Última jornada voluntária de Primavera

Foi assim a última jornada voluntária de Primavera no Cabeço Santo:

O dia previa-se quente e seco, como sempre acontece quando o anti-ciclone dos Açores vai de passeio pelo norte da Europa, pelo que o ideal era começar bem cedo. Mas como tínhamos voluntários vindos desde Coimbra até ao Porto, não foi bem assim que aconteceu… Mas foi bom porque nesta jornada se reuniram pessoas ligadas a mais dois grupos com objectivos afins e que desta forma buscam sinergias e se animam mutuamente: o Movimento Terra Queimada, que intervém sobretudo na Serra da Freita na recuperação de áreas degradadas pelo fogo e pela desflorestação, além de promover acções de vigilância florestal durante o Verão, e a Montis, associação recente que por via de uma acção de angariação de fundos bem sucedida, conseguiu adquirir vários terrenos na Serra do Caramulo e assume a gestão de várias dezenas de hectares com propósitos de conservação.

Os trabalhos iniciaram-se junto à aldeia do Feridouro, e foram realmente os primeiros passos na recuperação de uma área onde voltaremos por certo muitas vezes e cujo percurso acompanharemos nestas páginas, mês após mês, ano após ano! Podemos dizer que esta área começa, grosso modo, onde acaba a mata da Altri florestal, e acompanha o curso do ribeiro até à represa de Belazaima. Contém muitas das antigas terras agrícolas do Feridouro, laboriosamente “desenhadas” na paisagem, com muros de pedra que por vezes têm vários metros de altura, desenvolvendo-se ao longo das curvas de nível e aproveitando engenhosamente os vales mais pequenos que, desde o Cabeço Santo, alimentavam estas terras com água em abundância. É a jusante do vale de São Francisco, o nº 2, que se encontra a maior parte destas terras. Mais para jusante ainda, temos as íngremes encostas ribeirinhas, algumas agora engolidas pelas águas de uma moderna represa. Ao longo das margens do ribeiro, de novo os muros em pedra, aproveitando todos os metros quadrados onde se podia semear um grão de milho, mesmo que tudo o que para ali fosse ou dali viesse tivesse de ser transportado em braços humanos, ou à cabeça, atravessando o ribeiro ou percorrendo trilhos escavados na rocha das encostas mais escarpadas.

Assim foi até meados do sec. XX, quando este edifício multi-secular foi abruptamente abalado: as pessoas foram-se (quase todas) embora, as terras, em vez de alimentos, passaram a dar eucaliptos, muitas delas ficaram invadidas com mimosas, os muros em pedra iniciaram um processo de desmoronamento que por certo levaria muito menos tempo a concluir-se do que levou a sua construção e as levadas de água ficaram rapidamente assoreadas ou mesmo destruídas pelas mobilizações de solo. Os moinhos de água arruinaram-se, e as respectivas mós foram levadas para decorar jardins. Sem os seus habitantes, muitas casas e mesmo aldeias inteiras se transformaram em ruínas. E tudo isto aconteceu no espaço de tempo de uma única vida humana. Os dois últimos habitantes nativos do Feridouro ainda se lembram do tempo em que todo o antigo modo de vida funcionava em pleno. E resignam-se com o que aconteceu porque a roda do tempo não se podia parar e não havia mais lugar para as antigas técnicas e a antiga escala face a todo o progresso da civilização. Mas nós, que aqui nos encontrávamos exactamente no momento em que, com o corte recente de todos os eucaliptos em volta, esta paisagem parecia ainda mais desprovida da beleza e da harmonia que já irradiou, nós, e julgo reflectir o sentimento das 9 pessoas que aqui se reuniram, não nos resignamos. Recusamos a ideia de que o preço a pagar pelo “desenvolvimento” seja a adulteração da paisagem. Sabemos bem que o tempo não pode voltar para trás, e que evolução é o estado normal de toda a vida, quanto mais da vida humana, mas acreditamos, como se de um acto quase religioso se tratasse, que para ser desenvolvimento, para ser evolução e não involução, tem que ter beleza, harmonia nas relações e respeito pelos ritmos e pela dinâmica dos milenares processos naturais, que afinal foram o berço da espécie humana. Talvez a relação entre homem e natureza tenha mesmo que ter desconhecido, mistério, incerteza, risco, para com ela podermos experimentar admiração, poesia, inspiração, e dela recebermos verdadeiro alimento, que sacia não apenas os nossos corpos mas também as nossas almas. Estes 9 voluntários viveram aqui um momento muito singular, aquele em que o processo de degradação deste pedaço de paisagem, que parecia imparável, se inverteu, para que num futuro que queremos próximo volte a ser vibrante expressão do pulsar da vida, da espontânea, mas aqui também daquela que pode resultar de uma criativa inter-relação com a sabedoria do génio humano, que também existe, apesar dos desvios a que nos habituou e dos quais aqui somos particularmente testemunhas.

