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Última jornada de Outono

A última jornada de Outono (e de 2017) foi participada por 18 voluntários, um nível de participação que se manteve consistentemente elevado ao longo do Outono.

O dia previa-se com alguma chuva, e com efeito a paisagem continua a ansiar por ela, mas a organização apostou na sua vinda apenas no Domingo, deixando o Sábado livre para os trabalhos! E assim foi: a equipa deslocou-se de manhã até à zona da Benfeita, ainda bem perto de Belazaima, onde semeou duas áreas declivosas. Numa delas as toiças de eucalipto tinham sido partidas e parcialmente arrancadas por uma máquina com enxó. Na outra o terreno era demasiado declivoso e isso não tinha sido possível, tendo-se optado aqui por pulverizar a rebentação com herbicida. Esta operação tinha decorrido há apenas algumas semanas e a rebentação dava agora sinais de secar.

Foi nesta área que se começou. O solo foi mobilizado no passado para a plantação dos eucaliptos, tendo desestabilizado bastante a sua frágil estrutura, o que ainda claramente se podia constatar, tantos anos depois. Apesar disso, e fruto da já não muito elevada densidade de eucaliptos aqui presentes, alguns carvalhos tinham conseguido romper aqui e ali, sendo um bom indicador da adequação da espécie ao local.

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Sementeira de bolota entre rebentos já meio murchos. Esta parcela também foi percorrida pelo incêndio de 28 de Abril passado

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Voluntária semeadora com todo o seu equipamento

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Aqui as toiças tinham sido arrancadas e partidas, mas não foi essa operação que mais afectou a estrutura deste solo

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Um fungo interessante numa toiça de eucalipto queimada

Já a manhã ia adiantada quando a equipa passou à área sem rebentos e aí continuou até à hora do almoço. Este decorreu na Quinta das Tílias, por razões de proximidade. Alguns voluntários tinham-se dedicado também ao corte de rebentação de eucalipto numa área ali perto.

À tarde, e para concluir “em beleza”, a equipa deslocou-se até ao Vale de Barrocas para iniciar trabalhos de reconversão numa parcela que há muito ansiávamos incluir na área de intervenção: a parcela que contém a pequena mancha de carvalhos grandes da margem esquerda do ribeiro que resistiu aos vários cataclismos que assolaram esta paisagem nas últimas décadas. A maior parte desses carvalhos cresceu nos últimos 50 anos sobre solos de pequeníssimas áreas agrícolas que os homens de antanho criaram ao longo de um vale que desce desde o Cabeço do Meio até ao Ribeiro. Este vale é só um pouco mais pequeno do que o principal, mas como há por aqui muitos vales, toda a zona toma o nome do principal. Este, onde se desenvolveram os trabalhos de hoje, situa-se 200 metros a oeste do principal e ainda tem outro mais pequeno pelo meio. Tal como os dois anteriores também este tem uma captação de água de onde, apesar da seca ainda não ultrapassada deste ano, ainda corre um caudal bem interessante. Estes e outros motivos justificavam a inclusão desta parcela na área de intervenção do Vale de Barrocas e, fruto de um longo “namoro”, conseguiu-se finalmente!

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Voluntários já entre os rebentos do Vale de Barrocas

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Os “famosos” carvalhos, vistos do lado oposto ao de onde são mais habitualmente observados

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Equipa em acção coordenada

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Perspectiva do trabalho de corte dos rebentos realizado (a sementeira não se vê!)

Como a parcela ainda tinha rebentação de eucalipto, a equipa dividiu-se entre a sementeira e o corte dos rebentos. A sementeira concluiu-se na curta tarde mas o corte dos rebentos ainda necessita de trabalho adicional.

A jornada concluiu-se com um pequeno lanche já na Quinta das Tílias, onde se tirou a foto de despedida, já sem um voluntário. Uma despedida até ao próximo ano, onde esperamos continuar a contar com a generosidade de tantos voluntários, o que só assim nos permite abraçar positivamente desafios tão grandes como os que temos para o próximo e os próximos anos.

