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Incêndio de 28 de Abril: balanço (quase) final

Quase dois meses depois, é tempo de fazer um balanço das consequências do incêndio de 28 de Abril e olhar para uma série de eventos que dele resultaram.

Em primeiro lugar é devido um agradecimento a todos aqueles que de alguma forma quiseram manifestar o seu apoio, por palavras ou acções: quem comentou no artigo então escrito, quem telefonou, quem escreveu mensagens, quem disponibilizou recursos.

Um dos aspectos singulares que marcou este incêndio foi a particular atenção mediática que lhe foi concedida, por certo também relacionada com o facto de ele ter ocorrido num momento invulgar do ano. No próprio dia aconteceram as coberturas da SIC (http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-04-28-Rajadas-de-vento-dificultaram-combate-as-chamas-em-Agueda) e da TVI (http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/fogo-florestal/bombeiros-dao-como-dominado-incendio-em-agueda). Da primeira há a destacar a curiosa referência ao corredor ecológico que o Projecto Cabeço Santo está a criar ao longo do ribeiro, e que assim ganhou uma inesperada exposição. Ainda do dia do incêndio há esta peculiar reportagem (http://portocanal.sapo.pt/noticia/120927/), onde há a destacar dois aspectos: o suposto anúncio de que este ano muito iria arder nesta região, também afirmado por um algo anedótico escrito no Facebook, e o lapso do Vereador Jorge Almeida, por certo mal informado quanto à extensão dos danos causados ao projecto. O primeiro aspecto parece ter sido assumido pelas pessoas da freguesia como uma ameaça real, com risco de se materializar onde ainda não ardeu em 2013, 2016 e 2017. Quanto às razões para uma tal ameaça, ninguém as parece conhecer. [Hoje mesmo, 18 de Junho, quando todas as atenções estão voltadas para a tragédia de Pedrógão Grande, novo acendimento nocturno se produziu em Belazaima, felizmente sem grandes consequências].

Também referência a um artigo saído no jornal Público (https://www.publico.pt/2017/05/02/local/noticia/incendio-de-agueda-afectou-significativamente-projecto-do-cabeco-santo-1770740), segundo uma notícia veiculada pela Agência Lusa, e com claras incorrecções, concretamente no que toca aos motivos para não se terem realizado as limpezas de material combustível. Poucas horas depois de ter saído a notícia propus uma correcção da mesma, apresentando-me como responsável pelo projecto e deixando um contacto telefónico. Mas nada, o Público preferiu ignorar e desinformar os seus leitores. De passagem, o entrevistado visado e presidente da Direcção do Núcleo Regional de Aveiro garantiu-me que não disse aquilo e que o jornalista foi tendencioso… E se assim foi, mais do que tendencioso: deturpador!

Ainda no que toca a reflexos mediáticos do incêndio, há a destacar a reportagem especial realizada pela SIC, já em jeito de reflexão (http://sicnoticias.sapo.pt/programas/reportagemespecial/2017-06-12-A-prova-de-fogo-1).

Entre as ofertas de apoio mais explícitas há que referir as dos grupos congéneres Movimento Gaio e Associação Montis, mas particularmente esta última e do seu responsável, Henrique Pereira dos Santos, de cuja pena saíu o artigo http://montisacn.blogspot.pt/2017/05/aprender-em-conjunto.html. Embora sabendo bem que o uso de fogo controlado é sempre uma opção discutível (ver por exemplo http://blogueiros.axena.org/2013/09/06/incendios/) uma perspectiva a posteriori dos acontecimentos de Belazaima leva-nos de facto a concluir que, se não integralmente, pelo menos um fogo controlado parcial teria sido uma opção sensata.

Também em resultado das manifestações de apoio recebidas, os dois colaboradores da Montis estiveram um dia inteiro no Cabeço Santo realizando trabalhos de engenharia natural de contenção da erosão numa área ribeirinha muito declivosa da mata da Altri Florestal. Aproveitamos para a agradecer à Montis esta contribuição! As fotos desse dia, 31 de Maio, são da Sara.