Estes 9 voluntários e todos os outros que pelo mundo fora partilham esta perspectiva, podem ser poucos, cometer erros, trilhar vias perigosas ou sem saída, ser incompreendidos, mas creio que os move uma determinação, uma vontade vinda não se sabe de onde, que pode ser exemplo e semente para uma relação mais harmoniosa e saudável entre a humanidade e a natureza. A outra possibilidade é estarem enganados, mas quem pode prová-lo?!

Observação das antigas terras agrícolas

Observação das antigas terras agrícolas

Antigas terras agrícolas

Antigas terras agrícolas

E feito o levantamento do estado de espírito é tempo de falar dos trabalhos, que começaram por ser de corte de rebentação de eucaliptos num terreno lavrado em socalcos há 9 anos, e que agora será reconvertido. A maior parte da rebentação, pelo menos aquela onde não podem ir máquinas, deverá ser controlada com o glifosato, um recurso muito pouco poético, mas aqui temos de admitir a nossa impotência para fazer melhor. Como neste local já existem outras árvores, carvalhos, medronheiros e loureiros, que não queremos perder com a pulverização, levou-se a cabo esta operação, a repetir tantas vezes quantas forem necessárias…

Trabalhos de corte de rebentos de eucalipto

Trabalhos de corte de rebentos de eucalipto; ao fundo o ribeiro, ainda invadido de mimosas

Mais trabalhos

Mais trabalhos

Depois, já a manhã ia adiantada, a equipa deslocou-se uns 800 metros para montante, a fim de realizar trabalhos de acompanhamento numa das primeiras áreas ribeirinhas a ser intervencionada pelo projecto, já nos idos 2008. Trata-se de uma encosta estreita e muito inclinada já dentro da mata da Altri florestal. Estes trabalhos são sobretudo de corte das mimosas que por aqui foram resistindo… Mas em contrapartida já há muitas nativas, e mesmo os mais ornamentais ciprestes-do-Buçaco. Entretanto fez-se algum trabalho de motoroçadora na área junto à ponte do PR8 sobre o ribeiro.

Equipa em movimento através de um antigo trilho

Equipa em movimento através de um antigo trilho

Trabalhos de acompanhamento: corte de mimosas

Trabalhos de acompanhamento: corte de mimosas

Mais trabalhos

Mais trabalhos

Mais trabalhos

Mais trabalhos

O dia já aquecia bastante quando se fez uma pausa para o almoço e até a pobre sombra dos eucaliptos foi apreciada. Depois do almoço fez-se trabalho à sombra e bem perto da água, para parecer mais fresco: descascaram-se mimosas na margem sul do ribeiro, ainda na mesma área.

As águas do ribeiro estavam convidativas...

As águas do ribeiro estavam convidativas…

Equipa descascando mimosas

Equipa descascando mimosas

Trabalho de machado!

Trabalho de machado!

Suados mas satisfeitos!

Suados mas satisfeitos!

Alguns voluntários tinham de se ausentar pelo que se tirou aqui a foto dos participantes

Alguns voluntários tinham de se ausentar pelo que se tirou aqui a foto dos participantes. Falta a Teresa, que tirou a foto.

Foi um bom trabalho mas entretanto alguns voluntários tinham que ir embora e os restantes estavam suados e cansados! Optou-se por visitar algumas áreas de próxima intervenção ao longo do vale de São Francisco e depois subiu-se ainda mais para apreciar a paisagem e observar cravinas-bravas, que agora estavam em flor.

Área a recuperar

Área a recuperar

Murtas que conseguiram resistir a décadas de cultivo de eucaliptos!

Murtas que conseguiram resistir a décadas de cultivo de eucaliptos!

Observação da paisagem e de cravinas-bravas

Observação da paisagem e de cravinas-bravas

Mas não podíamos terminar sem mais um período de trabalho, e este foi a cortar acácias-de-espigas numa das faixas de intervenção na mancha desta espécie do vale nº 3, que agora estava carente de acompanhamento.

Acompanhamento numa faixa de acácia-de-espigas

Acompanhamento numa faixa de acácia-de-espigas

Detalhe dos trabalhos

Detalhe dos trabalhos

Esta área já esteve densamente invadida. Mas agora já se observam espécies nativas como o rosmaninho

Esta área já esteve densamente invadida. Mas agora já se observam espécies nativas como o rosmaninho

E já era bem tarde quando se deu o dia por terminado. Tinha sido um óptimo dia. Obrigado a todos os voluntários, em particular aos que vieram de mais longe. A reportagem fotográfica contou com fotos da Teresa Markowsky do Movimento Terra Queimada, do João Ruano da Montis, e da Claudia. Na página do Cabeço Santo no Facebook está uma colecção mais completa.

Mais notícias de uma nova série de jornadas em breve!

Paulo Domingues

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