Posts tagged eucaliptos

Jornada voluntária especial

No dia 18 de Novembro tivemos mais uma jornada voluntária, desta vez não prevista no calendário, motivada pela disponibilidade de um grupo de estudantes da Universidade de Aveiro, mais precisamente do Núcleo de Estudantes de Engenharia do Ambiente da Associação Académica da Universidade de Aveiro. A este grupo se juntaram outros voluntários não universitários que já tinham manifestado interesse em comparecer. Assim se constituiu mais um numeroso grupo de voluntários que se deslocou até ao Vale de Barrocas para continuar os trabalhos da jornada anterior.

Como anteriormente, o grupo dividiu-se em dois, ficando um com o trabalho de cortar rebentos de eucalipto e outro com o trabalho de semear bolotas e castanhas.

O grupo da sementeira passou a manhã nas cotas mais baixas da encosta, junto ao Ribeiro. Não foi um trabalho fácil, devido ao declive e às ramadas de eucalipto deixadas espalhadas pelo terreno, após o corte dos eucaliptos queimados que aqui estavam. O grupo dos rebentos andou numa cota mais elevada, em torno do braço principal do vale.

8

Corte de rebentação, junto a um barranco artificial para aproveitamento de uma nascente

DSC_2105

Carvalho tenaz plantado no princípio do ano, que conseguiu rebentar após o fogo de 28 de Abril

DSC_2115

Voluntária em acção nos rebentos

DSC_2118

Voluntária semeadora

a

Voluntário guardião

DSC_2120

Vista geral dos trabalhos de sementeira

DSC_2129

Perspectiva da área semeada de manhã

À tarde a equipa de sementeira, tendo concluído os trabalhos mais abaixo, subiu também a encosta para semear acima do antigo caminho para Belazaima-a-Velha. Os trabalhos avançaram com bastante dinâmica, e, já a tarde ia adiantada, pareceu que, se todos dessem uma contribuição nos rebentos, se conseguia concluir o trabalho neste local. Então, mesmo sem machados para todos, todo o grupo se dedicou aos rebentos de eucalipto! Não ficou concluído, mas também já falta muito pouco! A foto de despedida tirou-se logo ali, que o sol já tinha desaparecido atrás da encosta.

102

Perspectiva do almoço

DSC_2140

O vale de Barrocas e o antigo caminho para Belazaima-a-Velha

23757560_1439059556213295_1311007004_o

O Vale de Barrocas com o Cabeço Santo em segundo plano

DSC_2143

Pelo final do dia, toda a equipa se dedicou aos rebentos de eucalipto

DSC_2149

O grupo, já incompleto, no final do dia

Obrigado a todos os voluntários. Algumas fotos são do Daniel Graça e outras da Maria Cruz.

As jornadas voluntárias voltam já no próximo Sábado! Em comemoração do Dia da Floresta Autóctone! Bem, de facto comemoramo-lo muitos dias ao longo do ano!

Paulo Domingues

Anúncios

Comments (1) »

Começaram as sementeiras!

Esta foi já a 4ª jornada de Outono! Um Outono quase sem chuva, como não se viu por aqui nas últimas décadas, mas isso é algo que não podemos alterar. O que podemos, sim, alterar, é o que fazemos para ajudar a Terra a recuperar do estado enfermo em que a colocámos, e que parece continuar a agravar-se (Artigo no Público). Foi o que fizeram 24 voluntários nesta jornada em que se iniciou a sério a temporada de sementeira e plantação de árvores. Para já começámos com a sementeira.

IMG_0832

Bolota pronta a enterrar

Os trabalhos decorreram no Vale de Barrocas, que tem sido o alvo principal das atenções. A equipa foi dividida ao meio: um grupo foi cortar rebentação de eucalipto e outro foi semear bolotas de carvalho-roble.

O corte da rebentação foi o trabalho mais exigente fisicamente, dado o tamanho dos rebentos e o acidentado do terreno. Foi a continuação do trabalho da última jornada e que na parcela em início de intervenção praticamente se concluiu.