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Perspectiva da área sob intervenção

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Aqui, onde o fogo foi detido, cortaram-se árvores queimadas e usaram-se os ramos para criar barreiras contra a erosão

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Ao longo da encosta, havia varas de eucaliptos, que tinham sido recentemente cortados, e que foram usadas para as barreiras anti-erosão

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Outra perspectiva

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Barreira de pedras em saco de nylon

Quanto às consequências para as árvores e arbustos plantados este ano, criou-se inicialmente uma certa expectativa quanto à possibilidade de muitos deles rebentarem. No entanto pode-se já afirmar que não foi assim: a grande maioria não rebentou e terão de ser replantados na próxima época, aproveitando os mesmos locais e a fertilização e mobilização do solo já realizadas. De facto, ainda antes da plantação, e usufruindo do facto de se esperar uma grande produção de bolota de carvalho-roble este ano, deverão realizar-se sementeiras ao longo dos mais de 12 ha que estarão disponíveis para se iniciar ou retomar a recuperação a partir deste ano.

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Perspectiva do Vale de Barrocas, já “manchado” de verde

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Uma das pouquíssimas excepções: um carvalho plantado este ano em rebentação

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Os carvalhos estabelecidos, encontram-se, em geral, a rebentar em força

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Um tubo deformado, e lá dentro…

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… um carvalho a rebentar!

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Pequeno carvalho a rebentar

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Os carvalhos que existiam no coração do vale perderam completamente a parte aérea. Mas já têm um palmo de rebentação na sua base.

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As partes aéreas queimadas já começaram a ser cortadas

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As árvores plantadas há alguns anos que ainda tinham tubos de protecção estão a ter dificuldade em rebentar: uma lição!

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Alerta! Vêm aí as mimosas! Mais um trabalho para daqui a umas semanas: arrancar mimosas de origem seminal.

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Os eucaliptos das Costas do Rio / Pé Torto, serão agora cortados. São mais 7,5 ha a juntar à área de intervenção!

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O estado da zona ribeirinha é assustador… Mas, uma coisa de cada vez.

Entretanto, a jornada prevista para 17 de Junho, a última da Primavera de 2017, foi adiada por previsão de temperaturas elevadas, que tornam qualquer trabalho de campo durante o dia extremamente desgastante. Adiou-se para o Sábado seguinte, tornando-se assim a primeira jornada de Verão. No calendário, claro, porque no terreno já é Verão há muito tempo. O anúncio das Jornadas Voluntárias de Verão virá já a seguir. Oxalá seja mais sereno que a Primavera que o precedeu…

Paulo Domingues

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Cuidar das árvores

A jornada de 3 de Junho decorreu com um dia fresco e húmido, no qual o sol ficou escondido atrás da neblina matinal até quase ao meio dia. Foi participada por 5 voluntários, que se empenharam na importante acção de cuidar das árvores plantadas nos últimos dois anos, mas principalmente das plantadas em 2016, já que a maior parte das plantadas em 2017 desapareceu no incêndio de 28 de Abril.

O cuidado que as árvores precisam é a remoção de plantas espontâneas que se implantam, por vezes vigorosamente, junto aos pés das árvores plantadas, e a reconstrução, se necessário, das pequenas caldeiras em torno das árvores, para que melhor possam aproveitar a água da chuva.

Os trabalhos iniciaram-se nos antigos socalcos de eucalipto da área conhecida por “Costa”, logo a jusante das terras do Feridouro. Apesar das condições difíceis do solo, a maior parte das árvores encontrava-se com boa vitalidade. Uma surpresa agradável foi a observação de um ninho de águia-de-asa-redonda, ironicamente numa grande mimosa, de onde as duas crias ensaiavam os primeiros voos.

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Os trabalhos iniciaram-se nos socalcos da Costa

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Um lódão-bastardo

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Um medronheiro

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Um carvalho

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Concorrência de uma planta espontânea, aliás exótica e invasora, com um medronheiro

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Trabalho em curso

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Continuação do trabalho

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Quase concluído!

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Um ninho de águia-de-asa-redonda numa mimosa!

Foi-se depois avançando para jusante, para as antigas várzeas da Chousa, antes completamente invadidas por mimosas. Por isso ainda agora, e mesmo depois de já aqui se terem arrancado milhares de jovens plantas de mimosa, estas continuam com abundante presença. Contudo na primeira das várzeas, onde se realizou uma mobilização de solo para arranque dos tocos de mimosa, a terra era agora dominada pelas dedaleiras, uma planta pioneira em solos perturbados. Nesta várzea foi já plantada uma dúzia de espécies de plantas nativas, entre árvores e arbustos. Estavam em geral bastante crescidos, com os carvalhos a serem aqui os mais débeis.

