Jornada de aniversário e sua semana

No dia 31 de Agosto, 3 voluntários meio alheios às temperaturas elevadas que se prometiam e ao intenso cheiro a fumo que se fazia sentir, propuseram-se assinalar os 7 anos do Projecto Cabeço Santo com uma jornada de trabalho voluntário.

Mas, a propósito do fumo e ainda antes de se contar como foi esta jornada, recuemos uns dias. Nada, no anoitecer de 28 de Agosto, fazia prever o que estava para acontecer: o dia, quente, é certo, terminava sem alarido, mas foi já pela calada da noite que, sem se fazer anunciar, começou a soprar aquele temido vento de leste que aqui chamam de vento suão. É um vento de aspecto sinistro, que sopra com temperaturas do ar elevadas (na Quinta feira às 23 horas, em Belazaima, 27ºC), gera ruídos repetitivos e insidiosos sem se conseguir descobrir onde, abre portas fechadas à chave e bate-as de novo antes que alguém lá chegue, descobre qualquer peça metálica meticulosamente guardada e fá-la ecoar pelo escuro da noite (é um vento que nunca aparece em noite de lua cheia), tudo como se um génio de mau feitio se apoderasse da noite e derramasse todas as suas sinistras energias sobre a superfície da escura terra. Numa noite assim é quase impossível dormir porque o génio não apenas semeia ventos que varrem fortes a paisagem como particularmente semeia sobressaltos nos corações e impele as suas almas a sair de casa e olhar em volta, como se tentassem em vão descobrir a origem do mal.

E assim foi a noite de 28 para 29 de Agosto, uma noite que insistia em se assemelhar com uma outra de má memória para esta região, a de 18 de Setembro de 2005, e bastava essa recordação para todo o sono se desvanecer e todo o sobressalto se amplificar. E à medida que a noite, longa e enfurecida, tudo fazia inclinar à vontade do vento, o pior pesadelo que ela podia trazer começou a anunciar-se, mais uma vez para os lados do leste: em vez da luz clara do crepúsculo numa manhã fresca e cristalina, um clarão vermelho e gigantesco que se insinuava, em Belazaima, para lá do Cabeço Santo. Ali, nas as terras vizinhas de Agadão, o génio materializava-se em forma de dragão de muitas cabeças, mas apenas eram visíveis as chamas que das suas entranhas furiosamente se vomitavam. O génio, que ali tinha permanecido em forma de rato, fazendo pensar que seria facilmente esmagado pela força das poderosas armas de que a civilização hoje dispõe, transmutou-se de repente e por um tempo essas armas pareceram brinquedos guardados numa caixa até que o dragão em rato se voltasse a transformar. Pela madrugada, o clarão já se havia escondido atrás de uma gigantesca nuvem de fumo, como se a terra inteira parecesse estar a ser consumida para lá do cabeço, e nada conseguisse deter tal força.

O Cabeço Santo pelas 6:45h de 29 de Agosto

O Cabeço Santo pelas 6:45h de 29 de Agosto

De repente, uma língua de fogo raivosamente lançada pelo dragão galgava o Cabeço Santo e, pela primeira vez, as chamas eram visíveis de Belazaima. A uma escassa centena de metros encontrava-se a área de conservação do Projecto Cabeço Santo no vale nº 1, uma área de medronhal e matagal de difícil acesso, e o desfecho parecia inevitável. Mas eis que, quase de repente, o vento se detinha, o dia, apesar de parecer não ter nascido, permitia que homens e máquinas se deslocassem pelo terreno e pelos céus, e essas máquinas pareciam de novo ganhar poder sobre o dragão.

Pelas 8:20h um foco de incêndio apareceu na vertente ocidental do Cabeço

Pelas 8:20h um foco de incêndio apareceu na vertente ocidental do Cabeço

Passado algum tempo as chamas deixaram de se ver mas estavam apenas escondidas pela densa nuvem de fumo. Agora sem vento, progrediam mais lentamente em direcção ao Feridouro e ao vale nº 1. Mas acabaram por não atingir nem o primeiro nem o segundo. Ainda queimaram eucaliptos mesmo junto à área de conservação do vale nº 1 mas não chegaram a tocá-la! (Aqui fica um público agradecimento a todos os que tornaram este facto possível, ainda que ele não tenha para todos o mesmo significado).

Foto tirada já a 1 de Setembro da área de conservação do vale nº 1

Foto tirada já a 1 de Setembro da área de conservação do vale nº 1

Durante este estranho e escuro dia o sol quase não se mostrou e das densas nuvens de fumo que mercê do vento leste se estenderam por todo o litoral, “choveram” durante todo o dia folhas e cascas de eucalipto queimadas, e algo mais improvável, como gorgulhos do eucalipto ainda vivos, mas meio atordoados por tão atribulada viagem.