DSC_2087

Corte da rebentação de eucalipto

DSC_2082

Perspectiva da área já trabalhada na jornada anterior

IMG_0982

À tarde, os trabalhos de corte da rebentação continuaram na parcela mais antiga, onde os rebentos já são mais raros

A sementeira da bolota foi um trabalho mais delicado e reflexivo, durante o qual os voluntários não apenas tinham de colocar bolotas no terreno, mas tentar perceber qual o melhor sítio para semear cada bolota, numa distribuição aleatória mas uniforme pelo terreno, sem excessos nem faltas, mesmo que apenas 15 ou 20% das bolotas semeadas dêem origem a árvores!

DSC_2081

A semear bolota. Em segundo plano mancha ribeirinha de carvalhal e corredor ecológico plantado em 2015/16

IMG_0867

A mesma cena vista por outro fotógrafo!

IMG_0878

Rebentação de carvalho-roble, após o fogo

IMG_0941

Muito serenas, mas ainda correm, as águas do ribeiro

Pelo final do dia mais de 40 kg de bolotas tinham sido semeadas. Como cada bolota tem, em média 7g de peso, isto significa que cerca de 5700 bolotas foram semeadas! Se 20% delas vingarem, mais de 1000 árvores surgirão! Este é um balanço para dentro de alguns anos, mas, para já, foi um bom trabalho!

IMG_1011

Alguns dos voluntários presentes. Outros não puderam ficar para a foto final.

Obrigado a todos os voluntários! E ao Pedro Cruz pelo trabalho fotográfico, que pode ser apreciado com mais profusão na página do Cabeço Santo no Facebook.

As sementeiras vão continuar, e o corte de rebentos de eucalipto também! Voltem sempre!

Paulo Domingues

Comments (1) »

3ª Jornada de Outono

Muito participada, a jornada de 28 de Outubro foi dedicada ao controlo de plantas “indesejáveis”: mimosas e eucaliptos. No que toca aos últimos, decorreu na área do Vale de Barrocas, onde ainda impera o verde-glauco da rebentação de eucalipto, após o incêndio de 28 de Abril, mas onde também já florescem pequenas plantas surgidas após esse evento. Do antigo caminho para Belazaima-a-Velha tem-se agora uma perspectiva privilegiada sobre a encosta ribeirinha a norte do ribeiro, plantada na época de 2015/16, e que foi escassamente atingida pelo incêndio.

22851952_1666278780089429_4845228599270360246_n

Uma carapaça (Erica ciliaris) em flor sobre terreno ainda negro

IMG_9063

Com o Cabeço Santo em fundo, os voluntários observam o corredor ecológico ribeirinho, lá em baixo, do outro lado do ribeiro

No que toca às mimosas, a área de trabalho foi mais a montante, na zona da Ribeira do Tojo, em pleno corredor ecológico ribeirinho.

Quanto aos eucaliptos, os voluntários cortaram com machados rebentação numa nova parcela de intervenção no Vale de Barrocas. A parcela em questão é enquadrada por um pequeno vale, mas onde mesmo assim existe uma nascente que alimenta uma casa da aldeia do Feridouro. Por isso, pelo menos no entorno deste vale, é importante desvitalizar as toiças de eucalipto de forma o mais “suave” possível, e esta traduz-se no corte repetido da rebentação. Este foi o primeiro corte. Logo veremos quantos são necessários. Como tudo, também esta operação tem os seus detalhes: os voluntários observaram atentamente e depois… mãos à obra!

IMG_9069

A paisagem ainda dominada pela rebentação dos eucaliptos

IMG_9065

Momento de “formação”

Dado o elevado número de voluntários, o grupo dividiu-se em dois e, enquanto um dos grupos se dedicou aos eucaliptos, outro dedicou-se às mimosas. Aqui a técnica aplicada foi o descasque. Os dois grupos rodaram durante o dia, para diversificar experiências.

IMG_9294

Pelo meio do dia, não faltaram as delícias gastronómicas da Ana Teresa

IMG_9099

Uma mimosa sob o céu

Faltou a foto de despedida…para variar.

IMG_9303

Na falta da foto de despedida, uma perspectiva dos voluntários no caminho para Belazaima-a-Velha

Os trabalhos deste dia deverão continuar durante o Outono, sobretudo o corte da rebentação de eucalipto, e desenvolver-se em simultâneo com a importante operação que se iniciará já a partir da próxima jornada: a sementeira de bolotas! Por isso, seria muito útil continuar a contar com um generoso número de voluntários como aconteceu nesta jornada. Aqui fica o repto, já para dia 11 de Novembro!