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Foto de despedida. Não saiu com muita qualidade mas isso foi o menos importante do dia!

Um grande obrigado a todos os voluntários desta jornada, deste Outono, e deste ano de 2017!

Paulo Domingues

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A jornada do Dia da Floresta Autóctone

No dia 25 de Novembro tivemos a jornada de celebração do Dia da Floresta Autóctone com mais uma concorrida acção de sementeira de bolota: quase 20 voluntários, embora alguns não tenham ficado todo o dia (e outros, inscritos, não tenham aparecido).

A manhã decorreu numa parcela do Vale da Várzea de onde os eucaliptos foram recentemente removidos. Apesar de ter pouco mais de 1,5 ha, a parcela tem um relevo complexo, com declive frequentemente elevado. Ainda com os eucaliptos em pé, foi percorrida pelo incêndio de 28 de Abril passado, dando origem a que a tonalidade dominante da área seja o negro. Pior do que isso, formaram-se as típicas crostas de cinza que dificultam a penetração da água no solo, fenómeno agravado pelo declive e pela escassa precipitação. Mesmo em locais planos, foi possível observar um sítio onde se acumulava água à superfície, mas o solo por baixo se encontrava completamente seco. Isto pode ser um problema, pois as bolotas necessitam de um entorno com certa humidade para se manterem vivas. Tentou-se dar preferência aos locais onde a água conseguiu penetrar no solo, mas nem sempre isso foi possível. Durante toda a manhã se trabalhou neste local, tendo ainda alguns voluntários cortado rebentos de eucalipto.

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Vale da Várzea, uma perspectiva mais sombria

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Vale da Várzea, uma perspectiva mais animadora!

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Vale da Várzea: trabalhos em curso

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Vale da Várzea: em paralelo com a sementeira, uma equipa local recolhia pedaços de toco de eucalipto

Nesta parcela uma máquina (giratória) com enxó partiu toiças de eucalipto para as desvitalizar e acelerar a sua decomposição, mas só nos locais onde o declive do terreno o permitiu.

Dada a proximidade e maior facilidade de processar o almoço, que desta vez foi feijoada, a refeição fez-se na base de operações da Quinta das Tílias.

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Desta vez o almoço quase pareceu um serviço de refeitório!

À tarde a equipa rumou ao Vale de Barrocas para continuar o trabalho das jornadas anteriores. Acabou a mancha de rebentos de eucalipto que na jornada anterior tinha ficado avançada e continuou a sementeira no entorno do braço principal do Vale de Barrocas, nas suas cotas mais elevadas. Tinha a expectativa de receber uma equipa de reportagem do Porto Canal, mas esta, tendo andado meio perdida no Cabeço Santo, acabou por chegar demasiado tarde e ficou-se pelo caminho de acesso ao Feridouro. Apesar disso, fez a reportagem.

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Voluntários a caminho para o local de intervenção no Vale de Barrocas

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Perspectiva do Vale de Barrocas

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Equipa, já incompleta, no final

O encerramento da jornada fez-se de novo na base da Quinta das Tílias, quando já alguns voluntários não estavam presentes. Tinha sido mais uma produtiva jornada, mas os resultados vêm-se (oxalá!) mais tarde. Obrigado a todos os voluntários! Continuamos dia 9 de Dezembro.

Paulo Domingues

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Jornada voluntária especial

No dia 18 de Novembro tivemos mais uma jornada voluntária, desta vez não prevista no calendário, motivada pela disponibilidade de um grupo de estudantes da Universidade de Aveiro, mais precisamente do Núcleo de Estudantes de Engenharia do Ambiente da Associação Académica da Universidade de Aveiro. A este grupo se juntaram outros voluntários não universitários que já tinham manifestado interesse em comparecer. Assim se constituiu mais um numeroso grupo de voluntários que se deslocou até ao Vale de Barrocas para continuar os trabalhos da jornada anterior.