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Numa das várzeas da Chousa

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Um freixo depois de cuidado

Atravessou-se o ribeiro para a parcela a sul do mesmo, onde uma antiga plantação de freixos exóticos ainda chama a atenção. O silvado é que se foi aproveitando da luz deixada pela saída das grandes mimosas que aqui se encontravam e por pouco já era um obstáculo à simples passagem.

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Como habitualmente, não foi só trabalhar!

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Uma bonita borboleta numa flor de batón-azul

Seguiu-se a encosta da Chousa, uma área inclinada e rochosa, onde se tinham plantado sobretudo medronheiros e sobreiros, e onde surgiu uma mancha de plantas pioneiras “não convidadas”: as giestas. Quanto aos medronheiros e aos sobreiros, encontravam-se com muito boa apresentação! Mas a manhã chegava ao fim e não era possível continuar para jusante, até à represa: para a tarde tínhamos planos de trabalho mais para montante.

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Um medronheiro na encosta da Chousa, em companhia de uma gramínea espontânea

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Voluntário cuidando de um sobreiro

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Voluntário arrancando uma mimosa

Depois de um agradável almoço ao som do crepitar das águas do ribeiro, dos cantos das aves (e um especialista a identificá-los!), e depois de uma boa sesta, os trabalhos continuaram, agora no corredor ribeirinho a jusante dos portões da Mata da Altri Florestal, primeiro logo a seguir ao Feridouro e depois dos portões para jusante. Aqui, não obstante a dureza das condições do terreno e a exposição sul, constatou-se que as árvores plantadas em 2016 tinham crescido surpreendentemente bem!

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Trabalhos a seguir ao Feridouro

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Perspectiva do corredor ribeirinho. A sul do ribeiro, o eucaliptal queimado no dia 28 de Abril

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Arranque de mimosas em zona difícil

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Vista geral dos trabalhos e do “corredor ecológico”

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Contrastes!

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Um carvalho de origem seminal

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O que ainda há dois anos era um morro inóspito e nu vai-se tornando mais vivo

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Um medronheiro plantado em 2016

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Agora já junto aos portões da mata, um lódão-bastardo já crescido, mas com muita “concorrência”

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Depois de cuidado!

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Voluntário visivelmente impressionado com o estado de desenvolvimento desta árvore!

E a tarde não iria acabar sem mais uma observação deliciosa: um ninho com crias (o segundo do dia!), muito provavelmente de águia-de-asa-redonda, mas curiosamente numa árvore (desta vez um carvalho!) que tinha sido bastante chamuscada pelo incêndio de 28 de Abril, quando por certo já havia pelo menos ovos em choco.

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Para terminar em beleza: observação de um ninho de águias, agora mais jovens do que as primeiras

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Outra observação animadora: as árvores queimadas em 28 de Abril já rebentam!

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A feliz equipa deste dia

Foi o final de um dia muito produtivo e animador (provavelmente mais de 90% das árvores plantadas encontravam-se vivas e bem de saúde!), quase a fazer esquecer a paisagem queimada que também nos acompanhou ao longo de todo o dia em 2º plano. Voltaremos a ela em força, noutra oportunidade!

Até breve!

Paulo Domingues

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O regresso das jornadas voluntárias

Depois de um inabitual período de pausa das actividades voluntárias no Cabeço Santo, durante o qual muitas coisas aconteceram e outras não aconteceram (como a jornada de visita prevista para o dia 20, que não se chegou a realizar, dado o reduzido número de inscritos), eis que voltamos ao terreno já no próximo Sábado, 3 de Junho, desta vez aproveitando para comemorar antecipadamente o dia dedicado ao ambiente (5 de Junho) e para participar na semana do ambiente e da sustentabilidade, promovida pela Câmara Municipal de Águeda (https://www.cm-agueda.pt/frontoffice/pages/49?event_id=2098). Como é sabido, nós não precisávamos de nenhum desses pretextos para fazer uma jornada de campo, mas se eles contribuírem para atingirmos melhor os objectivos, já terá valido a pena.