Obrigado a todos os voluntários, e em particular aos vários fotógrafos.

Paulo Domingues

Comments (1) »

1ª Jornada de Verão

Realizou-se no dia 1 de Julho a primeira jornada voluntária do Verão de 2017. Participada por voluntários de quase meio país, a maior parte deles estreantes, contou com um dia fresco e agradável, nem parecendo dar as boas vindas ao mês mais quente do ano.

Os trabalhos decorreram numa área da Benfeita onde se tinham plantado árvores no último Inverno e onde o fogo chegou a tocar no dia 28 de Abril, embora sem fazer grandes estragos. Aqui a rebentação das antigas toiças de eucalipto tem-se realizado por persistente intervenção de corte e de facto muitas “compreenderam” que o seu tempo já terminou, mas outras ainda continuam a insistir. Por isso os trabalhos deste dia consistiram essencialmente no corte de rebentação com machados. Ainda houve também uma pequena intervenção numa mancha complicada de Acacia melanoxylon que aí existe, mas a densidade das plantas é tão grande que parece exigir outro tipo de intervenção.

DSC_0001

Embora fosse eucaliptal, já por aqui existiam outras espécies, sobretudo sobreiros, carvalhos e medronheiros

DSC_0007

Foi um trabalho de machados na mão

DSC_0015

A rebentação de eucalipto já não era muito densa

Depois do almoço a equipa fez uma interrupção um pouco mais prolongada para efectuar uma “visita de estudo” à área florestal da Quinta das Tílias afectada pelo incêndio. Observaram-se árvores mais e menos danificadas e discutiram-se as causas para os danos maiores e o que haverá a fazer para os minorar no futuro. Aqui havia manchas de matagal, embora não sob a copa das árvores. Contudo, o vento fez as chamas e o calor deslocarem-se lateralmente atingindo copas a 3 ou 4 metros dessas manchas. Conclui-se que não pode haver manchas de matagal crescido mesmo a essas distâncias das copas, o que por sua vez requer uma maior densidade de plantação, para, tão cedo quanto possível, limitar o crescimento dessas manchas. Verificou-se também como os fetos secos do ano anterior podem causar grandes danos às copas das árvores, mesmo já relativamente crescidas.

IMG_8840

Visita à área afectada pelo incêndio

IMG_8842

À esquerda, um pequeno sobreiro, mas já com a copa praticamente recuperada. Os carvalhos, é certo, são, com este tamanho, mais vulneráveis

Depois da visita, os voluntários voltaram ao trabalho na Benfeita, conseguindo concluir o trabalho na rebentação de eucalipto antes do final do dia. Tiveram também oportunidade de constatar o bom crescimento das árvores plantadas este ano.

IMG_8864

De volta à rebentação de eucalipto, na zona onde o fogo foi detido

IMG_8873

Só ficaram rebentos maiores, que serão cortados mais tarde com motoserra

19679723_484180995258841_128364520_n

Um céu de fim de tarde, sob o alvo das atenções deste dia!

DSC_1613

A equipa do dia, já na base de operações

Foi um dia produtivo e instrutivo. Obrigado aos voluntários, em particular aos novos e vindos de longe! As fotos são da Esmeralda, da Filipa e do Pedro.

Continuamos já no terceiro Sábado de Julho! Até já.

Paulo Domingues

Comments (1) »

28 de Abril de 2017: um olhar

Uma combinação de factores, quase todos no mesmo sentido, deram origem aos tristes eventos que se iniciaram no dia 28 de Abril ao início da madrugada: um mês de Abril sem chuva, e com vários episódios de temperaturas muito elevadas, acompanhados de vento de leste seco e por vezes forte, com predominância noctura; duas noites consecutivas de vento de nordeste forte, a de 27 e a de 28; uma paisagem vulnerável, uniformizada até ao limite; a vontade de causar dano, materializada no atear do fogo, pouco depois da meia noite de 28 de Abril, um momento seleccionado para que o dano fosse o maior possível, e as hipóteses de reacção o mais demoradas e difíceis possível. Apenas um factor em sentido contrário: as temperaturas eram baixas, a mínima dessa noite terá estado entre 6 e 8 ºC, o que pode ter evitado danos maiores em muitas das árvores atingidas, mesmo eucaliptos, mas que não foi suficiente para evitar que as consequências deste incêndio fossem grandes.

