemos no percurso: pouco antes da ponte de Alvarim, encontramos à nossa direita um pedaço de encosta pouco intervencionada, com esparsos eucaliptos de plantação antiga e mimosas na margem do ribeiro, mas também espaço para vegetação espontânea, onde se conseguem identificar várias plantas representativas: medronheiro e lentisco, só entre as de porte arbóreo. Aqui ainda sobra alguma coisa, não se sabe por quanto tempo, a não ser que alguém intervenha.

Encosta ribeirinha com restos de vegetação espontânea

Encosta ribeirinha com restos de vegetação espontânea

Depois de atravessada a estrada junto à ponte, cruzamos o vale paralelo à EN 336, um vale que eu ainda conheci com recantos de grande beleza (e a presença de azevinho espontâneo) e agora praticamente engolido pela voragem das plantações.

Atravessamos agora um “mimosal” de árvores de porte médio a elevado (um local a recuperar?), embora agradável pela sombra, mas de facto uma sombra demasiado “sombria”.

Mimosal. uma sombra demasiado sombria

Mimosal: uma sombra demasiado sombria

Depois, algo realmente raro: um pequeno bosquete de carvalho-roble. Aliás, deve ser reconhecido que aqui, nas antigas terras agrícolas da povoação de Alvarim, se encontram alguns exemplos interessantes de plantações de folhosas, incluindo o carvalho-roble, tanto mais de relevar quanto 95% das terras plantadas com folhosas e com carvalhos em particular, o são com carvalho americano.

Ponte sobre o ribeiro (com a beleza das coisas simples)

Ponte sobre o ribeiro (com a beleza das coisas simples)

Toda esta extensão do ribeiro, entre Alvarim e Belazaima, tem ainda alguns locais interessantes, embora a generalidade deles não seja visível do trilho. Logo ali, depois do atravessamento do ribeiro, se observa um caso invulgar de bosque misto de eucaliptos e carvalhos, uma situação que provavelmente só se mantém por inacção do proprietário. Aliás, por estes dias tornou-se “politicamente correcto” criticar os proprietários que têm terrenos mais ou menos abandonados, pois se considera que esses terrenos ardem mais facilmente. E até pode ser verdade que ardam, mas também não é menos verdade que é neles que se encontra uma diversidade e uma vida que desapareceu dos terrenos intensamente cultivados. Isto sem pretender que o simples abandono seja a melhor solução para a paisagem.

Eucaliptal (felizmente) pouco intervencionado

Eucaliptal (felizmente) pouco intervencionado

Eucaliptal sem risco de incêndio (mas também sem graça, sem vida, sem quaso tudo que valha a pena)

Eucaliptal sem (ou pouco) risco de incêndio,mas também sem graça, sem vida, sem quase tudo que valha a pena

E assim o trilho vai avançando, entre eucaliptos e mimosas, mas com uma ou outra árvore diferente a quebrar a monotonia da paisagem, até que se chega à ponte-velha, antigo porto de ligação entre Belazaima e o resto do mundo, infelizmente alvo de uma recuperação que não conseguiu conservar a sua beleza. Logo ali, havia um antigo lagar de azeite, o lagar-velho, do qual nada resta.

A subida à encosta, na margem esquerda do ribeiro, tem apenas um objectivo: levar o trilho a atravessar uma área de carvalhal da qual não posso falar de forma distanciada, porque, e aqui não vou usar de falsas modéstias, foi a área na qual durante mais de 20 anos coloquei muitas das minhas energias e do meu empenho. Pode parecer ao visitante de hoje que é um bosque espontâneo, esquecido das mãos do homem por alguma felicidade do destino, mas nada menos verdadeiro: embora seja verdade que alguns carvalhos e castanheiros existiam já ao longo do ribeiro, a generalidade desta área, originalmente dividida por muitos proprietários, era essencialmente eucaliptal, muito dele obstruído por impenetrável silvado. Mas foram os anos de trabalho e a boa vontade de muitos proprietários (sim, também existe e é pena que seja tão pouco aproveitada) que permitiram criar o que hoje ali pode ser observado. A má vontade, que também existe, a ignorância e a insensibilidade fizeram, é certo, ali cravar um espinho, onde mais uma vez o interesse privado e a ausência da administração ditaram a destruição de uma bem conservada galeria ripícola, o corte de carvalhos com muitas décadas, o aniquilamento de um recanto cheio de magia e uma desastrosa mobilização de solo com intervenção de maquinaria nas margens do ribeiro e a respectiva plantação de eucaliptos em cima das próprias margens. Tão grotesco foi o resultado que uma queixa foi produzida, uma multa aplicada, uma obrigação de arranque dos eucaliptos nas margens emitida, algumas palavras mais azedas foram trocadas, para tudo acabar no estado que pode ser constatado ainda hoje e durante muitos anos. Mais um exemplo dramático da irresponsabilidade do Estado que, multiplicado por milhões de interesses privados, é suficiente para arruinar toda uma paisagem. Apenas mais um dado significativo: ouvi um dos elementos da família proprietária queixar-se de que era analfabeto, talvez para se desculpar de tão grande aberração. Nem todos os verdadeiros responsáveis pelo sucedido o eram, de facto, pelo menos de um ponto de vista formal. Mas o que isto ilustra é exactamente como uma sociedade deixa “analfabetos” usarem maquinaria tão poderosa sobre algo tão frágil como a terra e as suas criaturas, quais monstros de Frankenstein à solta. O que faz o Estado para manter tais monstros sob um mínimo de controle, pelo menos o exigido pelos mais elementares conhecimentos da tecno-ciência que os criou? A resposta é quase nada, e cada vez menos.