E o que vamos fazer no próximo Sábado? Vamos “visitar” cada uma das árvores plantadas tanto no ano anterior como neste e arrancar as plantas espontâneas concorrentes, recuperando as “caldeirinhas” em torno das árvores, se necessário. Usufruindo da fertilização proporcionada às árvores, por vezes estabelecem-se em torno delas plantas muito vigorosas que concorrem por nutrientes e sobretudo por água, que no Verão é sempre escassa. Por isso é importante realizar estas acções neste momento do final da Primavera, constituindo também uma oportunidade para avaliar o sucesso das acções de plantação dos últimos dois anos. Se ainda tivermos tempo, iremos fazer uma visita ao terreno queimado de Vale de Barrocas para avaliar o potencial de rebentação das árvores aí plantadas este ano, agora que passou já mais de um mês sobre o incêndio de 28 de Abril.

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Estabelecem-se por vezes plantas muito vigorosas que concorrem com as árvores plantadas

Eis pois um trabalho fácil e agradável, a realizar com temperaturas ainda Primaveris! Até Sábado!

Paulo Domingues

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28 de Abril de 2017: um olhar

Uma combinação de factores, quase todos no mesmo sentido, deram origem aos tristes eventos que se iniciaram no dia 28 de Abril ao início da madrugada: um mês de Abril sem chuva, e com vários episódios de temperaturas muito elevadas, acompanhados de vento de leste seco e por vezes forte, com predominância noctura; duas noites consecutivas de vento de nordeste forte, a de 27 e a de 28; uma paisagem vulnerável, uniformizada até ao limite; a vontade de causar dano, materializada no atear do fogo, pouco depois da meia noite de 28 de Abril, um momento seleccionado para que o dano fosse o maior possível, e as hipóteses de reacção o mais demoradas e difíceis possível. Apenas um factor em sentido contrário: as temperaturas eram baixas, a mínima dessa noite terá estado entre 6 e 8 ºC, o que pode ter evitado danos maiores em muitas das árvores atingidas, mesmo eucaliptos, mas que não foi suficiente para evitar que as consequências deste incêndio fossem grandes.

Com grande probabilidade, o fogo foi ateado no coração do Vale de Barrocas, ou na sua proximidade, e terá sido a área onde este ano foram plantadas mais de 1500 árvores pelos voluntários do Projecto Cabeço Santo, uma das primeiras a ser atingida. Sabíamos que o local era vulnerável. Os eucaliptos previamente existentes tinham sido cortados e muita ramada tinha ficado espalhada pelo chão. As próprias plantas do matagal, amassadas pela queda das árvores, estavam parcialmente secas. Num momento, terá chegado a aflorar a ideia de reduzir toda essa massa combustível por meio de um fogo controlado antes da plantação, como aliás já outras vezes se tinha feito no Cabeço Santo. Mas a emergência espontânea de muitas plantas com valor para a regeneração, mais algumas, essencialmente carvalhos, que tinham conseguido escapar à queda dos eucaliptos, fez afastar essa ideia e os trabalhos avançaram sem ela.

Tão rápido terá sido o fogo a subir o Cabeço do Meio, que, quando os alarmes soaram, pela 1 da madrugada, já as chamas eram visíveis em Belazaima, no alto do cabeço. Ajudadas pelo vento que soprou forte durante toda a noite, o fogo desceu a encosta em direcção a Belazaima e às Póvoas, enquanto se espalhava também por toda a encosta a sul do ribeiro, desde a represa de Belazaima até à Ribeira do Tojo, já perto de Belazaima-a-Velha, passando pelo Feridouro. Com o nascer do sol, o vento acalmou, e os meios de combate intensificaram-se, por terra e pelo ar, mas as chamas já estavam muito dispersas, e só ao fim da tarde desse dia o incêndio foi extinto. Mas ainda durante a tarde esteve ameaçada a área da Benfeita, já junto a Belazaima, onde as primeiras plantações da época tinham sido realizadas. Chegaram a perder-se aqui algumas árvores, mas conseguiu evitar-se o pior.

