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Começaram as sementeiras!

Esta foi já a 4ª jornada de Outono! Um Outono quase sem chuva, como não se viu por aqui nas últimas décadas, mas isso é algo que não podemos alterar. O que podemos, sim, alterar, é o que fazemos para ajudar a Terra a recuperar do estado enfermo em que a colocámos, e que parece continuar a agravar-se (Artigo no Público). Foi o que fizeram 24 voluntários nesta jornada em que se iniciou a sério a temporada de sementeira e plantação de árvores. Para já começámos com a sementeira.

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Bolota pronta a enterrar

Os trabalhos decorreram no Vale de Barrocas, que tem sido o alvo principal das atenções. A equipa foi dividida ao meio: um grupo foi cortar rebentação de eucalipto e outro foi semear bolotas de carvalho-roble.

O corte da rebentação foi o trabalho mais exigente fisicamente, dado o tamanho dos rebentos e o acidentado do terreno. Foi a continuação do trabalho da última jornada e que na parcela em início de intervenção praticamente se concluiu.

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Corte da rebentação de eucalipto

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Perspectiva da área já trabalhada na jornada anterior

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À tarde, os trabalhos de corte da rebentação continuaram na parcela mais antiga, onde os rebentos já são mais raros

A sementeira da bolota foi um trabalho mais delicado e reflexivo, durante o qual os voluntários não apenas tinham de colocar bolotas no terreno, mas tentar perceber qual o melhor sítio para semear cada bolota, numa distribuição aleatória mas uniforme pelo terreno, sem excessos nem faltas, mesmo que apenas 15 ou 20% das bolotas semeadas dêem origem a árvores!

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A semear bolota. Em segundo plano mancha ribeirinha de carvalhal e corredor ecológico plantado em 2015/16

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A mesma cena vista por outro fotógrafo!

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Rebentação de carvalho-roble, após o fogo

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Muito serenas, mas ainda correm, as águas do ribeiro

Pelo final do dia mais de 40 kg de bolotas tinham sido semeadas. Como cada bolota tem, em média 7g de peso, isto significa que cerca de 5700 bolotas foram semeadas! Se 20% delas vingarem, mais de 1000 árvores surgirão! Este é um balanço para dentro de alguns anos, mas, para já, foi um bom trabalho!

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Alguns dos voluntários presentes. Outros não puderam ficar para a foto final.

Obrigado a todos os voluntários! E ao Pedro Cruz pelo trabalho fotográfico, que pode ser apreciado com mais profusão na página do Cabeço Santo no Facebook.

As sementeiras vão continuar, e o corte de rebentos de eucalipto também! Voltem sempre!

Paulo Domingues

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3ª Jornada de Outono

Muito participada, a jornada de 28 de Outubro foi dedicada ao controlo de plantas “indesejáveis”: mimosas e eucaliptos. No que toca aos últimos, decorreu na área do Vale de Barrocas, onde ainda impera o verde-glauco da rebentação de eucalipto, após o incêndio de 28 de Abril, mas onde também já florescem pequenas plantas surgidas após esse evento. Do antigo caminho para Belazaima-a-Velha tem-se agora uma perspectiva privilegiada sobre a encosta ribeirinha a norte do ribeiro, plantada na época de 2015/16, e que foi escassamente atingida pelo incêndio.

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Uma carapaça (Erica ciliaris) em flor sobre terreno ainda negro

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Com o Cabeço Santo em fundo, os voluntários observam o corredor ecológico ribeirinho, lá em baixo, do outro lado do ribeiro

No que toca às mimosas, a área de trabalho foi mais a montante, na zona da Ribeira do Tojo, em pleno corredor ecológico ribeirinho.

Quanto aos eucaliptos, os voluntários cortaram com machados rebentação numa nova parcela de intervenção no Vale de Barrocas. A parcela em questão é enquadrada por um pequeno vale, mas onde mesmo assim existe uma nascente que alimenta uma casa da aldeia do Feridouro. Por isso, pelo menos no entorno deste vale, é importante desvitalizar as toiças de eucalipto de forma o mais “suave” possível, e esta traduz-se no corte repetido da rebentação. Este foi o primeiro corte. Logo veremos quantos são necessários. Como tudo, também esta operação tem os seus detalhes: os voluntários observaram atentamente e depois… mãos à obra!