Como anteriormente, o grupo dividiu-se em dois, ficando um com o trabalho de cortar rebentos de eucalipto e outro com o trabalho de semear bolotas e castanhas.

O grupo da sementeira passou a manhã nas cotas mais baixas da encosta, junto ao Ribeiro. Não foi um trabalho fácil, devido ao declive e às ramadas de eucalipto deixadas espalhadas pelo terreno, após o corte dos eucaliptos queimados que aqui estavam. O grupo dos rebentos andou numa cota mais elevada, em torno do braço principal do vale.

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Corte de rebentação, junto a um barranco artificial para aproveitamento de uma nascente

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Carvalho tenaz plantado no princípio do ano, que conseguiu rebentar após o fogo de 28 de Abril

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Voluntária em acção nos rebentos

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Voluntária semeadora

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Voluntário guardião

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Vista geral dos trabalhos de sementeira

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Perspectiva da área semeada de manhã

À tarde a equipa de sementeira, tendo concluído os trabalhos mais abaixo, subiu também a encosta para semear acima do antigo caminho para Belazaima-a-Velha. Os trabalhos avançaram com bastante dinâmica, e, já a tarde ia adiantada, pareceu que, se todos dessem uma contribuição nos rebentos, se conseguia concluir o trabalho neste local. Então, mesmo sem machados para todos, todo o grupo se dedicou aos rebentos de eucalipto! Não ficou concluído, mas também já falta muito pouco! A foto de despedida tirou-se logo ali, que o sol já tinha desaparecido atrás da encosta.

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Perspectiva do almoço

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O vale de Barrocas e o antigo caminho para Belazaima-a-Velha

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O Vale de Barrocas com o Cabeço Santo em segundo plano

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Pelo final do dia, toda a equipa se dedicou aos rebentos de eucalipto

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O grupo, já incompleto, no final do dia

Obrigado a todos os voluntários. Algumas fotos são do Daniel Graça e outras da Maria Cruz.

As jornadas voluntárias voltam já no próximo Sábado! Em comemoração do Dia da Floresta Autóctone! Bem, de facto comemoramo-lo muitos dias ao longo do ano!

Paulo Domingues

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Começaram as sementeiras!

Esta foi já a 4ª jornada de Outono! Um Outono quase sem chuva, como não se viu por aqui nas últimas décadas, mas isso é algo que não podemos alterar. O que podemos, sim, alterar, é o que fazemos para ajudar a Terra a recuperar do estado enfermo em que a colocámos, e que parece continuar a agravar-se (Artigo no Público). Foi o que fizeram 24 voluntários nesta jornada em que se iniciou a sério a temporada de sementeira e plantação de árvores. Para já começámos com a sementeira.

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Bolota pronta a enterrar

Os trabalhos decorreram no Vale de Barrocas, que tem sido o alvo principal das atenções. A equipa foi dividida ao meio: um grupo foi cortar rebentação de eucalipto e outro foi semear bolotas de carvalho-roble.

O corte da rebentação foi o trabalho mais exigente fisicamente, dado o tamanho dos rebentos e o acidentado do terreno. Foi a continuação do trabalho da última jornada e que na parcela em início de intervenção praticamente se concluiu.

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Corte da rebentação de eucalipto

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Perspectiva da área já trabalhada na jornada anterior

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À tarde, os trabalhos de corte da rebentação continuaram na parcela mais antiga, onde os rebentos já são mais raros

A sementeira da bolota foi um trabalho mais delicado e reflexivo, durante o qual os voluntários não apenas tinham de colocar bolotas no terreno, mas tentar perceber qual o melhor sítio para semear cada bolota, numa distribuição aleatória mas uniforme pelo terreno, sem excessos nem faltas, mesmo que apenas 15 ou 20% das bolotas semeadas dêem origem a árvores!

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A semear bolota. Em segundo plano mancha ribeirinha de carvalhal e corredor ecológico plantado em 2015/16

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A mesma cena vista por outro fotógrafo!