Com grande probabilidade, o fogo foi ateado no coração do Vale de Barrocas, ou na sua proximidade, e terá sido a área onde este ano foram plantadas mais de 1500 árvores pelos voluntários do Projecto Cabeço Santo, uma das primeiras a ser atingida. Sabíamos que o local era vulnerável. Os eucaliptos previamente existentes tinham sido cortados e muita ramada tinha ficado espalhada pelo chão. As próprias plantas do matagal, amassadas pela queda das árvores, estavam parcialmente secas. Num momento, terá chegado a aflorar a ideia de reduzir toda essa massa combustível por meio de um fogo controlado antes da plantação, como aliás já outras vezes se tinha feito no Cabeço Santo. Mas a emergência espontânea de muitas plantas com valor para a regeneração, mais algumas, essencialmente carvalhos, que tinham conseguido escapar à queda dos eucaliptos, fez afastar essa ideia e os trabalhos avançaram sem ela.

Tão rápido terá sido o fogo a subir o Cabeço do Meio, que, quando os alarmes soaram, pela 1 da madrugada, já as chamas eram visíveis em Belazaima, no alto do cabeço. Ajudadas pelo vento que soprou forte durante toda a noite, o fogo desceu a encosta em direcção a Belazaima e às Póvoas, enquanto se espalhava também por toda a encosta a sul do ribeiro, desde a represa de Belazaima até à Ribeira do Tojo, já perto de Belazaima-a-Velha, passando pelo Feridouro. Com o nascer do sol, o vento acalmou, e os meios de combate intensificaram-se, por terra e pelo ar, mas as chamas já estavam muito dispersas, e só ao fim da tarde desse dia o incêndio foi extinto. Mas ainda durante a tarde esteve ameaçada a área da Benfeita, já junto a Belazaima, onde as primeiras plantações da época tinham sido realizadas. Chegaram a perder-se aqui algumas árvores, mas conseguiu evitar-se o pior.

DSC_1310

Pelas 3:30h o fogo já estava a escassas centenas de metros de Belazaima, vindo de sul, como em 2005

O balanço deste acontecimento começou a fazer-se no próprio dia, com uma visita aos locais atingidos. Para os trabalhos do Projecto, a principal perda foram os cerca de 4 ha do Vale de Barrocas onde este ano se tinham realizado plantações. Há uma certa probabilidade de algumas das plantas rebentarem e recuperarem a parte aérea, mas para confirmar isso é preciso esperar. Arderam também os 7,5 ha da propriedade das Costas do Rio, logo ao lado, ainda com eucaliptos, que iriam ser cortados este ano para que esta área com 1 km de margens do ribeiro pudesse, pelo menos parcialmente, ser adicionada à área de intervenção do projecto. Mais para montante, o incêndio atingiu o corredor ribeirinho da Ribeira do Tojo, e aqui, justiça lhe seja feita, cumpriu uma das suas funções, não obstante os poucos anos que ainda tem: o fogo ainda o atingiu ao longo do caminho mas nem num metro conseguiu atravessar o ribeiro, não obstante a presença dos fetos secos do ano anterior, que noutros locais foram “pasto” suficiente para as chamas avançarem. Já mais para jusante, no eucaliptal das Costas do Rio, o fogo atravessou o ribeiro e ainda queimou várias centenas de metros do corredor ribeirinho na Mata da Altri Florestal, incluindo parte da área de confluência dos vales nºs 3, 4 e 5, mas os responsáveis da empresa, aliás logo presentes no local com os seus meios, puderam respirar de alívio: foram poucos os eucaliptos ardidos.

DSC_1333

A área do Vale de Barrocas foi totalmente atingida

DSC_1330

O “coração” do Vale de Barrocas, ainda fumegante

DSC_1335

O Jorge Morais inspecciona a área, com o Cabeço Santo (escassamente atingido) em fundo

DSC_1343

Vista do caminho para Belazaima-a-Velha

DSC_1363

As estacas que tinham sido colocadas para assinalar as plantas introduzidas

DSC_1342

O “herói” do dia foi o corredor ecológico da Ribeira do Tojo: atingido em quase toda a sua extensão, não deixou passar o fogo para norte do ribeiro!