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A paisagem ainda dominada pela rebentação dos eucaliptos

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Momento de “formação”

Dado o elevado número de voluntários, o grupo dividiu-se em dois e, enquanto um dos grupos se dedicou aos eucaliptos, outro dedicou-se às mimosas. Aqui a técnica aplicada foi o descasque. Os dois grupos rodaram durante o dia, para diversificar experiências.

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Pelo meio do dia, não faltaram as delícias gastronómicas da Ana Teresa

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Uma mimosa sob o céu

Faltou a foto de despedida…para variar.

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Na falta da foto de despedida, uma perspectiva dos voluntários no caminho para Belazaima-a-Velha

Os trabalhos deste dia deverão continuar durante o Outono, sobretudo o corte da rebentação de eucalipto, e desenvolver-se em simultâneo com a importante operação que se iniciará já a partir da próxima jornada: a sementeira de bolotas! Por isso, seria muito útil continuar a contar com um generoso número de voluntários como aconteceu nesta jornada. Aqui fica o repto, já para dia 11 de Novembro!

Obrigado a todos os voluntários, e em particular aos vários fotógrafos.

Paulo Domingues

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2ª jornada de Outono e dias seguintes

Na segunda jornada de Outono, decorrida já a 14 de Outubro, tivemos apanha de bolota em segunda edição, mas com novos voluntários.

Um grupo seguiu o mesmo caminho da 1ª jornada de Outono, caminhando para montante ao longo do Ribeiro, a partir da Quinta das Tílias, enquanto outro pequeno grupo foi instalar duas barreiras para sinalizar (para quem tem dificuldade em compreender sozinho) que um troço de um vale, como o Vale da Estrela, não deve ser percorrido de nenhuma maneira e muito menos por veículos motorizados de duas rodas. O facto de acontecer, e não apenas no Vale da Estrela, mostra como a consciência face à dramática situação da nossa paisagem pode ser tão diminuta, num momento em que era necessário que fosse enorme.

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Um castanheiro cheio de luz, na Várzea-de-Além. Foto da voluntária Paula Pires (PP).

Os dois grupos encontraram-se na Benfeita, onde um formoso carvalho proporcionou uma excelente colheita.

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Voluntárias estreando-se na apanha da bolota (PP).

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Apanhando bolota num generoso carvalho da Benfeita (PP).

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Preciosas bolotas (PP).

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O carvalho da Benfeita

Seguindo o modelo da jornada anterior, a equipa dirigiu-se depois à área da Ponte Nova, onde vale sempre a pena voltar, quanto mais não seja para admirar a paisagem. Mas desta vez não almoçámos aí, simplesmente porque a comida não tinha ido…

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À Ponte Nova vale sempre a pena voltar (PP).

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As preciosas bolotas da Ponte Nova (PP).

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Esta ainda não era a foto de despedida, a não ser para os dois voluntários que aqui terminavam a sua participação

À tarde rumámos ao Feridouro, percorrendo várias parcelas do Cortinhal, uma área em grande revolução desde que se decidiu aí reverter o eucaliptal para terra de cultivo. Os carvalhos que lá existiam parecem ter ficado agradecidos e alguns produziram bolota abundantemente.

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Bolotas em plena árvore num dos carvalhos do Cortinhal

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Equipa voluntária muito concentrada na apanha.

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Junto ao Ribeiro de Belazaima, onde ainda corria um “fio de água” (PP).

Como duas semanas antes, a equipa terminou a apanha da bolota pelo meio da tarde e consumiu as energias restantes a descascar mimosas por ali perto.

A foto final tirou-se já na base de operações, em torno do resultado do trabalho desse dia: mais uns 100 kg de bolota, para não ficar atrás da equipa da jornada anterior.

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Foto final com o produto da colheita.