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Rebentação de carvalho-roble, após o fogo

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Muito serenas, mas ainda correm, as águas do ribeiro

Pelo final do dia mais de 40 kg de bolotas tinham sido semeadas. Como cada bolota tem, em média 7g de peso, isto significa que cerca de 5700 bolotas foram semeadas! Se 20% delas vingarem, mais de 1000 árvores surgirão! Este é um balanço para dentro de alguns anos, mas, para já, foi um bom trabalho!

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Alguns dos voluntários presentes. Outros não puderam ficar para a foto final.

Obrigado a todos os voluntários! E ao Pedro Cruz pelo trabalho fotográfico, que pode ser apreciado com mais profusão na página do Cabeço Santo no Facebook.

As sementeiras vão continuar, e o corte de rebentos de eucalipto também! Voltem sempre!

Paulo Domingues

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2ª jornada de Outono e dias seguintes

Na segunda jornada de Outono, decorrida já a 14 de Outubro, tivemos apanha de bolota em segunda edição, mas com novos voluntários.

Um grupo seguiu o mesmo caminho da 1ª jornada de Outono, caminhando para montante ao longo do Ribeiro, a partir da Quinta das Tílias, enquanto outro pequeno grupo foi instalar duas barreiras para sinalizar (para quem tem dificuldade em compreender sozinho) que um troço de um vale, como o Vale da Estrela, não deve ser percorrido de nenhuma maneira e muito menos por veículos motorizados de duas rodas. O facto de acontecer, e não apenas no Vale da Estrela, mostra como a consciência face à dramática situação da nossa paisagem pode ser tão diminuta, num momento em que era necessário que fosse enorme.

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Um castanheiro cheio de luz, na Várzea-de-Além. Foto da voluntária Paula Pires (PP).

Os dois grupos encontraram-se na Benfeita, onde um formoso carvalho proporcionou uma excelente colheita.

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Voluntárias estreando-se na apanha da bolota (PP).

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Apanhando bolota num generoso carvalho da Benfeita (PP).

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Preciosas bolotas (PP).

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O carvalho da Benfeita

Seguindo o modelo da jornada anterior, a equipa dirigiu-se depois à área da Ponte Nova, onde vale sempre a pena voltar, quanto mais não seja para admirar a paisagem. Mas desta vez não almoçámos aí, simplesmente porque a comida não tinha ido…

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À Ponte Nova vale sempre a pena voltar (PP).

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As preciosas bolotas da Ponte Nova (PP).

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Esta ainda não era a foto de despedida, a não ser para os dois voluntários que aqui terminavam a sua participação

À tarde rumámos ao Feridouro, percorrendo várias parcelas do Cortinhal, uma área em grande revolução desde que se decidiu aí reverter o eucaliptal para terra de cultivo. Os carvalhos que lá existiam parecem ter ficado agradecidos e alguns produziram bolota abundantemente.

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Bolotas em plena árvore num dos carvalhos do Cortinhal

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Equipa voluntária muito concentrada na apanha.

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Junto ao Ribeiro de Belazaima, onde ainda corria um “fio de água” (PP).

Como duas semanas antes, a equipa terminou a apanha da bolota pelo meio da tarde e consumiu as energias restantes a descascar mimosas por ali perto.

A foto final tirou-se já na base de operações, em torno do resultado do trabalho desse dia: mais uns 100 kg de bolota, para não ficar atrás da equipa da jornada anterior.

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Foto final com o produto da colheita.