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Pelas 3:30h o fogo já estava a escassas centenas de metros de Belazaima, vindo de sul, como em 2005

O balanço deste acontecimento começou a fazer-se no próprio dia, com uma visita aos locais atingidos. Para os trabalhos do Projecto, a principal perda foram os cerca de 4 ha do Vale de Barrocas onde este ano se tinham realizado plantações. Há uma certa probabilidade de algumas das plantas rebentarem e recuperarem a parte aérea, mas para confirmar isso é preciso esperar. Arderam também os 7,5 ha da propriedade das Costas do Rio, logo ao lado, ainda com eucaliptos, que iriam ser cortados este ano para que esta área com 1 km de margens do ribeiro pudesse, pelo menos parcialmente, ser adicionada à área de intervenção do projecto. Mais para montante, o incêndio atingiu o corredor ribeirinho da Ribeira do Tojo, e aqui, justiça lhe seja feita, cumpriu uma das suas funções, não obstante os poucos anos que ainda tem: o fogo ainda o atingiu ao longo do caminho mas nem num metro conseguiu atravessar o ribeiro, não obstante a presença dos fetos secos do ano anterior, que noutros locais foram “pasto” suficiente para as chamas avançarem. Já mais para jusante, no eucaliptal das Costas do Rio, o fogo atravessou o ribeiro e ainda queimou várias centenas de metros do corredor ribeirinho na Mata da Altri Florestal, incluindo parte da área de confluência dos vales nºs 3, 4 e 5, mas os responsáveis da empresa, aliás logo presentes no local com os seus meios, puderam respirar de alívio: foram poucos os eucaliptos ardidos.

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A área do Vale de Barrocas foi totalmente atingida

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O “coração” do Vale de Barrocas, ainda fumegante

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O Jorge Morais inspecciona a área, com o Cabeço Santo (escassamente atingido) em fundo

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Vista do caminho para Belazaima-a-Velha

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As estacas que tinham sido colocadas para assinalar as plantas introduzidas

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O “herói” do dia foi o corredor ecológico da Ribeira do Tojo: atingido em quase toda a sua extensão, não deixou passar o fogo para norte do ribeiro!

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Na mata da Altri Florestal foi atingido o corredor ribeirinho, mais vulnerável do que na Ribeira do Tojo, por ter menos condições para a implantação das folhosas

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No Chão do Linho, onde o Vale de Barrocas encontra o Ribeiro, e não longe do local onde o fogo terá sido ateado, as folhosas foram pouco afectadas

Do lado norte do ribeiro ardeu ainda uma pequena faixa do corredor ribeirinho a jusante dos portões da mata, que tínhamos plantado no ano passado, mas sem grandes perdas. O fogo atravessou a estreita faixa de carvalhos aqui existente, sem praticamente lhes causar dano, para depois progredir pela encosta, já com mais material combustível.

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Esta estreita faixa de carvalhos deixou passar o fogo para norte do ribeiro, mas as árvores foram pouco afectadas

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Os tubos de protecção derreteram sobre as árvores.

Da “minha” Quinta das Tílias (e desculpem falar dela aqui, que não faz propriamente parte do projecto) arderam os 8 ha da área florestal de proximidade da Quinta, onde desde 2006 fazia trabalhos de reconversão. Destes, talvez menos de metade era carvalhal. O fogo progrediu através dos fetos secos e a maior parte das árvores perdeu todas as folhas, mas a expectativa de recuperação das partes aéreas é grande. O tempo o dirá.

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Carvalhos da Quinta das Tílias, parcialmente atingidos. Mas outros foram mais.

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Mais para jusante, nos Borralhais, só a parte inferior das copas foi atingida, apesar de o fogo ter “batido” cada m2. Chave: pouco material combustível no solo.

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Uma curiosidade: este campo de aveia, completamente cercado pelo fogo, sobreviveu incólume!

Para concluir a ronda, constatámos que 4 das 6 colmeias que faziam parte do apiário do Cabeço Santo tinham sido roubadas. Não queimadas mas roubadas. Ficou apenas uma Lusitana e a Top Bar, que podia ser facilmente identificada noutro local. Animador não é?

Que lições retirar deste evento?

Em relação ao trabalho no terreno, talvez a mais importante seja a de que temos de colocar mais atenção na redução do material combustível, o que no caso do Vale de Barrocas só teria sido possível de forma efectiva com a realização de uma queimada controlada previamente à plantação. Mesmo os fetos secos, que ocorrem todos os anos no final do Outono (onde crescem), deveriam ser triturados com moto-roçadora, pelo menos parcialmente, pois foram o principal factor de dano para os carvalhos. Nos limites exteriores das áreas de intervenção deveriam criar-se corredores onde o controle de materiais combustíveis fosse mais estrito. Claro, tudo isto tem custos de mão de obra elevados. Adicionada a esta redução da vulnerabilidade, seria importante ter mais duas coisas: capacidade para fazer vigilância nocturna, pelo menos nas noites mais susceptíveis, que, em condições normais, não são assim tantas por ano, e capacidade para, detectada uma ameaça, dirigir uma intervenção rápida sobre os acendimentos. Talvez no futuro tenhamos condições para o fazer.