Depois veio o Domingo, em que o Inferno desceu à terra, como está ainda bem presente na memória de todos. Na vizinhança imediata do Cabeço Santo não houve fogo, mas as colunas de fumo observavam-se num raio de quase 360°: dos incêndios de Vouzela a nordeste, Tondela a nascente, Mortágua e Santa Comba Dão a sudeste, Penacova a sul, Vagos a sudoeste, Oiã a oeste… O ar ficou saturado de fumo e o sol empalideceu. O vento, enraivecido, juntava ao fumo o pó da terra seca, levantando nuvens de poeira. A temperatura, elevadíssima, a humidade do ar, baixíssima (35° de máxima em Belazaima, ainda 30° pelas 19 horas, com 20% de humidade relativa). As árvores, já num enorme stress hídrico, depois de 4 meses e meio sem chuva, suportaram, quiçá no limite das suas “forças“, mais esta provação, onde tiveram a sorte de escapar à voragem das chamas. Vou ao encontro delas e o que encontro? Homens de armas na mão! A Terra “grita” por cuidados com todas as suas forças e as únicas pessoas que encontro são homens de armas na mão! Do céu vem uma chuva de cinzas que tudo cobre de cinzento, e este triste dia chega ao fim.

No dia seguinte, Segunda, previa-se chuva, e logo pela madrugada mirei o céu. Pareceu-me carregado de nuvens, e julguei que começaria a chover a qualquer instante, mas logo que o dia clareou percebi que as nuvens ainda eram de fumo e que a chuva ainda era de cinzas. Esperei pela chuva a sério o dia inteiro, mas ela, importante, desesperadamente aguardada, fez-se esperar. Em Belazaima, passavam alguns minutos da 1 da madrugada de Terça quando começou a cair. Tive receio que fosse um sonho e levantei-me para a sentir nas minhas próprias mãos, no meu corpo inteiro: era mesmo chuva de águas claras e cristalinas (e se não eram assim me pareceram)! Foi-se o sono! Pelo fim da madrugada a chuva parou mas ao nascer do sol contavam-se já 17 litros por metro quadrado, o suficiente para “habituar” a terra à chuva, da qual durante tanto tempo “jejuou”.

Na noite seguinte voltou a chover, agora 19 litros, e parecia que a memória desse inferno de Domingo já era apenas como a de um pesadelo que se desvanece com o acordar. Foi necessário fazer uma viagem, entre Belazaima e Seia, para constatar a dura realidade: durante mais de 50 km, entre Mortágua e Seia, o panorama é desolador: floresta, a de eucaliptos e pinheiros, mas também carvalhos, castanheiros, e mesmo pomares e terras agrícolas com pouco mais do que escasso restolho foram engolidos pelo fogo, que entrou mesmo em jardins, hortas e povoados. Midões, Fiais da Beira, Ervedal da Beira, Travancinha, Sameice, Folgosa da Madalena, terras da Beira Alta de nomes elegantes e paisagens diversas que agora se vestem de negro.

As encostas sobranceiras ao Mondego, já muito degradadas pela ocupação com mimosas, igualmente negras. Uma devastação imensa mas também uma imensa oportunidade de recuperação, em áreas que, ao contrário das zonas (tradicionais) de cultivo de eucalipto, estarão mais disponíveis para intervenção. Mas que ninguém duvide: a recuperação não se produzirá sozinha. Pelo contrário, sem intervenção as mimosas voltarão ainda com mais força, expandir-se-ão ainda para mais longe, e, até ao próximo incêndio, o empobrecimento paisagístico e biológico prosseguirá imparável.

Era necessário que as administrações e as comunidades se unissem num esforço ímpar, num movimento grandioso e determinado. Mas têm, umas e outras, energia e motivação suficientes para isso? Dizem que há 300 000 caçadores em Portugal. Mas, e quantos cuidadores? E voltamos a esse problema, já outras vezes invocado, da extrema discrepância entre o que é necessário fazer e o que as pessoas, as comunidades e as administrações estão dispostas a fazer. No fundo, um problema cultural e civilizacional. Um reflexo do momento de profunda crise e imenso perigo em que, como civilização, nos encontramos. Como invocar essas forças, latentes no fundo da consciência humana, mas numa letargia e numa prisão que parecem não as deixar expressar, para que manifestem todo o seu potencial? Que essas forças existem, não há dúvida. Por meio delas, povos se reergueram da devastação da guerra, civilizações, como a nossa própria, brilharam após séculos de trevas, e, mesmo individualmente, pessoas se elevaram e descobriam destinos valorosos, a partir dos destroços dos seus próprios passados. Como invocar essas forças, e trazê-las à superfície, eis algo tão premente como pôr mãos à obra, pois que a segunda não pode acontecer sem a primeira.