Carvalhal ribeirinho pacientemente recuperado...

Carvalhal ribeirinho pacientemente recuperado…

... que não tocou toda a gente

… que não tocou toda a gente (foto de 2010)

Depois das duas manchas de carvalhal dividido pelo “espinho”, para sempre dividido, passam-se aviários e fábricas para tocar algumas terras agrícolas de Belazaima e se chegar finalmente ao coração da povoação, à hora de saída da missa dominical… Mas para compensar, os caminhantes puderam ter a experiência quase “mística” de intimidade com uma árvore monumental, o sobreiro gigante de Belazaima.

Sobreiro gigante: uma experiência intensa

Sobreiro gigante: uma experiência intensa

Seguiu-se o caminho em direcção ao Feridouro, passando por uma represa quase sem água, deixando mostrar umas “entranhas” de sedimentos no que já foi realmente um dos mais belos troços do ribeiro, perdido para sempre sob as águas da modernidade. Um pouco mais à frente, uma última experiência de proximidade com o ribeiro, agora já livre da prisão das águas, mas ainda encaixado em margens extremamente íngremes e notavelmente invadidas com mimosas. Ainda assim foi possível vislumbrar, lá em baixo, um depósito selvagem de lixo! Incrível! Como é possível vir depositar-se lixo num local de onde será tão difícil alguma vez removê-lo, e de onde pode acabar por ser arrastado para o ribeiro e para a própria represa! Mais monstros de Frankenstein à solta! Mais analfabetos funcionais com poderes que não compreendem em mãos!

E eis que em breve estamos no Feridouro, essa ilha de escassa mas simpática gente no meio deste eucaliptal que traz rendimentos mas também sobressaltos e monstros mais ou menos à solta. Bem, neste caso uma ilha quebrada pelos braços acolhedores (julgo) do Projecto Cabeço Santo, cuja visita ficou para outra oportunidade, pois a organização da Câmara de Águeda considerou (e bem, parece-me) que seria demasiado, depois dos 7 ou 8 km de percurso desde a Redonda, ainda fazer mais 8 de percurso de montanha no Cabeço Santo, ainda que fossem omitidos os 5 ou 6 finais de volta à Redonda.

Aqui fica mais uma vez um link para a informação municipal sobre este trilho: http://cmantrilhos.weebly.com/pr8.html.

Não lamento o facto de esta “reportagem” não ser uma despreocupada e superficial descrição de uma festiva caminhada de inauguração, porque de facto não há motivos para distracção e desatenção: ou se encontra o empenhamento, a determinação, a dedicação de que esta paisagem tão angustiantemente necessita ou ela será, para as gerações vindouras, a expressão visível, dramática e duradoura de uma civilização mortalmente doente. Bem sei que a doença não encontra expressão apenas na paisagem e que não é só aí que acções sanadoras são necessárias, e longe de mim a intenção de transformar este escrito num panfleto político num momento em que tantos cartazes por esse país fora tão explicitamente anunciam que as pessoas estejam “primeiro”. E num certo sentido até concordo: sem pessoas saudáveis, em sentido lato, não haverá paisagem e terra saudável. Resta saber se “as pessoas primeiro” não será mais uma expressão de um antropocentrismo ego-centrado que de facto não é salutar nem para as próprias pessoas nem para o seu entorno.

Para terminar, aqui fica o inevitável convite para participação nas actividades voluntárias do Cabeço Santo: ao contrário do que se possa pensar, não são a expressão de uma ideia do tipo “a paisagem primeiro”! Isto porque quem participa nestas actividades contribui para curar a paisagem mas contribui também de forma significativa para se curar a si próprio. A prevista última jornada de Verão não teve participantes mas também esteve muito calor, seria penoso e pouco curativo! Mas em breve aí estarão as Jornadas Voluntárias de Outono! Bem vindo, Outono, que chega no preciso momento em que este artigo é publicado!

Paulo Domingues

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