Depois veio o Domingo, em que o Inferno desceu à terra, como está ainda bem presente na memória de todos. Na vizinhança imediata do Cabeço Santo não houve fogo, mas as colunas de fumo observavam-se num raio de quase 360°: dos incêndios de Vouzela a nordeste, Tondela a nascente, Mortágua e Santa Comba Dão a sudeste, Penacova a sul, Vagos a sudoeste, Oiã a oeste… O ar ficou saturado de fumo e o sol empalideceu. O vento, enraivecido, juntava ao fumo o pó da terra seca, levantando nuvens de poeira. A temperatura, elevadíssima, a humidade do ar, baixíssima (35° de máxima em Belazaima, ainda 30° pelas 19 horas, com 20% de humidade relativa). As árvores, já num enorme stress hídrico, depois de 4 meses e meio sem chuva, suportaram, quiçá no limite das suas “forças“, mais esta provação, onde tiveram a sorte de escapar à voragem das chamas. Vou ao encontro delas e o que encontro? Homens de armas na mão! A Terra “grita” por cuidados com todas as suas forças e as únicas pessoas que encontro são homens de armas na mão! Do céu vem uma chuva de cinzas que tudo cobre de cinzento, e este triste dia chega ao fim.

No dia seguinte, Segunda, previa-se chuva, e logo pela madrugada mirei o céu. Pareceu-me carregado de nuvens, e julguei que começaria a chover a qualquer instante, mas logo que o dia clareou percebi que as nuvens ainda eram de fumo e que a chuva ainda era de cinzas. Esperei pela chuva a sério o dia inteiro, mas ela, importante, desesperadamente aguardada, fez-se esperar. Em Belazaima, passavam alguns minutos da 1 da madrugada de Terça quando começou a cair. Tive receio que fosse um sonho e levantei-me para a sentir nas minhas próprias mãos, no meu corpo inteiro: era mesmo chuva de águas claras e cristalinas (e se não eram assim me pareceram)! Foi-se o sono! Pelo fim da madrugada a chuva parou mas ao nascer do sol contavam-se já 17 litros por metro quadrado, o suficiente para “habituar” a terra à chuva, da qual durante tanto tempo “jejuou”.

Na noite seguinte voltou a chover, agora 19 litros, e parecia que a memória desse inferno de Domingo já era apenas como a de um pesadelo que se desvanece com o acordar. Foi necessário fazer uma viagem, entre Belazaima e Seia, para constatar a dura realidade: durante mais de 50 km, entre Mortágua e Seia, o panorama é desolador: floresta, a de eucaliptos e pinheiros, mas também carvalhos, castanheiros, e mesmo pomares e terras agrícolas com pouco mais do que escasso restolho foram engolidos pelo fogo, que entrou mesmo em jardins, hortas e povoados. Midões, Fiais da Beira, Ervedal da Beira, Travancinha, Sameice, Folgosa da Madalena, terras da Beira Alta de nomes elegantes e paisagens diversas que agora se vestem de negro.

As encostas sobranceiras ao Mondego, já muito degradadas pela ocupação com mimosas, igualmente negras. Uma devastação imensa mas também uma imensa oportunidade de recuperação, em áreas que, ao contrário das zonas (tradicionais) de cultivo de eucalipto, estarão mais disponíveis para intervenção. Mas que ninguém duvide: a recuperação não se produzirá sozinha. Pelo contrário, sem intervenção as mimosas voltarão ainda com mais força, expandir-se-ão ainda para mais longe, e, até ao próximo incêndio, o empobrecimento paisagístico e biológico prosseguirá imparável.

Era necessário que as administrações e as comunidades se unissem num esforço ímpar, num movimento grandioso e determinado. Mas têm, umas e outras, energia e motivação suficientes para isso? Dizem que há 300 000 caçadores em Portugal. Mas, e quantos cuidadores? E voltamos a esse problema, já outras vezes invocado, da extrema discrepância entre o que é necessário fazer e o que as pessoas, as comunidades e as administrações estão dispostas a fazer. No fundo, um problema cultural e civilizacional. Um reflexo do momento de profunda crise e imenso perigo em que, como civilização, nos encontramos. Como invocar essas forças, latentes no fundo da consciência humana, mas numa letargia e numa prisão que parecem não as deixar expressar, para que manifestem todo o seu potencial? Que essas forças existem, não há dúvida. Por meio delas, povos se reergueram da devastação da guerra, civilizações, como a nossa própria, brilharam após séculos de trevas, e, mesmo individualmente, pessoas se elevaram e descobriam destinos valorosos, a partir dos destroços dos seus próprios passados. Como invocar essas forças, e trazê-las à superfície, eis algo tão premente como pôr mãos à obra, pois que a segunda não pode acontecer sem a primeira.