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O Rio Seia, entre Ervedal e Travancinha, em Maio

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O Rio Seia, entre Ervedal e Travancinha, a 22 de Outubro

E depois desta divagação, que ocasionalmente se afasta dos limites do Cabeço Santo, voltamos até ele, já no próximo Sábado, para continuar uma missão que, também ela, nasceu de uma catástrofe de fogo, e também ela se leva avante perante muita resistência e letargia, mas, mesmo assim, se leva avante.

Obrigado a todos os voluntários. E à Paula Pires pelas fotos inspiradas e inspiradoras!

Até Sábado!

Paulo Domingues

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1ª Jornada de Outono

A jornada de 30 de Setembro, a primeira deste Outono que ainda parece Verão, foi dedicada a duas actividades distintas: apanha de bolotas e castanhas e arranque/descasque de mimosas.

Como já foi explicado no artigo de apresentação das jornadas de Outono, este ano planeamos fazer uma sementeira importante de bolotas, aproveitando o facto de a produção ser elevada, embora a intensa seca que estamos a viver esteja já a comprometer a produção de muitas árvores. Deste modo, têm que se seleccionar árvores com bolotas em bom estado, de maneira a melhorar a viabilidade das sementes.

A equipa começou pelos carvalhos da Quinta das Tílias, progredindo em direcção ao ribeiro, onde se apanharam também castanhas nos castanheiros que residem nas margens. Embora severamente afectados na Primavera pela “nova” vespa-das-galhas-dos castanheiros, no Verão as árvores recuperaram, lançaram novas folhas já não afectadas e acabaram por dar uma produção interessante.

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Apanhando castanhas

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Apanhando bolotas

Depois de atravessar o ribeiro, onde ainda corre um fio de água, a equipa seleccionou alguns dos melhores carvalhos, um deles o maior da zona, onde valeu a pena ir só para o contemplar, e aí concluiu esta parte da colheita.

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Sob um formoso carvalho isolado…

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Na intimidade de um carvalho…

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Junto ao maior carvalho da zona

Ainda durante a manhã deslocámo-nos à zona da Ponte Nova, onde alguns carvalhos eram já conhecidos pela sua generosidade. E generosa foi também a sombra e o ambiente proporcionado por aquelas grandes árvores durante o período de paragem para o almoço.

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Uma das árvores notáveis da zona da Ponte Nova

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Uma formosa tília-de-folha-pequena

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Aqui as águas do ribeiro encontravam-se cobertas com algas, talvez devido aos excessivos nutrientes dissolvidos

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O almoço fez-se à sombra destas árvores!

À tarde a equipa deslocou-se até ao Feridouro, para apanhar bolotas debaixo dos grandes carvalhos junto ao Vale de São Francisco, e depois nos do Cortinhal. No Vale de São Francisco uma nascente ainda pingava uma água preciosa, mas pareciam ser mesmo os últimos pingos de um Verão que teima em não terminar.

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À tarde, junto aos grandes carvalhos do Vale de São Francisco

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Mesmo junto ao Vale de São Francisco

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Uma nascente ainda pingava. Preciosa!

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A apanha concluiu-se sob os carvalhos do Cortinhal

Já a tarde ia adiantada quando se deu a colheita por terminada e se passou a um trabalho diferente, para diversificar: na zona da Chousa (a jusante do Feridouro), descascaram-se e arrancaram-se mimosas em torno do ribeiro. Esta zona é preciosa, mas encontrava-se muito invadida de grandes mimosas (que foram entretanto removidas), sendo agora necessário não deixar crescer muito as imensas plantas que, talvez mais originadas por rebentamento de raízes do que por germinação de sementes, vão aparecendo e crescendo rapidamente. Nalguns casos tiveram que se fazer equipas de dois, três, ou mesmo quatro voluntários para arrancar algumas mimosas mais agarradas. Foi um bom exercício, onde se esgotaram as energias do dia.