Gorgulho do eucalipto vivo, depois de uma "viagem" de alguns km

Gorgulho do eucalipto vivo, depois de uma “viagem” de alguns km

A noite seguinte foi mais serena e fresca, com as mínimas a baixarem já bem abaixo dos 20ºC, quando na noite anterior tinham sido de 23, e a todos pareceu que o dragão tinha sido vencido (mas na verdade apenas voltou à sua inofensiva e insignificante forma, à espera de outra oportunidade, ou quiçá de se transformar noutra criatura temível, perante a qual a bruta força humana e mesmo a engenhosa astúcia nada possam ou pareçam vulgares brincadeiras de crianças, mas isso afinal só significa que talvez precisemos de mais do que bruta força e engenhosa astúcia…)

No dia seguinte, 30 de Agosto, a nuvem de fumo ainda encobria o sol matinal

No dia seguinte, 30 de Agosto, a nuvem de fumo ainda encobria o sol matinal

Quando, no dia 31, a pequena equipa de voluntários se reuniu para abraçar este ainda quente dia, a presença difusa do fumo era ainda notória e não se pode de facto dizer que fosse um dia agradável para ir para o campo, mas o entusiasmo e o interior sentimento de alegria e de reconhecimento pelo facto de, num momento de tão grave perigo, o trabalho persistente e apaixonado de tantos anos (7 exactamente) ter sido poupado a um cataclismo eminente, foram suficientes para que as almas munissem os corpos das energias necessárias a este dia de trabalho.

O destino foi o ribeiro e as árvores que simbolizam a força serena perante as adversidades e a desprendida generosidade numa terra que por vezes impõe duras condições: os carvalhos. Estes, aqui junto ao ribeiro, são contudo uns privilegiados, pois dispõem de um solo de boa qualidade e a frescura de um curso de água próximo. Por outro lado, têm concorrentes muito agressivos, que crescem 10 vezes mais rapidamente do que eles e não fazem realmente parte da sinfonia desta paisagem: as mimosas, claro. Mesmo a vegetação nativa composta por fetos e silvado pode derrubar um carvalho de 2 a 3 metros de altura, o limiar que muitos deles acabaram de ultrapassar. Por isso estas áreas requerem um trabalho persistente e volumoso, mas ao mesmo tempo cuidadoso, em suma, um trabalho como só uma equipa de voluntários pode fazer. Assim, a moto-roçadora trabalhou toda a manhã, desafogando os carvalhos e facilitando o acesso às mimosas, enquanto tesourões e navalhas iam cortando e descascando mimosas.

Área de trabalho durante a manhã de 31 de Agosto

Área de trabalho durante a manhã de 31 de Agosto

Depois do almoço e de um merecido descanso, e dado que estava bastante calor (e um voluntário não é um trabalhador forçado!), a equipa deslocou-se até à ponte sobre o ribeiro por onde passa o percurso pedestre do Cabeço Santo e ficou ali a usufruir do espaço e a observar a vida que fervilhava em torno de uma pequena poça de água corrente, enquanto lá em cima um grande carvalho que sobreviveu ao fogo de 2005 lançava a sua copa de protecção. Como todos eramos razoavelmente leigos em biologia, limitámo-nos a olhar como crianças para aquelas formas de vida tão diferentes e a deleitarmo-nos com elas, sem saber realmente muito sobre o que víamos. Se algum biólogo nos quiser ajudar a dar nomes e a estabelecer relações, claro que agradecemos, e deixamos a seguir algumas fotos.

Criatura de aspecto pré-histórico, que aterrorizou um voluntário

Criatura de aspecto pré-histórico, que aterrorizou um voluntário

Libelinha de grande beleza, apesar da falta de contraste do fundo

Libelinha de grande beleza, apesar da falta de contraste do fundo

Voluntários em observação

Voluntários em observação

Outra libelinha de cores mais discretas

Outra libelinha de cores mais discretas

Outra criatura parecendo saltar do princípio dos tempos

Outra criatura parecendo saltar do princípio dos tempos

Estes movimentam-se à superfície em agitada coordenação

Estes movimentam-se à superfície em agitada coordenação

Uma minúscula rã

Uma minúscula rã

Um deslizador nato

Um deslizador nato

Mesma espécie ou espécie diferente da anterior?

Mesma espécie ou espécie diferente da anterior?