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O Rio Seia, entre Ervedal e Travancinha, em Maio

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O Rio Seia, entre Ervedal e Travancinha, a 22 de Outubro

E depois desta divagação, que ocasionalmente se afasta dos limites do Cabeço Santo, voltamos até ele, já no próximo Sábado, para continuar uma missão que, também ela, nasceu de uma catástrofe de fogo, e também ela se leva avante perante muita resistência e letargia, mas, mesmo assim, se leva avante.

Obrigado a todos os voluntários. E à Paula Pires pelas fotos inspiradas e inspiradoras!

Até Sábado!

Paulo Domingues

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1ª Jornada de Outono

A jornada de 30 de Setembro, a primeira deste Outono que ainda parece Verão, foi dedicada a duas actividades distintas: apanha de bolotas e castanhas e arranque/descasque de mimosas.

Como já foi explicado no artigo de apresentação das jornadas de Outono, este ano planeamos fazer uma sementeira importante de bolotas, aproveitando o facto de a produção ser elevada, embora a intensa seca que estamos a viver esteja já a comprometer a produção de muitas árvores. Deste modo, têm que se seleccionar árvores com bolotas em bom estado, de maneira a melhorar a viabilidade das sementes.

A equipa começou pelos carvalhos da Quinta das Tílias, progredindo em direcção ao ribeiro, onde se apanharam também castanhas nos castanheiros que residem nas margens. Embora severamente afectados na Primavera pela “nova” vespa-das-galhas-dos castanheiros, no Verão as árvores recuperaram, lançaram novas folhas já não afectadas e acabaram por dar uma produção interessante.

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Apanhando castanhas

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Apanhando bolotas

Depois de atravessar o ribeiro, onde ainda corre um fio de água, a equipa seleccionou alguns dos melhores carvalhos, um deles o maior da zona, onde valeu a pena ir só para o contemplar, e aí concluiu esta parte da colheita.

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Sob um formoso carvalho isolado…

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Na intimidade de um carvalho…

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Junto ao maior carvalho da zona

Ainda durante a manhã deslocámo-nos à zona da Ponte Nova, onde alguns carvalhos eram já conhecidos pela sua generosidade. E generosa foi também a sombra e o ambiente proporcionado por aquelas grandes árvores durante o período de paragem para o almoço.

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Uma das árvores notáveis da zona da Ponte Nova

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Uma formosa tília-de-folha-pequena

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Aqui as águas do ribeiro encontravam-se cobertas com algas, talvez devido aos excessivos nutrientes dissolvidos

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O almoço fez-se à sombra destas árvores!

À tarde a equipa deslocou-se até ao Feridouro, para apanhar bolotas debaixo dos grandes carvalhos junto ao Vale de São Francisco, e depois nos do Cortinhal. No Vale de São Francisco uma nascente ainda pingava uma água preciosa, mas pareciam ser mesmo os últimos pingos de um Verão que teima em não terminar.

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À tarde, junto aos grandes carvalhos do Vale de São Francisco

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Mesmo junto ao Vale de São Francisco

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Uma nascente ainda pingava. Preciosa!

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A apanha concluiu-se sob os carvalhos do Cortinhal

Já a tarde ia adiantada quando se deu a colheita por terminada e se passou a um trabalho diferente, para diversificar: na zona da Chousa (a jusante do Feridouro), descascaram-se e arrancaram-se mimosas em torno do ribeiro. Esta zona é preciosa, mas encontrava-se muito invadida de grandes mimosas (que foram entretanto removidas), sendo agora necessário não deixar crescer muito as imensas plantas que, talvez mais originadas por rebentamento de raízes do que por germinação de sementes, vão aparecendo e crescendo rapidamente. Nalguns casos tiveram que se fazer equipas de dois, três, ou mesmo quatro voluntários para arrancar algumas mimosas mais agarradas. Foi um bom exercício, onde se esgotaram as energias do dia.