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Na Chousa descascaram-se e arrancaram-se mimosas

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O leito, aqui seco, do ribeiro, com as mimosas arrancadas das margens

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O trabalho de equipa foi essencial para o arranque de algumas mimosas

Quanto às bolotas e castanhas apanhadas, estima-se em 100 kg a quantidade recolhida. Estas sementes foram depois seleccionadas, limpas e colocadas numa câmara frigorífica para manterem boa capacidade germinativa até ao momento de poderem ser semeadas. Com o tempo quente e seco que tem estado, as bolotas perdem rapidamente a capacidade germinativa se não forem guardadas num ambiente de elevada humidade. Por outro lado, a baixa temperatura da câmara atrasa a germinação, garantindo que, ainda que sejam semeadas só em Novembro ou Dezembro, se encontram em boas condições. No entanto também não devemos atrasar demasiado a sementeira pois quanto mais tarde, maior é a pressão predatória. Novembro, será o mês mais próprio.

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O resultado da apanha

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A equipa voluntária da jornada

Obrigado a todos os voluntários. As jornadas de Outono continuam já no próximo Sábado!

Paulo Domingues

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Jornadas Voluntárias de Outono

Ainda muito tímido, o Outono já chegou, e com ele chegam as Jornadas voluntárias de Outono.

Depois de um Verão mais mediterrânico que atlântico, com 4 meses quase sem pinga de água, as plantações dos últimos anos foram postas à prova. Quanto às deste ano, duas regas foram o esforço possível para as salvar. As do ano passado, já mais enraizadas, tiveram que aguentar por si. Nalguns locais houve algumas perdas. Noutros ainda foi possível regá-las também, uma vez.

Como já sabíamos, as plantações geram sempre plantas mais vulneráveis do que as de origem seminal. Mas, por outro lado, não há banco de sementes de árvores e arbustos nativos no solo, e a disseminação activa de sementes conduz a uma baixa taxa de sucesso. Contudo, nos anos em que a produção de bolota [de carvalho-roble] é grande, como a abundância de alimento reduz a pressão dos predadores, a taxa de germinação e sucesso na fixação costuma ser elevada. Ora este é um tal ano: o vingamento foi massivo e, apesar da seca, as bolotas chegam agora à maturação, pelo menos nas árvores mais fortes e bem estabelecidas. Por isso, um dos trabalhos deste Outono, ainda antes da época de plantação, é a colheita e sementeira de bolotas. Também seria importante semear bolotas de sobreiro, pois se a tendência para Verões quentes e secos se mantiver, é mais provável a sobrevivência dos sobreiros. Mas aqui os sobreiros são muito mais imprevisíveis e erráticos na produção de bolota do que os carvalhos.

Alguns de vós estarão a perguntar: então e as famosas bolas e bolachas de sementes, das quais se repetiu uma experiência em 2015/16? O mínimo que se pode dizer é que os resultados não foram conclusivos. Observou-se, com efeito, alguma germinação de bolota, mas dificilmente se pode concluir que foi maior do que se as bolotas tivessem sido semeadas sem bola. E quanto às restantes espécies, praticamente não se observou germinação. Valeria a pena afinar a técnica [repelentes mais eficazes, época de sementeira mais adequada, …], pelo motivo que ficou exposto acima da vantagem de se terem plantas de origem seminal directamente no terreno. Mas de momento, não será muito útil gastar tempo e recursos com a técnica…

Claro, também faremos plantações, provavelmente mais de arbustos do que de árvores, a partir de Novembro.

Então aqui fica o calendário das jornadas de Outono:

30 de Setembro

14 e 28 de Outubro

11 e 25 de Novembro [23: dia da floresta autóctone]

9 de Dezembro

Encontro com os voluntários de Outono já no próximo Sábado. Até lá!

Paulo Domingues

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Mini-CTC e efeméride

Começamos com uma efeméride: há exactamente 12 anos o Cabeço Santo e uma extensa área dos Concelhos de Águeda, Mortágua e Anadia acordava de um pesadelo nocturno: uma noite de vento, um acendimento provocado ao princípio da noite, uma paisagem “pronta” para o que viria a seguir. Infelizmente, não seria a última vez, mas dessa foi um evento particularmente virulento, cujas marcas directas perduraram durante anos e indirectas muito mais, até hoje.

Voltando ao presente, tivemos este fim de semana o aguardado mini-CTC (Campo de Trabalho Científico) dedicado ao controlo de espécies vegetais invasoras e para o qual foram convidados antigos participantes em CTC’s promovidos anualmente pelo grupo das Invasoras da Universidade de Coimbra (Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra) desde 2003.