Pelas 16 horas a equipa, já devidamente restabelecida, no corpo e no espirito, voltou ao trabalho, desta vez para cortar e descascar eucaliptos e mimosas numa encosta um pouco a jusante, bem guarnecida de carvalhos e azevinhos, mas onde as indesejadas árvores, desatendidas durante dois anos, rapidamente atingiram portes excessivos. E quando se tirou a foto de encerramento da jornada, junto a um núcleo de carvalhos e castanheiros plantados em 2011, já o dia estava fresco e apetecia ficar. Mas não podia ser: os voluntários tinham, alguns, vindo de longe, e era tempo de regressar a casa.

No fim de mais uma jornada, desta vez uma singular jornada de aniversário

No fim de mais uma jornada, desta vez uma singular jornada de aniversário

O próximo regresso ao Cabeço Santo é para a inauguração do percurso PR8, no dia 15 de Setembro. Até lá!

Paulo Domingues

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5 Respostas so far »

  1. 1

    Raul said,

    Já há muito que não lia palavras escritas com tanto carinho e afecto. Tudo isto só é possível devido à dedicação e persistência de quem ama a sua terra como ninguém. Um exemplo para todos nós! Parabéns, Paulo.

  2. 2

    Maria Matos said,

    Afinal, terá sido milagre ou o facto de ser um espaço cuidado e tratado, a fazer a diferença??
    Se todos os terrenos estivessem trabalhados e cuidados como estes, talvez o malvado dragão não conseguisse tantas tristes invasões …
    … a refletir!!

    • 3

      De facto, convém clarificar: nesta região, a generalidade dos terrenos florestais está, às vezes com excessivo zelo, cuidada e trabalhada, porque são terrenos de elevado potencial produtivo. Por outro lado, por muita atenção que tentemos dar à área de intervenção do projecto, toda ela é vulnerável ao fogo: as áreas de matagal/medronhal dos solos pobres porque assim são por natureza, os vales, principal e secundários, porque as formações de folhosas que aí se procuram implantar ainda não atingiram a maturidade suficiente. Temos de assumir essa vulnerabilidade e não ficar presos ao receio dela, pois correriamos o risco de imobilidade. Quanto ao resto, é das convicções e do íntimo de cada qual… Mas o que é importante acentuar e relembrar é que a imensa mancha de eucliptal de Agadão não ardeu por não estar cuidada, ardeu porque é intrinsecamente vulnerável à circunstância que lhe coube enfrentar.

  3. 4

    Zé Duarte said,

    Um excelente texto Paulo, foi com grande alegria que mais uma vez fui até terras de Belezaima e sem medos (ou quase) enfrentei aquela malta que agora evita andar nas auto-estradas, mas vem para a nacional com vontade de andar a 120 km/h.
    Como já foi escrito, o calor foi muito, mas o trabalho realizado foi compensador, e aos poucos o projecto vai ganhando forma à medida que nele vamos colocando a nossa energia e tantas coisas boas recebemos de volta.
    Obrigado Paulo por seres o deligente e persistente timoneiro que tão bem norteia esta empreitada.

    • 5

      Obrigado Raul e Zé pelas vossas generosas palavras, quiçá excessivas quanto à gestão da “empreitada”, pois por vezes sobram-me dúvidas sobre a justeza desta ou daquela opção. Mas, mais uma vez, não se pode parar por isso, pelo receio de errar, ou pela constatação de que se errou.
      Obrigado, em particular Zé Duarte, pelo “risco” que aceitaste correr para vir até aqui em meio de transporte tão vulnerável, “risco” provavelmente mais elevado do que escorregar numa pedra do rio ou ser atingido por uma navalha ao descascar uma mimosa! Mas, e já que tanto se tem falado de riscos, medos, etc, deixem-me ousar e colocar aqui, mesmo correndo outros “riscos”, uma citação que muito me inspira, mas esperando que a sua força possa ser de inspiração para mais alguém:
      “Temos que extirpar da alma, com a raiz, todo o medo e terror daquilo que, do futuro, vem ao encontro do ser humano. Serenidade frente a todos os sentimentos e sensações perante o futuro o ser humano deve adquirir. Encarar com absoluta equanimidade tudo aquilo que possa vir, e pensar somente que o que vier, virá a até nós de uma direcção espiritual plena de sabedoria.
      Em todo o momento temos que fazer o que é correcto e deixar o restante entregue ao futuro. Isso é o que temos que aprender na nossa época: viver em pura confiança, sem qualquer segurança existencial, confiando na ajuda sempre presente do mundo espiritual.
      Realmente, hoje em dia não pode ser de outra forma, se não quisermos que a coragem submerja. Disciplinemos firmemente a nossa vontade, e procuremos a revelação a partir do interior, todas as manhãs e todas as noites.” (Rudolf Steiner)


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