DSC_1358

Na mata da Altri Florestal foi atingido o corredor ribeirinho, mais vulnerável do que na Ribeira do Tojo, por ter menos condições para a implantação das folhosas

DSC_1351

No Chão do Linho, onde o Vale de Barrocas encontra o Ribeiro, e não longe do local onde o fogo terá sido ateado, as folhosas foram pouco afectadas

Do lado norte do ribeiro ardeu ainda uma pequena faixa do corredor ribeirinho a jusante dos portões da mata, que tínhamos plantado no ano passado, mas sem grandes perdas. O fogo atravessou a estreita faixa de carvalhos aqui existente, sem praticamente lhes causar dano, para depois progredir pela encosta, já com mais material combustível.

DSC_1370

Esta estreita faixa de carvalhos deixou passar o fogo para norte do ribeiro, mas as árvores foram pouco afectadas

DSC_1349

Os tubos de protecção derreteram sobre as árvores.

Da “minha” Quinta das Tílias (e desculpem falar dela aqui, que não faz propriamente parte do projecto) arderam os 8 ha da área florestal de proximidade da Quinta, onde desde 2006 fazia trabalhos de reconversão. Destes, talvez menos de metade era carvalhal. O fogo progrediu através dos fetos secos e a maior parte das árvores perdeu todas as folhas, mas a expectativa de recuperação das partes aéreas é grande. O tempo o dirá.

DSC_1329

Carvalhos da Quinta das Tílias, parcialmente atingidos. Mas outros foram mais.

DSC_1376

Mais para jusante, nos Borralhais, só a parte inferior das copas foi atingida, apesar de o fogo ter “batido” cada m2. Chave: pouco material combustível no solo.

DSC_1375

Uma curiosidade: este campo de aveia, completamente cercado pelo fogo, sobreviveu incólume!

Para concluir a ronda, constatámos que 4 das 6 colmeias que faziam parte do apiário do Cabeço Santo tinham sido roubadas. Não queimadas mas roubadas. Ficou apenas uma Lusitana e a Top Bar, que podia ser facilmente identificada noutro local. Animador não é?

Que lições retirar deste evento?

Em relação ao trabalho no terreno, talvez a mais importante seja a de que temos de colocar mais atenção na redução do material combustível, o que no caso do Vale de Barrocas só teria sido possível de forma efectiva com a realização de uma queimada controlada previamente à plantação. Mesmo os fetos secos, que ocorrem todos os anos no final do Outono (onde crescem), deveriam ser triturados com moto-roçadora, pelo menos parcialmente, pois foram o principal factor de dano para os carvalhos. Nos limites exteriores das áreas de intervenção deveriam criar-se corredores onde o controle de materiais combustíveis fosse mais estrito. Claro, tudo isto tem custos de mão de obra elevados. Adicionada a esta redução da vulnerabilidade, seria importante ter mais duas coisas: capacidade para fazer vigilância nocturna, pelo menos nas noites mais susceptíveis, que, em condições normais, não são assim tantas por ano, e capacidade para, detectada uma ameaça, dirigir uma intervenção rápida sobre os acendimentos. Talvez no futuro tenhamos condições para o fazer.

Este é, naturalmente, um momento em que, de forma particularmente intensa, percebemos a enormidade da tarefa que temos em mãos, confrontada com uma indiferença, que pode chegar à hostilidade, de idêntica dimensão. Não podemos dizer com segurança que este acto teve deliberadamente o objectivo de atingir o projecto e os seus objectivos, mas há alguns indícios que apontam nesse sentido, pois contabilizo, com este, cinco incidentes do género nos últimos anos, quatro dos quais resultaram em fogo ateado em áreas de recuperação ecológica, embora a extensão dos danos tenha sido consideravelmente menor do que agora. É verdade que também houve acendimentos noutros locais, e não pretendo levantar nem viver à sombra do fantasma do “eterno inimigo”, que afinal não será mais do que “doente”, numa sociedade e num tempo tão propensos a alimentar os mais doentios desvios.