Os participantes, alguns vindos de longe, começaram a chegar ainda na Sexta à noite, e no Sábado tínhamos perto de 20 voluntários de (quase) todas as idades ao serviço. Com toda a determinação de um início de jornada e braços ainda frescos, este “batalhão” de operacionais “armados” de tesouras, navalhas e facas dirigiu-se para uma formação de mimosas na área da confluência dos vales nºs 3, 4 e 5 com a certeza de “derrotar” o “inimigo” de uma penada… Mas não seria assim: a severa seca deu origem a que a casca se agarrasse com força à parte interior do tronco, tornando muito difícil o descasque. De tal maneira, que se considerou improdutivo continuar e o “batalhão” recuou para reorganização e reflexão.

A estratégia de recurso pareceu funcionar: a equipa dirigiu-se para as mimosas, algumas grandes, que se dispõem ao longo do vale nº 3, um local mais fresco e onde as plantas não estão sujeitas a tão elevado stress hídrico. Aqui foi possível trabalhar o resto da manhã, subindo o vale e reiniciando a recuperação deste troço do mesmo, que em tão críticas condições se encontra. Entre o caminho que o atravessa e o ribeiro, uma área foi afectada pelo incêndio de 28 de Abril, e também aqui foram realizados alguns trabalhos de arranque de rebentação e arrumação de ramadas queimadas.

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Entre mimosas, grandes e pequenas

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Voluntárias em acção

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Algumas mimosas, mais afastadas do vale, sucumbem perante a temível seca

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A encosta sobranceira ao vale encontra-se severamente invadida

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Em grupo não se desanima tão facilmente…

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Vai uma bolacha?

Depois de um almoço a sério à sombra das mimosas acabadas de descascar (!!), o grupo subiu (sobre rodas) o vale nº 3 para abordar a mancha de acácia-de-espigas da zona média-alta do vale. As áreas alvo foram acima e abaixo do caminho que atravessa o vale, ambas onde já se tinham realizado trabalhos e a necessitar de acompanhamento. Acima a situação é pior, com muita rebentação de raízes e alguma germinação. Abaixo, onde os medronheiros (espontâneos e alguns plantados também) se encontram em melhores condições e onde as plantas de acácia-de-espigas são já mais dispersas, a evolução foi mais rápida. As ramadas de cortes anteriores e, já na aproximação ao vale, o silvado, foram os principais obstáculos. Quando, já depois das 18 horas, os trabalhos se deram aqui por terminados, os progressos eram visíveis. Mas podia-se voltar aqui muitos dias seguidos, semanas até, com toda esta equipa, que haveria trabalho para ela, tal é o gigantismo da missão que temos em mãos.

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Quem não se sente intimidado perante um “mar” de acácias-de-espigas? Os voluntários do mini_CTC, tanto graúdos como miúdos!

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Um medronheiro à espera de ser “salvo”!

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Abaixo do caminho, a situação é mais animadora, mas a progressão no terreno também não foi fácil

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O grupo de Sábado, no final do dia

À noite realizou-se uma conferência pública na sala da Junta de Freguesia. Pareceu contudo mais privada que pública, o que não obstou a que fosse muito animada, com intervenções de todas as “cores” e ideias muito imaginativas quanto ao futuro do projecto.

Conferencia16-9-2017cartazNo Domingo de manhã recebemos ainda outros voluntários, alguns já habituais nas jornadas regulares. Com cerca de 30 pares de braços prontos a entrar em acção, a área alvo foi o corredor ribeirinho a jusante e a montante dos portões da mata da Altri Florestal: cortou-se rebentação de eucalipto, arrancaram-se e descascaram-se mimosas e também acácias-de-espigas, fazendo-se um varrimento quase metro a metro da faixa de terreno.

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O arranque para o terreno, no Domingo de manhã

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“De pequenino…”

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Arrancando e descascando

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Louva-a-Deus

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Os carvalhos do Vale de Barrocas e a paisagem de eucaliptos, em segundo plano

O mini-CTC encerrou-se com um almoço no parque de merendas do Moinho de Vento em Belazaima, com um balanço bem positivo. Um agradecimento a todos os participantes, e em especial à Hélia e à Elizabete Marchante pelo seu empenhamento na preparação deste CTC.

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Foto de encerramento, com todos os participantes

Quanto ao futuro, ficou a vontade de repetir, talvez com um evento de maior duração e com mais actividades “paralelas” para os participantes. Fica a ideia a germinar. Oxalá o “solo” seja fértil!

