Visita guiada de 21 de Maio

A visita guiada ao Cabeço Santo decorreu num dia fresco e cinzento, como que a querer contrariar toda a exuberância e colorido do coração da Primavera. Mas os participantes não se sentiram intimidados, e pouco depois das 9:00h subiam já o Cabeço Santo pelo caminho mais curto, paralelo ao Vale de S. Francisco.

A primeira paragem, à entrada de uma área de intervenção onde os trabalhos de reconversão do eucaliptal e de recuperação do vale se iniciaram apenas em 2015, foi motivo para uma animada conversa. Mas o estado do terreno, de cerca de 3,5 ha, onde ainda abundam as rebentações de eucalipto e onde ainda há muito a fazer nas mimosas, convida mais à acção do que à conversa, não obstante todas as reflexões sobre o que e como fazer aqui sejam bem-vindas. As águas ainda corriam abundantes nas várias cascatas deste vale mas a neblina não as deixava ver, pelo que os visitantes tiveram que imaginar.

A paragem seguinte foi à chegada ao terreno adquirido nas Bicas de Aguadalte pela Quercus em 2006, onde se fez um pequeno historial do projecto, que praticamente “nasceu” aqui.

Depois do atravessamento de uma área de eucaliptal, a subida fez-se ao longo da cumeada que limita o terreno da Quercus, e começaram a ver-se coisas interessantes, ainda que aqui o solo seja muito pobre: estamos no reino do matagal atlântico, onde só um medronheiro ou um pinheiro ousam subir mais alto do que a generalidade dos arbustos desse matagal: as urzes, os tojos, a carqueja, e as cistáceas.

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Cistus salvifolius, um dos arbustos do matagal

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Halimium ocymoides, outra cistácea bem colorida

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Genista triacanthos, um tojo de abundante floração, que forma matas muito densas

Mas foi preciso chegar ao antigo caminho da propriedade da Altri Florestal, onde entretanto se tinha entrado, para se começar a observar um mais vasto cortejo florístico, que agora se mostra em todo o seu colorido. A densa neblina, que só agora se começava a dissipar, impregnava vários reinos da natureza, deixando-os com um encanto especial.

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Gladíolo-silvestre

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Teia de aranha coberta de gotículas

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Vegetação rupícola

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Por esta altura a neblina ainda cobria o cabeço

Mais à frente, não pudemos deixar de nos confrontar com um dos “ossos” mais duros de roer do projecto: a mancha de acácia-de-espigas em torno das cabeceiras dos vales nºs 2 e 3. Ironicamente, esta mancha e o seu impacto negativo, no centro da área de conservação original, foi um dos motivos para a criação do projecto e um dos alvos dos trabalhos iniciais. Mas depois, a verdade é que o desenvolvimento do projecto para as zonas húmidas das cotas mais baixas deixou esta mancha sem o nível de atenção que ela exigia: mas haveremos de cá voltar em força…

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Mancha de acácia-de-espigas (2º plano, à direita) e área já trabalhada (1º plano)

Observaram-se os vales nºs 4 e 5, e a descida iniciou-se no nº 6, observando-se depois como o corte recente pela Altri Florestal de uma mancha de eucaliptal em terreno bastante marginal deixou em pé a maior parte dos muitos eucaliptos germinados por acção do fogo em 2005. Oxalá esta área ainda dê que falar…

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O vale nº 5, onde se têm realizado trabalhos nos últimos anos

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Zona de cultivo marginal: os eucaliptos que ficaram em pé foram os que germinaram em 2005

Já a descida se continuava pelo vale nº 7 e, sem grandes alterações para melhor em relação ao ano passado, se constatava o estado muito crítico deste troço do vale já fora da propriedade da Altri, invadido por mimosas e plantado sem critério paisagístico que se vislumbre.

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Esta zona do vale nº 7 encontra-se em estado muito crítico

Mas foi a chegada ao ribeiro, onde predominam as folhosas, que permitiu respirar de alívio. Depois da ponte do PR8, os castanheiros e os carvalhos aqui plantados em 2010 já dão espessa sombra; até já temos de pensar em desbastes. Depois o olhar sobre o vale nº 6, o pequeno carvalhal do Cambedo, e o desvio do trilho da Serra para a levada que permite aos visitantes atravessar toda uma área cuja recuperação partiu quase do zero em 2009. E assim se chegou aos confins das antigas terras agrícolas de Belazaima-a-Velha, onde o carvalhal dá lugar ao mimosal numa área de margens muito abruptas e onde os visitantes já se imaginavam futuros voluntários a agarrar-se heroicamente a umas pedras soltas para tentar chegar a uma mimosa inacessível ao comum dos mortais…

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Com a chegada às margens do ribeiro, o panorama alterou-se…

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Os participantes (menos uma) posam para a foto na passagem do ribeiro

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Entre árvores plantadas em Janeiro de 2010

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O “mimosal” nos confins das terras de Belazaima-a-Velha. No entanto na margem direita já se realizou intenso trabalho. Não se nota? É vida!

Depois foi de novo o atravessamento do ribeiro, num local que sempre gostamos de lembrar como era em 2007, não vá isso cair no esquecimento, e é bom que existam fotos, porque assim se vai lembrando e certamente ninguém vai achar que aconteceu por evolução espontânea…

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Atravessamento do ribeiro

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Tirada no mesmo local da anterior em 2007. Não parece? Mas é!

O atravessamento do eucaliptal das Costas do Rio foi um pouco árido, já se sabia, 1 km ao longo do ribeiro com eucaliptos de um lado e mimosas do outro, mas a informação de que será uma área de trabalho num futuro próximo permitiu um novo olhar sobre esta zona.

Finalmente a chegada ao Chão do Linho, com um breve olhar sobre vários hectares de encosta em torno do Vale de Barrocas em início de reconversão, e a comprida faixa ribeirinha onde a intervenção se iniciou em 2015 e onde muitos dos voluntários visitantes neste dia já tinham plantado árvores. Já no Feridouro, os visitantes puderam conhecer a “ontem, hoje e amanhã”, o que seria também um bom título para esta caminhada, onde se olhou para o passado, que em alguns locais ainda persiste, se viveu o presente e se imaginou o amanhã.

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Já a caminho do Feridouro, um olhar sobre uma paisagem em recuperação

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“Canteiro” de Linaria triornithophora

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Os medronheiros plantados este ano parecem estar a desenvolver-se bem

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Chegada ao Feridouro

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Ontem, hoje e amanhã

O almoço fez-se junto à Capela de São Francisco, já eram quase duas da tarde e encerrou-se o evento. Ficou a faltar uma visita à área a jusante do Feridouro, até à represa de Belazaima, mas era de mais para uma manhã só. Aqui fica a promessa de uma artigo sobre o estado presente dessa área, para breve.

A página do Cabeço Santo no Facebook tem fotos não incluídas neste artigo.

Até breve.

Paulo Domingues

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