Este é, naturalmente, um momento em que, de forma particularmente intensa, percebemos a enormidade da tarefa que temos em mãos, confrontada com uma indiferença, que pode chegar à hostilidade, de idêntica dimensão. Não podemos dizer com segurança que este acto teve deliberadamente o objectivo de atingir o projecto e os seus objectivos, mas há alguns indícios que apontam nesse sentido, pois contabilizo, com este, cinco incidentes do género nos últimos anos, quatro dos quais resultaram em fogo ateado em áreas de recuperação ecológica, embora a extensão dos danos tenha sido consideravelmente menor do que agora. É verdade que também houve acendimentos noutros locais, e não pretendo levantar nem viver à sombra do fantasma do “eterno inimigo”, que afinal não será mais do que “doente”, numa sociedade e num tempo tão propensos a alimentar os mais doentios desvios.

Essa sensação, da enorme discrepância entre o que é necessário fazer e o que há condições, materiais e humanas, para fazer, parece ser de facto uma característica da nossa época. Ainda há dias lia no El País, segundo Zygmunt Bauman: “Há uma crescente brecha aberta entre o que é necessário fazer e o que se pode fazer, o que importa realmente e o que conta para quem tem o poder de fazer, entre o que acontece e o que seria desejável acontecer” (http://cultura.elpais.com/cultura/2017/04/17/actualidad/1492423945_605390.html). Fico confortado com o encontro de entendimentos, mas o que fazer com ele? O que fazer com a ideia de se poder trabalhar 10, 20 anos, quiçá uma vida inteira com um objectivo, tão grande que se consegue realizar apenas numa ínfima parte, e que no final desses 10, 20 anos, quiçá no final dessa vida inteira, essa ínfima parte possa ser alvo de um destrutivo acto anónimo que demora um segundo a ser desencadeado? Não posso responder a esta questão, embora acredite que ela só tem uma resposta pela positiva procurando olhar para o “problema” de uma perspectiva mais larga do que aquela que nos é imediatamente acessível, através dos sentidos, do conhecimento técnico, da informação. Uma perspectiva de onde se colha energia, ânimo e determinação, mesmo quando os factos parecem convidar ao desânimo, ao esgotamento e à desistência. E existe uma tal perspectiva? É um grande desafio encontrá-la mas necessitamos dela desesperadamente. Mesmo que não a tenhamos muito clara, não podemos esperar pela claridade plena para tentarmos desenterrar essas energias que a acção requer. Por isso, sim: apesar de todas as contrariedades, de as invasoras serem um desafio gigante para as nossas capacidades, de os solos estarem desprovidos e fragilizados, de as alterações climáticas poderem alterar as “regras do jogo a meio”, de todas as dificuldades da natureza humana, apesar de tudo isso e ainda mais, voltaremos ao Cabeço Santo, ao negro Vale de Barrocas, com as mesmas ilusões da primeira vez, mas… com a vantagem de agora termos mais experiência. Faremos a visita prevista para dia 20 de Maio, procurando colocar as coisas belas e as feias nos lugares certos do nosso entendimento, e faremos o CTC que tínhamos previsto para este fim de semana numa outra data que consigamos encontrar. (O CTC não foi contudo cancelado por causa do fogo, mas por causa da chuva, que, atrasada, acabou por vir este Domingo de madrugada). Antes de tudo isso, estaremos na Expo-florestal, em Albergaria.

E vós, voluntários, que tão dedicadamente contribuíram para o trabalho deste ano, agora parcialmente destruído, como se sentem? Com que vontade para voltar? Expressem-se, se quiserem, nesta página, mas sem raiva nem ressentimento, que isso leva muitas energias e precisamos delas para tudo o resto! Até breve!

Paulo Domingues

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Agosto

Com Agosto a aproximar-se do final, é tempo de começar a pensar na nova época de trabalhos no Cabeço Santo, que se inicia logo no dia 3 de Setembro com a jornada do 10º aniversário do projecto.