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Na Chousa descascaram-se e arrancaram-se mimosas

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O leito, aqui seco, do ribeiro, com as mimosas arrancadas das margens

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O trabalho de equipa foi essencial para o arranque de algumas mimosas

Quanto às bolotas e castanhas apanhadas, estima-se em 100 kg a quantidade recolhida. Estas sementes foram depois seleccionadas, limpas e colocadas numa câmara frigorífica para manterem boa capacidade germinativa até ao momento de poderem ser semeadas. Com o tempo quente e seco que tem estado, as bolotas perdem rapidamente a capacidade germinativa se não forem guardadas num ambiente de elevada humidade. Por outro lado, a baixa temperatura da câmara atrasa a germinação, garantindo que, ainda que sejam semeadas só em Novembro ou Dezembro, se encontram em boas condições. No entanto também não devemos atrasar demasiado a sementeira pois quanto mais tarde, maior é a pressão predatória. Novembro, será o mês mais próprio.

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O resultado da apanha

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A equipa voluntária da jornada

Obrigado a todos os voluntários. As jornadas de Outono continuam já no próximo Sábado!

Paulo Domingues

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Incêndio de 28 de Abril: balanço (quase) final

Quase dois meses depois, é tempo de fazer um balanço das consequências do incêndio de 28 de Abril e olhar para uma série de eventos que dele resultaram.

Em primeiro lugar é devido um agradecimento a todos aqueles que de alguma forma quiseram manifestar o seu apoio, por palavras ou acções: quem comentou no artigo então escrito, quem telefonou, quem escreveu mensagens, quem disponibilizou recursos.

Um dos aspectos singulares que marcou este incêndio foi a particular atenção mediática que lhe foi concedida, por certo também relacionada com o facto de ele ter ocorrido num momento invulgar do ano. No próprio dia aconteceram as coberturas da SIC (http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-04-28-Rajadas-de-vento-dificultaram-combate-as-chamas-em-Agueda) e da TVI (http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/fogo-florestal/bombeiros-dao-como-dominado-incendio-em-agueda). Da primeira há a destacar a curiosa referência ao corredor ecológico que o Projecto Cabeço Santo está a criar ao longo do ribeiro, e que assim ganhou uma inesperada exposição. Ainda do dia do incêndio há esta peculiar reportagem (http://portocanal.sapo.pt/noticia/120927/), onde há a destacar dois aspectos: o suposto anúncio de que este ano muito iria arder nesta região, também afirmado por um algo anedótico escrito no Facebook, e o lapso do Vereador Jorge Almeida, por certo mal informado quanto à extensão dos danos causados ao projecto. O primeiro aspecto parece ter sido assumido pelas pessoas da freguesia como uma ameaça real, com risco de se materializar onde ainda não ardeu em 2013, 2016 e 2017. Quanto às razões para uma tal ameaça, ninguém as parece conhecer. [Hoje mesmo, 18 de Junho, quando todas as atenções estão voltadas para a tragédia de Pedrógão Grande, novo acendimento nocturno se produziu em Belazaima, felizmente sem grandes consequências].

Também referência a um artigo saído no jornal Público (https://www.publico.pt/2017/05/02/local/noticia/incendio-de-agueda-afectou-significativamente-projecto-do-cabeco-santo-1770740), segundo uma notícia veiculada pela Agência Lusa, e com claras incorrecções, concretamente no que toca aos motivos para não se terem realizado as limpezas de material combustível. Poucas horas depois de ter saído a notícia propus uma correcção da mesma, apresentando-me como responsável pelo projecto e deixando um contacto telefónico. Mas nada, o Público preferiu ignorar e desinformar os seus leitores. De passagem, o entrevistado visado e presidente da Direcção do Núcleo Regional de Aveiro garantiu-me que não disse aquilo e que o jornalista foi tendencioso… E se assim foi, mais do que tendencioso: deturpador!