Essa sensação, da enorme discrepância entre o que é necessário fazer e o que há condições, materiais e humanas, para fazer, parece ser de facto uma característica da nossa época. Ainda há dias lia no El País, segundo Zygmunt Bauman: “Há uma crescente brecha aberta entre o que é necessário fazer e o que se pode fazer, o que importa realmente e o que conta para quem tem o poder de fazer, entre o que acontece e o que seria desejável acontecer” (http://cultura.elpais.com/cultura/2017/04/17/actualidad/1492423945_605390.html). Fico confortado com o encontro de entendimentos, mas o que fazer com ele? O que fazer com a ideia de se poder trabalhar 10, 20 anos, quiçá uma vida inteira com um objectivo, tão grande que se consegue realizar apenas numa ínfima parte, e que no final desses 10, 20 anos, quiçá no final dessa vida inteira, essa ínfima parte possa ser alvo de um destrutivo acto anónimo que demora um segundo a ser desencadeado? Não posso responder a esta questão, embora acredite que ela só tem uma resposta pela positiva procurando olhar para o “problema” de uma perspectiva mais larga do que aquela que nos é imediatamente acessível, através dos sentidos, do conhecimento técnico, da informação. Uma perspectiva de onde se colha energia, ânimo e determinação, mesmo quando os factos parecem convidar ao desânimo, ao esgotamento e à desistência. E existe uma tal perspectiva? É um grande desafio encontrá-la mas necessitamos dela desesperadamente. Mesmo que não a tenhamos muito clara, não podemos esperar pela claridade plena para tentarmos desenterrar essas energias que a acção requer. Por isso, sim: apesar de todas as contrariedades, de as invasoras serem um desafio gigante para as nossas capacidades, de os solos estarem desprovidos e fragilizados, de as alterações climáticas poderem alterar as “regras do jogo a meio”, de todas as dificuldades da natureza humana, apesar de tudo isso e ainda mais, voltaremos ao Cabeço Santo, ao negro Vale de Barrocas, com as mesmas ilusões da primeira vez, mas… com a vantagem de agora termos mais experiência. Faremos a visita prevista para dia 20 de Maio, procurando colocar as coisas belas e as feias nos lugares certos do nosso entendimento, e faremos o CTC que tínhamos previsto para este fim de semana numa outra data que consigamos encontrar. (O CTC não foi contudo cancelado por causa do fogo, mas por causa da chuva, que, atrasada, acabou por vir este Domingo de madrugada). Antes de tudo isso, estaremos na Expo-florestal, em Albergaria.

E vós, voluntários, que tão dedicadamente contribuíram para o trabalho deste ano, agora parcialmente destruído, como se sentem? Com que vontade para voltar? Expressem-se, se quiserem, nesta página, mas sem raiva nem ressentimento, que isso leva muitas energias e precisamos delas para tudo o resto! Até breve!

Paulo Domingues

Comments (11) »

Jornada do Vale de São Francisco

Ainda a tempo, eis a reportagem da jornada voluntária de Sábado passado.

Foi uma jornada muito participada, e com um número significativo de “caloiros”. Não foi por isso, contudo  (porque entre nós os novos têm sempre um especial acolhimento) que neste dia optámos por uma jornada de plantação de árvores e arbustos num dos sítios mais difíceis que podíamos escolher: o Vale de São Francisco.

Esta propriedade de cerca de 3 ha é uma adição recente à área de intervenção do projecto e inclui uma extensão de cerca de 400 metros deste vale que desce do Cabeço Santo até desaguar no ribeiro junto ao Feridouro, passando, lá mais acima, pelo terreno que a Quercus aqui adquiriu em 2006.

É a nossa oportunidade para recuperar um vale com várias escarpas, às quais a água confere o seu especial encanto quando corre com abundância. No entanto, como quase cada recanto desta região, encontra-se num avançado estado de degradação devido ao excessivo aproveitamento para o cultivo de eucalipto e à ocupação por mimosas. Esse estado agravou-se bastante após o incêndio de 2005, quando densas manchas de eucaliptos de origem seminal se implantaram, chegando até agora como formações de eucaliptos quase impenetráveis, ainda que, nesses condições, não pudessem ter crescido muito.