Mas antes de olhar para o futuro, façamos um pequeno balanço da semana de sobressalto que de novo trouxe as chamas até bem perto do Cabeço Santo. A segunda semana de Agosto foi com efeito avassaladora para o Concelho de Águeda, com, ao que tudo indica, mais de 100 km² de área florestal queimada. O eucaliptal da zona serrana foi severamente atingido, sobretudo as freguesias do Préstimo e Macieira de Alcoba e de Belazaima, Castanheira e Agadão. Nesta última, contudo, a área mais afectada foi a da antiga freguesia de Castanheira do Vouga (Agadão já tinha sido fortemente atingida em 2013), sendo que a antiga freguesia de Belazaima foi a que acabou por ser mais poupada. O próprio Cabeço Santo “viu” o fogo aos seus “pés”, pois ardeu até à estrada Belazaima-Agadão, mas aí foi detido e não subiu o cabeço. Já no primeiro dia dessa fatídica semana, em plena tarde de Domingo, um pirómano tinha ateado o fogo em três locais do Cabeço do Meio (a sul do ribeiro de Belazaima), mas a pronta intervenção da unidade local de protecção civil evitou o pior. Mais longe para sul, na zona serrana do Concelho de Anadia, as coisas também estiveram feias, e até em plena gândara do Casarão (em torno da nova área industrial) o fogo progrediu até Aguada de Cima, em terreno aparentemente fácil. O Rio Águeda, desde praticamente o limite do Concelho até quase à cidade de Águeda, ficou de novo num estado de aflitiva condição, apenas 3 anos depois dos grandes incêndios do Caramulo, que já tanto o tinham afectado. Acompanhá-lo ao longo da estrada do Caramulo, desde Carvalhal, nos confins das terras aguedenses, até à Redonda, e depois, pela EN 336, até Bolfiar, é uma verdadeira dor de alma, que só a anestesia colectiva face ao estado da paisagem e da biodiversidade impede que se transforme num grande movimento em prol da sua recuperação. O Rio Agadão, afluente do Águeda, não se encontra melhor, tendo ardido agora o que não ardeu em 2013, pelo menos a jusante das aldeias da antiga freguesia com o mesmo nome.

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Eucaliptal com solo mobilizado: o fogo progrediu pelas copas

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Encosta num afluente do Agadão: solos mobilizados em declives muito acentuados

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O Rio Agadão, entre a Falgarosa e Falgoselhe: sobraram as mimosas

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Margens do Rio Agadão a jusante da ponte de Falgoselhe

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Uma ilha de paraíso no meio do inferno

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Ilha: um pequeno sobreiro de copa verde no meio do queimado

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Um pequeno vale

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O Cabeço Santo, em segundo plano, ficou verde. Glauco, é certo, mas verde

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Servia para combater o fogo, mas ia sendo queimado

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Da cumeada, avista-se uma imensidão ardida, só interrompida por pequenas manchas verdes. A povoação deve ser Serra de Cima na freguesia do Préstimo

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Rio Águeda, “praia” da Talhada

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Plantação recente: por agora, a salvo

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Afluente do rio Águeda: verdes, alguns carvalhos, mas também mimosas

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Rio Águeda, a jusante da ponte de Falgoselhe

O sentimento de impotência face a um tão vasto estado de calamidade, mas que no fundo é só o culminar de uma história recente de deficiente sensibilidade (e sabedoria, afecto, …) face à natureza desta frágil paisagem, só pode, esse sentimento, ser um pouco mitigado pelo que vamos fazendo no Cabeço Santo, mas que de facto não é senão uma gota de água no imenso mar de necessidades que se apresenta. Quando teremos pessoas, comunidades, que, movidas por um maravilhamento pela vida e pelas suas manifestações, se entregam desmedidamente a essa apaixonada acção de ajudar a trazer vitalidade, beleza, cor, a esta paisagem que antes de ser negra já era cinzenta? Como ajudar a criar esse movimento, sabendo que o potencial (para a dádiva generosa e amorosa) se encontra latente em (quase) todas as almas, mas ofuscado pelas distracções e exigências da vida em sociedade? Reflexões precisam-se e também queremos que as iniciativas que marcarão o 10º aniversário do Projecto sirvam para as alimentar. Por isso, a primeira oportunidade é já no Sábado, dia 3 de Setembro, primeiro momento das comemorações, que culminarão com uma Conferência a realizar no dia 15 de Outubro na Câmara Municipal de Águeda, durante todo o dia. Mais detalhes sobre esta conferência serão tornados públicos em breve. Para já, até dia 3!

Paulo Domingues

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