Ainda no que toca a reflexos mediáticos do incêndio, há a destacar a reportagem especial realizada pela SIC, já em jeito de reflexão (http://sicnoticias.sapo.pt/programas/reportagemespecial/2017-06-12-A-prova-de-fogo-1).

Entre as ofertas de apoio mais explícitas há que referir as dos grupos congéneres Movimento Gaio e Associação Montis, mas particularmente esta última e do seu responsável, Henrique Pereira dos Santos, de cuja pena saíu o artigo http://montisacn.blogspot.pt/2017/05/aprender-em-conjunto.html. Embora sabendo bem que o uso de fogo controlado é sempre uma opção discutível (ver por exemplo http://blogueiros.axena.org/2013/09/06/incendios/) uma perspectiva a posteriori dos acontecimentos de Belazaima leva-nos de facto a concluir que, se não integralmente, pelo menos um fogo controlado parcial teria sido uma opção sensata.

Também em resultado das manifestações de apoio recebidas, os dois colaboradores da Montis estiveram um dia inteiro no Cabeço Santo realizando trabalhos de engenharia natural de contenção da erosão numa área ribeirinha muito declivosa da mata da Altri Florestal. Aproveitamos para a agradecer à Montis esta contribuição! As fotos desse dia, 31 de Maio, são da Sara.

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Perspectiva da área sob intervenção

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Aqui, onde o fogo foi detido, cortaram-se árvores queimadas e usaram-se os ramos para criar barreiras contra a erosão

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Ao longo da encosta, havia varas de eucaliptos, que tinham sido recentemente cortados, e que foram usadas para as barreiras anti-erosão

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Outra perspectiva

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Barreira de pedras em saco de nylon

Quanto às consequências para as árvores e arbustos plantados este ano, criou-se inicialmente uma certa expectativa quanto à possibilidade de muitos deles rebentarem. No entanto pode-se já afirmar que não foi assim: a grande maioria não rebentou e terão de ser replantados na próxima época, aproveitando os mesmos locais e a fertilização e mobilização do solo já realizadas. De facto, ainda antes da plantação, e usufruindo do facto de se esperar uma grande produção de bolota de carvalho-roble este ano, deverão realizar-se sementeiras ao longo dos mais de 12 ha que estarão disponíveis para se iniciar ou retomar a recuperação a partir deste ano.

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Perspectiva do Vale de Barrocas, já “manchado” de verde

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Uma das pouquíssimas excepções: um carvalho plantado este ano em rebentação

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Os carvalhos estabelecidos, encontram-se, em geral, a rebentar em força

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Um tubo deformado, e lá dentro…

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… um carvalho a rebentar!

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Pequeno carvalho a rebentar

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Os carvalhos que existiam no coração do vale perderam completamente a parte aérea. Mas já têm um palmo de rebentação na sua base.

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As partes aéreas queimadas já começaram a ser cortadas

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As árvores plantadas há alguns anos que ainda tinham tubos de protecção estão a ter dificuldade em rebentar: uma lição!

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Alerta! Vêm aí as mimosas! Mais um trabalho para daqui a umas semanas: arrancar mimosas de origem seminal.

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Os eucaliptos das Costas do Rio / Pé Torto, serão agora cortados. São mais 7,5 ha a juntar à área de intervenção!

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O estado da zona ribeirinha é assustador… Mas, uma coisa de cada vez.

Entretanto, a jornada prevista para 17 de Junho, a última da Primavera de 2017, foi adiada por previsão de temperaturas elevadas, que tornam qualquer trabalho de campo durante o dia extremamente desgastante. Adiou-se para o Sábado seguinte, tornando-se assim a primeira jornada de Verão. No calendário, claro, porque no terreno já é Verão há muito tempo. O anúncio das Jornadas Voluntárias de Verão virá já a seguir. Oxalá seja mais sereno que a Primavera que o precedeu…

Paulo Domingues

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