dsc_0883

O Vale de S. Francisco encontra-se num estado limite de degradação

Após o corte inicial dos eucaliptos (para venda) procedeu-se à remoção das mimosas e dos eucaliptos que não tinham aproveitamento e que ocupavam o vale e as zonas mais inacessíveis. Muita dessa lenha e ramada foi retirada, mas muita não o foi por dificuldades várias, a principal das quais o acesso difícil. Seguiu-se a dolorosa mas necessária pulverização com herbicida para eliminar toda a rebentação (de mimosas e eucaliptos) que ocorreu depois dos cortes, e finalmente, quase dois anos após o corte inicial dos eucaliptos, o terreno ficou disponível para os trabalhos de plantação. O seu aspecto não é animador: quem neste dia olhasse com atenção o cenário, ao mesmo tempo grandioso e caótico, belo e horrível, que se mostrava diante de si, não podia deixar de se perguntar: como deixámos a terra neste estado? Como foi possível que, colectivamente, tivéssemos deixado estragar tanto, para beneficiar tão pouco?

dsc_0903

Vista de parte do terreno a partir de cima, com a área de socalcos em 2º plano

Mas voltemos ao trabalho, que agora é o que podemos fazer para reverter os erros passados: com elevados declives, lenha depositada, parte do terreno armado em socalcos há 10 anos e afloramentos rochosos extensos, não se esperava que o trabalho fosse fácil, e assim aconteceu: embora na zona dos socalcos, que trabalhámos de manhã, o solo não estivesse muito compactado, a abundância de pedra solta tornava às vezes quase impossível abrir uma cova com solo suficiente para plantar uma árvore. Dado os acessos serem poucos e difíceis, todos os materiais e equipamento tiveram de ser deslocados entre socalcos graças a uma escada. Mas, ainda assim, e graças ao número e aplicação dos voluntários, pelo meio dia já a maior parte das árvores tinha sido plantada e foi necessário ir buscar mais! Foram pinheiros, sobreiros, medronheiros, lentiscos e murtas as espécies plantadas. Também alguns carvalhos, poucos, que as condições não eram favoráveis.

dsc_0869

Como sempre, a formação foi atentamente seguida

dsc_0877

Para as deslocações entre socalcos teve que se usar uma escada

O almoço tomou-se em pleno coração do vale, aproveitando o único caminho que o atravessa dentro deste terreno, e usufruindo das suas águas cristalinas, até para beber!

dsc_0894

O almoço fez-se de especialidades vegetarianas a que já nos começamos a habituar…

dsc_0897

Provou-se a água do Vale de São Francisco, junto a uma captação ainda em uso na aldeia do Feridouro

À tarde trabalhou-se acima do caminho, já em zona não sujeita a mobilização de solo anterior, mas com afloramentos rochosos mais extensos. Cada local de plantação tinha de ser procurado com cuidado, em busca dos locais onde o solo se acumulou. Os trabalhos prolongaram-se por toda a tarde e parecia que o inevitável cansaço sempre se conseguia ultrapassar com uma tangerina ou um golo de água do Vale de São Francisco. Ou com a ajuda invisível do Santo, quem sabe? A verdade é que o segundo lote de árvores se plantou por completo, e a contabilidade final deve ter excedido bem as 300 árvores e arbustos plantados. Para as condições em que se realizou, e mesmo não podendo falar de uma perspectiva totalmente imparcial, temos de considerar que foi um facto notável!

dsc_0900

Uma esfarrapada mimosa é, apesar de tudo, o único elemento colorido nesta paisagem!

dsc_0920

À tarde, os trabalhos decorreram numa parte da encosta sem socalcos

dsc_0923

Equipa em acção. Os eucaliptos ainda em pé são plantas de origem seminal, que em breve serão cortados.

dsc_0938

Plantas, ferramentas e braços, a combinação perfeita

dsc_0953

O trabalho mais difícil, mas que teve braços disponíveis por todo o dia!

Obrigado aos voluntários presentes pela sua dádiva e superação!

dsc_0954

Uma das muitas árvores plantadas, um medronheiro

dsc_0958

A fantástica equipa deste dia!

No próximo dia 11 de Março teremos a última jornada de plantação de árvores desta época. Voltaremos ao Vale de Barrocas, para aquela que será também a última jornada regular deste Inverno! Não percam! Até lá.