Paulo Domingues

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11 anos depois

Foi mesmo assim: 11 anos depois ainda por cá andamos e com energia para continuar. Como já explicámos, por manifesto incumprimento das promessas da DINA(*) (ou melhor dos meteo’s em nome dela), o Verão ainda não deu tréguas e as condições são difíceis para as árvores e arbustos plantados na última época. Por isso, optámos por ocupar a jornada de aniversário com mais uma operação de rega.

Como a equipa voluntária era grande e não seria muito eficiente andar toda a regar, dividiu-se em dois: um grupo foi regar e o outro foi arrancar mimosas. O grupo da rega começou na Benfeita, como em Julho, o das mimosas deslocou-se até ao Feridouro para intervir na zona da Chousa.

Na Benfeita, as águas cristalinas do Lousadelo corriam ainda abundantes para o tanque (bendita nascente…) e o depósito de 1000 litros encheu-se rapidamente. Depois a rega iniciou-se, junto ao Vale da Estrela. Constatámos que nas zonas mais difíceis já havia algumas baixas; talvez tenhamos que reavaliar as perdas em 20 a 25%. Mas também havia plantas bonitas, outras com sede… Foi-se progredindo para norte com dinamismo, e nem houve oportunidade para fotos.

Nas mimosas nem máquina fotográfica havia, mas os trabalhos parecem ter decorrido também com entusiasmo.

Já passava do meio dia quando a rega na Benfeita se deu por terminada e agora, que o calor começava a apertar, um mergulho no tanque era uma tentação quase irresistível… mas não podia ser: a equipa do Feridouro esperava pela da Benfeita para um almoço em conjunto.

O almoço decorreu na casa do colaborador e voluntário do projecto Jorge Morais, usufruindo de alguns serviços que raramente nos demos ao luxo de ter nos últimos 11 anos! E claro, depois das deliciosas iguarias a que a Ana Teresa já nos habituou, tínhamos de concluir com um bolo de aniversário. Um? Não, dois, que a equipa era grande e só não foi ainda maior porque houve algumas desistências de última hora.

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As especialidades que lembraram o aniversário

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Tertúlia da hora de almoço

Como o dia era de calor, era da maior justeza a fruição do período de sesta, como aconteceu em Julho. Só que desta vez tínhamos de terminar mais cedo, por várias razões, uma delas também relacionada com o projecto: uma tertúlia sobre a floresta para a qual tínhamos sido convidados, em Valongo do Vouga. Deste modo, regámos e arrancámos mimosas a montante do Feridouro, logo a seguir ao almoço. Aí tivemos a parte mais dura do dia. Mas ninguém desanimou (demasiado!) e pelas 16:30h já a foto de despedida se tomava, de novo nas instalações do Jorge Morais.

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De volta ao terreno na parte mais quente de um dia quente…

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Regando um frágil medronheiro, entre pedras e vigorosas plantas do matagal

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As condições foram difíceis este ano. Mas as plantas lá se foram aguentando…

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Gestão da longa mangueira, junto à carrinha de apoio

Tinha sido um dia produtivo e ao mesmo tempo instrutivo para as muitas caras novas entre os participantes. Uma jornada digna de um aniversário. Obrigado a todos os voluntários.

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Equipa de voluntários presentes

Para terminar acrescentam-se ainda duas fotos da tertúlia de Valongo do Vouga, bastante participada. Agora só falta passar das palavras à acção (bem , em rigor já há também por ali quem dê exemplos e inspiração). E um primeiro alvo foi fácil de identificar: o Rio Marnel logo a montante de Brunhido, as suas margens e encostas adjacentes, presentemente num estado de notável degradação paisagística, que pouco justificam uma caminhada pelo Trilho das Levadas, aliás presentemente encerrado. Vamos para o terreno?

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A tertúlia em Valongo do Vouga, bastante participada

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A apresentação do Projecto Cabeço Santo

As fotos de Valongo do Vouga foram gentilmente cedidas pela Ana Paula Lima.

Paulo Domingues

(*) Depressão Isolada em Níveis Altos, o fenómeno meteorológico que se verificou na semana passada na Península Ibérica e que, não obstante as muitas previsões de chuva emitidas, acabou por deixar quase a seco muitas regiões

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