Paulo Domingues

Comments (2) »

A primeira jornada do ano

A primeira jornada de 2017 realmente realizada aconteceu no dia 21 de Janeiro com a presença de 16 voluntários sem medo dos dias frios que têm vindo. Frios, mas secos, o que, se para as árvores a plantar não é o ideal, para quem se movimenta no terreno é. Assim, pouco depois das 9 horas a equipa deslocava-se já para o local elegido, o Vale de Barrocas, sendo que a maior parte dos voluntários seguiu pelo Feridouro enquanto a carrinha de serviço ia pelo antigo caminho para Belazaima-a-Velha com as plantas e todo o equipamento necessário.

Começou-se, como sempre, com uma pequena formação, pois que é essencial plantar bem as árvores. Depois de termos plantado da última vez acima do caminho, agora avançou-se para baixo, em direcção ao ribeiro. Mas o avanço não se revelou fácil: terreno declivoso, com muito matagal e ramada de eucalipto acima da superfície e pedras e raízes abaixo. Verificou-se assim que esta área era muito mais difícil de trabalhar do que a anterior, também por corresponder ao perfil côncavo da encosta entre os vales adjacentes, já que a coisa melhorou à medida que nos aproximávamos dos vales.

dsc_0602

Para iniciar, as necessárias explicações

dsc_0612

Lá em baixo o vale de Barrocas, ainda com eucaliptos na outra margem

dsc_0617

Voluntários em acção

Como eram muitos voluntários, alguns dedicaram-se a cortar rebentos de eucalipto, outra das tarefas aqui requeridas. Recorde-se que optámos por não usar herbicida neste local fértil em nascentes de água, e também não foi possível destroçar as toiças de eucalipto por meios mecânicos devido ao declive do terreno.

dsc_0622

Alguns voluntários dedicaram-se ao corte de rebentação de eucalipto

dsc_0625

A preparação da cova para a plantação faz-se com todo o cuidado

dsc_0626

O declive elevado, o matagal e a ramada de eucalipto no solo não desanimou os voluntários

O trabalho duro rapidamente aqueceu os corpos e as roupas começaram a acumular-se junto à carrinha quase parecendo que o Verão tinha chegado de repente!

Pelo meio dia havia uma boa notícia já antecipada: para hoje tínhamos comida quente especialmente confeccionada por uma voluntária de cozinha. Foi um prato vegetariano muito apreciado até pelos mais aguerridos carnívoros!

À tarde continuou-se a trabalhar abaixo do antigo caminho principal, e sem dúvida que a abertura de covas em torno dos dois ramos do vale principal, o vale de Barrocas, revelou um solo mais substancial e com menos pedras do que anteriormente.

dsc_0629

Com este declive, era fácil rebolar pela encosta abaixo, e chegou a haver quem o tenha ensaiado!

dsc_0630

Não, não vinha da famosa Universidad de Salamanca, mas vinha de outra quase tão famosa e era uma das três caras novas nestas jornadas

As árvores e arbustos plantados foram: carvalhos, uns poucos castanheiros, azereiros, folhados e medronheiros, estes poucos por estarmos numa encosta voltada a nordeste, menos propícia para esta espécie. Não se fez uma contagem “oficial”, mas um voluntário contou 220 árvores plantadas, o que se conseguiu ainda bem antes do pôr-do-sol.

dsc_0631

Já no final do dia, os voluntários regressaram a pé até ao outro lado do ribeiro, onde estavam os meios de transporte

dsc_0636

Vista sobre o ribeiro, o Chão do Linho, a nova plantação da Altri Florestal (à direita) e a área plantada em 2016 pelos voluntários do projecto, à esquerda

dsc_0637

Vista do Vale de Barrocas, com a área plantada hoje, à esquerda, a área plantada na última jornada, em segundo plano, à direita e duas manchas de eucalipto que deverão ser cortadas ainda em 2017

Mas foi já na base de operações em Belazaima que se tirou a foto de despedida, já com um voluntário em falta, e tendo como companhia as árvores que ainda temos para plantar este Inverno. Isto, claro, para lembrar que as jornadas de plantação continuam em força já no primeiro Sábado de Fevereiro.

dsc_0638

A foto final, já na base de operações

Um obrigado a todos os voluntários, incluindo a voluntária cozinheira! Mais fotos na página do Facebook.

Paulo Domingues

Comments (1) »